São Luís Maria Grignion de Montfort. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Tradução de Benoît Six. Editora Retornarei, 6ª edição, 2024. Transcrição dos nn. 1–273, sem notas editoriais. Reprodução para avaliação do projeto; confirmar autorização antes de publicação. 1. Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por Ela que Ele deve reinar no mundo. 2. Maria Se manteve muito oculta durante sua vida, razão pela qual o Espírito Santo e a Igreja A chamam Alma Mater: Mãe escondida e secreta. Sua humildade foi tão profunda que, para Ela, não houve na terra atrativo mais poderoso e mais constante do que Se esconder de Si mesma e de toda criatura, para ser conhecida apenas por Deus. 3. Para atendê-La nos pedidos que Ela Lhe fez de escondê-La, empobrecê-La e humilhá-La, Deus Se comprouve em ocultá-La na sua concepção, no seu nascimento, na sua vida, nos seus mistérios, na sua ressurreição e assunção, aos olhos de quase toda criatura humana. Seus próprios pais não A conheciam, e os anjos se perguntavam com frequência uns aos outros: “Quem é esta?” (Ct 8, 5). Pois o Altíssimo lha escondia; ou, se lhes revelava algo a respeito d’Ela, ocultava-lhes infinitamente mais. 4. Deus Pai consentiu que Ela não fizesse milagre algum na sua vida, pelo menos visíveis, embora Lhe tivesse dado poder para tanto. Deus Filho consentiu que Ela quase não falasse, embora Lhe tivesse comunicado sua sabedoria. Deus Espírito Santo consentiu que seus Apóstolos e Evangelistas falassem d’Ela muito pouco e apenas o necessário para tornar Jesus Cristo conhecido, embora fosse Ela sua fiel esposa. 5. Maria é a obra-prima por excelência do Altíssimo, cujo conhecimento e posse Ele reservou para Si. Maria é a Mãe admirável do Filho, que Se comprouve em humilhá-La e escondê-La durante sua vida, para favorecer sua humildade, tratando-A por mulher, como se fosse uma estranha, embora no seu coração Ele A estimasse e amasse mais que todos os anjos e homens. Maria é a fonte selada e Esposa fiel do Espírito Santo, onde só Ele tem entrada. Maria é o santuário e repouso da Santíssima Trindade, onde Deus Se encontra mais magnífica e divinamente do que em qualquer outro lugar do universo, sem excetuar sua morada sobre os querubins e os serafins. E não é permitido a criatura alguma, por mais pura que seja, entrar nesse santuário, a não ser por um grande privilégio. 6. Digo com os santos: a divina Maria é o paraíso terrestre do novo Adão, onde Ele Se encarnou por obra do Espírito Santo, para aí operar maravilhas incompreensíveis. É o grande e o divino mundo de Deus, onde há belezas e tesouros inefáveis. É a magnificência do Altíssimo, onde Ele escondeu, como em seu seio, seu Filho único, e n’Ele tudo o que há de mais excelente e precioso. Oh! oh! Que grandes e misteriosas coisas esse Deus poderoso realizou nesta criatura admirável, como Ela própria foi obrigada a dizê-lo, apesar de sua profunda humildade: “O poderoso fez em Mim grandes coisas” (Lc 1, 49). O mundo não as conhece, porque é disso incapaz e indigno. 7. Os santos disseram coisas admiráveis desta santa cidade de Deus, e nunca foram tão eloquentes nem tão felizes – segundo eles próprios confessam –, do que quando falaram d’Ela. Depois disso, proclamam que a altura de seus méritos, elevados por Ela até o trono da Divindade, não se pode conhecer; que a largura de sua caridade, mais extensa que a terra, não se pode medir; que a grandeza de seu poder, exercido até sobre o próprio Deus, não se pode compreender; e, enfim, que a profundeza de sua humildade e de todas as suas virtudes e suas graças é um abismo insondável. Ó altura incompreensível! Ó largura inefável! Ó grandeza desmedida! Ó abismo impenetrável! 8. Todos os dias, de um extremo da terra ao outro, no mais alto dos céus, no mais profundo dos abismos, tudo proclama e publica a admirável Maria. Os nove coros dos anjos, homens e mulheres de todas as idades, condições e religiões, bons e maus, e até os demônios, são obrigados a proclamá-La bem-aventurada, quer queiram ou não, pela força da verdade. Todos os anjos nos céus proclamam-Lhe incessantemente, como diz São Boaventura: Santa, santa, santa Maria, Mãe de Deus e Virgem; e Lhe dirigem milhões e milhões de vezes, todos os dias, a saudação angélica: Ave Maria, etc., prosternando-se diante d’Ela e Lhe pedindo a graça de honrá-los com algumas de suas ordens. O próprio São Miguel – disse Santo Agostinho –, embora seja o príncipe de toda a corte celeste, é o mais zeloso em Lhe prestar e a fazer com que Lhe rendam toda sorte de homenagens, sempre atento para ter a honra de ser enviado por Ela em auxílio de qualquer um dos seus servidores. 9. Toda a terra está cheia de sua glória, particularmente entre os cristãos, que A tomam por padroeira e protetora em vários reinos, províncias, dioceses e cidades. Várias catedrais estão consagradas a Deus sob sua invocação. Não existe igreja sem altar em sua honra, não há região nem cantão sem alguma de suas imagens milagrosas, junto às quais os males de qualquer espécie são curados e toda sorte de bens são alcançados. Quantas confrarias e congregações em sua honra! Quantas ordens religiosas sob seu nome e sua proteção! Quantos confrades e irmãs de todas as confrarias e quantos religiosos e religiosas de todas as comunidades publicam seus louvores e anunciam suas misericórdias! Não há criança que, balbuciando a Ave Maria, não A louve; não há pecadores que, em seu próprio endurecimento, não tenham alguma centelha de confiança n’Ela; não há nem mesmo demônio nos infernos que, temendo-A, não A respeite. 10. Depois disso, cumpre dizer com os santos: Nunca nos saciamos de Maria. Ela não foi ainda suficientemente louvada, exaltada, honrada, amada e servida. Ela merece ainda mais louvores, respeitos, amores e serviços. 11. Depois disso, é preciso dizer com o Espírito Santo: Toda a glória da filha do Rei lhe vem do interior, como se toda a glória exterior que Lhe dão à porfia o Céu e a terra nada fosse em comparação da que recebe interiormente pelo Criador. Esta glória não é conhecida das pequenas criaturas, que não podem penetrar no segredo dos segredos do Rei. 12. Depois disso, é preciso exclamarmos com o Apóstolo: Nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração do homem compreendeu as belezas, as grandezas e excelências de Maria, o milagre dos milagres da graça, da natureza e da glória (Cf. 1 Cor 2, 9). Se quereis compreender a Mãe, disse um santo, compreendei o Filho. É uma digna Mãe de Deus: Que aqui se cale toda língua. 13. Meu coração ditou tudo o que acabo de escrever, com uma alegria particular, para mostrar que a divina Maria tem sido desconhecida até o momento, e esta é uma das razões pelas quais Jesus Cristo não é conhecido como deve ser. Se é certo, portanto, que o conhecimento e o reinado de Jesus Cristo se estabelecerão no mundo, tal não será senão uma consequência necessária do conhecimento e do reinado da Santíssima Virgem Maria, que O trouxe ao mundo na primeira vez e O fará brilhar na segunda. 14. Com toda a Igreja confesso que Maria, não sendo senão uma pura criatura saída das mãos do Altíssimo, comparada à sua Majestade infinita é menor que um átomo, ou antes, é nada, uma vez que só Ele é “Aquele que é”. Por conseguinte, esse grande Senhor, sempre independente e bastando-Se a Si mesmo, não teve nem tem necessidade alguma da Santíssima Virgem para o cumprimento de seus desejos e para a manifestação de sua glória. Basta Ele querer para tudo fazer. 15. Digo no entanto que, supostas as coisas como são, tendo Deus desejado começar e concluir suas maiores obras pela Santíssima Virgem depois de tê-La formado, é de se acreditar que não mudará absolutamente de conduta pelos séculos dos séculos, pois Ele é Deus, e nunca muda em seus sentimentos nem em sua conduta. 16. Deus Pai deu seu Unigênito ao mundo somente por Maria. Por mais suspiros que tenham dado os patriarcas, por mais pedidos que tenham feito os profetas e os santos da Antiga Lei, durante quatro mil anos, para ter esse tesouro, só Maria o mereceu e encontrou graça diante de Deus, pela força de suas preces e a elevação de suas virtudes. O mundo sendo indigno, disse Santo Agostinho, de receber o Filho de Deus diretamente das mãos do Pai, Ele O deu a Maria, para que o mundo O recebesse por Ela. O Filho de Deus Se fez homem para nossa salvação, mas em Maria e por Maria. Deus Espírito Santo formou Jesus Cristo em Maria, porém depois de Lhe ter pedido seu consentimento através de um dos primeiros ministros de sua corte. 17. Deus Pai comunicou a Maria sua fecundidade, na medida em que uma pura criatura era capaz de recebê-la, para Lhe dar o poder de produzir seu Filho e todos os membros de seu Corpo místico. 18. Deus Filho desceu em seu seio virginal, qual novo Adão em seu Paraíso terrestre, para ali achar suas complacências e operar, ocultamente, maravilhas da graça. Esse Deus feito homem encontrou sua liberdade ao Se ver aprisionado no seio de Maria; fez brilhar sua força ao Se deixar carregar por esta jovem; encontrou sua glória, e a de seu Pai, ao ocultar seus esplendores a todas as criaturas da terra, para os revelar somente a Maria; glorificou sua independência e majestade ao depender desta amável Virgem na sua concepção, no seu nascimento, na sua apresentação no Templo, na sua vida escondida de trinta anos e até na sua morte, à qual Ela devia assistir, para consentir em que Ele fosse imolado ao Pai Eterno, como outrora Isaac seria sacrificado pelo consentimento de Abraão à vontade de Deus. É Ela que O amamentou, nutriu, sustentou, educou e O sacrificou por nós. Ó admirável e incompreensível dependência de um Deus que o Espírito Santo não pôde passar sob silêncio no Evangelho – embora tenha escondido de nós quase todas as coisas admiráveis que esta Sabedoria encarnada realizou na sua vida oculta – para nos mostrar o seu valor e a sua glória infinita. Jesus Cristo deu mais glória a Deus Pai pela submissão que teve à sua Mãe durante trinta anos, do que Lhe teria dado se convertesse a terra inteira pela realização das maiores maravilhas. Oh! como glorificamos altamente a Deus quando, para agradá-Lo, nos submetemos a Maria, a exemplo de Jesus Cristo, nosso único modelo! 19. Se examinarmos de perto o resto da vida de Jesus Cristo, veremos que Ele quis começar seus milagres por Maria. Santificou São João Batista no seio de sua mãe, Santa Isabel, pela palavra de Maria; assim que Ela falou, João foi santificado, e é este seu primeiro e maior milagre na ordem da graça. Nas bodas de Caná, Jesus mudou a água em vinho atendendo ao humilde pedido de Maria, e é este seu primeiro milagre na ordem da natureza. Começou e continuou seus milagres por Maria; e por Ela os continuará a realizar até o fim dos séculos. 20. Deus Espírito Santo, sendo estéril em Deus, isto é, não produzindo nenhuma outra Pessoa divina, tornou-Se fecundo por Maria, que Ele desposou. É com Ela, n’Ela e d’Ela que Ele produziu sua obra-prima, um Deus feito homem, e produz todos os dias, até o fim do mundo, os predestinados e os membros do corpo cuja cabeça é o adorável Jesus. Por isso, quanto mais Ele encontra sua querida e inseparável Esposa Maria numa alma, tanto mais Se torna operante e poderoso para produzir Jesus Cristo nessa alma e essa alma em Jesus Cristo. 21. Não se quer dizer com isto que a Santíssima Virgem dê ao Espírito Santo a fecundidade, como se Ele não a tivesse, pois, sendo Deus, Ele possui a fecundidade ou a capacidade de produzir, assim como o Pai e o Filho, embora não a transforme em ato, não produzindo nenhuma outra Pessoa divina. Mas, queremos dizer que o Espírito Santo pelo intermédio da Santíssima Virgem – da qual deseja Se servir, embora não tivesse necessidade absoluta de fazê-lo – reduz a ato sua fecundidade ao produzir n’Ela e por Ela Jesus Cristo e seus membros. Mistério da graça desconhecido até dos cristãos mais sábios e espirituais! 22. A conduta que as três Pessoas da Santíssima Trindade tiveram na Encarnação e na primeira vinda de Jesus Cristo, continuam a tê-la todos os dias de uma maneira invisível na Santa Igreja, e a terão até a consumação dos séculos, na última vinda de Jesus Cristo. 23. Deus Pai reuniu todas as águas e lhes deu o nome de mar; reuniu todas as suas graças e as chamou Maria. Esse grande Deus tem um tesouro ou um celeiro muito rico, onde encerrou tudo o que há de belo, brilhante, raro e precioso, incluindo seu próprio Filho. Esse tesouro imenso é Maria, que os santos chamam o tesouro do Senhor, de cuja plenitude os homens são enriquecidos. 24. Deus Filho comunicou à sua Mãe tudo o que Ele adquiriu pela sua vida e morte, seus méritos infinitos e suas admiráveis virtudes, e A fez tesoureira de tudo o que seu Pai Lhe deu em herança. É por meio de Maria que Jesus aplica seus méritos aos seus membros, que comunica suas virtudes e distribui suas graças. Ela é seu canal misterioso, seu aqueduto por onde faz passar, suave e abundantemente, suas misericórdias. 25. Deus Espírito Santo comunicou a Maria, sua fiel Esposa, seus dons inefáveis e A escolheu como dispensadora de tudo o que possui. De maneira que Ela distribui a quem quer, quanto quer, como e quando quer, todos os seus dons e suas graças, e nenhum dom celeste é concedido aos homens sem que passe pelas suas mãos virginais. Pois tal é a vontade de Deus, que quis que tivéssemos tudo por Maria. Assim, será enriquecida, elevada e honrada pelo Altíssimo Aquela que, durante toda a sua vida, despojou-Se, humilhou-Se e Se escondeu até o fundo do nada, em sua própria humildade. Eis os sentimentos da Igreja e dos Santos Padres. 26. Se eu falasse aos espíritos fortes deste tempo, provaria mais extensamente tudo o que digo de modo simples, pela Sagrada Escritura e pelos Santos Padres (cujas passagens latinas eu citaria), e por várias razões sólidas que se poderão ler, expostas pelo Rev. Pe. Poiré em sua Tríplice Coroa da Santíssima Virgem. Mas, como falo particularmente aos pobres e simples que, sendo de boa vontade e tendo mais fé que o comum dos sábios, creem mais simplesmente e com mais mérito, contento-me em declarar-lhes simplesmente a verdade, sem me deter em citar todas as passagens latinas, que não entendem. No entanto, não deixarei de relatar algumas, sem procurá-las muito. Continuemos. 27. Posto que a graça aperfeiçoa a natureza, e a glória aperfeiçoa a graça, é certo que Nosso Senhor é ainda no Céu tão Filho de Maria como o foi na terra. Por conseguinte, conservou a submissão e a obediência do mais perfeito de todos os filhos para com a melhor de todas as mães. Importa, porém, não vermos nessa dependência algum rebaixamento ou imperfeição de Jesus Cristo. Pois Maria, estando infinitamente abaixo de seu Filho, que é Deus, não manda n’Ele como uma mãe terrena mandaria no seu filho que lhe é submisso. Estando toda transformada em Deus pela graça e pela glória que n’Ele transforma todos os santos, Maria não pede, não quer nem faz nada que seja contrário à eterna e imutável vontade divina. Quando lemos, portanto, nos escritos de São Bernardo, São Bernardino, São Boaventura, etc., que no Céu e na terra tudo está sujeito a Maria, inclusive o próprio Deus, querem eles dizer que a autoridade que Deus quis dar a Ela é tão grande que parece igualar o poder divino, e que as suas orações e súplicas são tão poderosas junto de Deus que equivalem sempre a ordens junto da sua Majestade. Ele nunca resiste à prece de sua querida Mãe, pois Ela é sempre humilde e conforme à sua vontade. Pela força de sua prece, Moisés deteve de maneira tão poderosa a ira de Deus sobre os israelitas, que esse altíssimo e infinitamente misericordioso Senhor, não lhe podendo resistir, disse-lhe que O deixasse enfurecer-Se e castigar aquele povo rebelde. O que então devemos pensar, com muito maior razão, da prece da humilde Maria, a digna Mãe de Deus, que é mais poderosa junto à sua Majestade que as preces e intercessões de todos os anjos e santos do Céu e da terra? 28. No Céu, Maria impera sobre os anjos e os bem-aventurados. Como recompensa pela sua profunda humildade, Deus Lhe deu o poder e a incumbência de encher de santos os tronos deixados vazios pelos anjos apóstatas que caíram por orgulho. É a vontade do Altíssimo, que exalta os humildes (Cf. Lc 1, 52), que o Céu, a terra e os infernos se curvem, de bom ou mau grado, às ordens da humilde Maria. Ele A constituiu soberana do Céu e da terra, a general de seus exércitos, a tesoureira de seus tesouros, a dispensadora de suas graças, a realizadora de suas grandes maravilhas, a reparadora do gênero humano, a medianeira dos homens, a exterminadora dos inimigos de Deus e a fiel companheira de suas grandezas e triunfos. 29. Deus Pai quer formar filhos por Maria até a consumação do mundo, e Lhe diz estas palavras: “Habita em Jacó” (Eclo 24, 13), quer dizer, fazei vossa morada e residência em meus filhos e predestinados, simbolizados por Jacó, e de maneira alguma nos filhos do demônio e nos réprobos, simbolizados por Esaú. 30. Como na geração natural e corporal há um pai e uma mãe, assim também na geração sobrenatural e espiritual há um pai, que é Deus, e uma mãe, que é Maria. Todos os verdadeiros filhos de Deus e predestinados têm Deus por pai e Maria por mãe; e quem não tem Maria por mãe, não tem Deus por pai. É por isso que os réprobos, como os heréticos, cismáticos, etc., que odeiam ou olham com desprezo ou indiferença a Santíssima Virgem, não têm absolutamente Deus por pai, embora disso se gloriem, porque não têm Maria por mãe. Se A tivessem por mãe, A amariam e honrariam como um verdadeiro e bom filho ama e honra naturalmente a mãe que lhe deu a vida. O sinal mais infalível e indubitável para distinguir um herege, um homem de má doutrina, um réprobo, de um predestinado, é que o herege e o réprobo não têm senão desprezo ou indiferença pela Santíssima Virgem, tentando, pelas suas palavras e exemplos, diminuir-Lhe o culto e o amor, aberta ou ocultamente, às vezes sob belos pretextos. Infelizmente! Deus Pai não disse a Maria para fazer sua morada neles, porque são Esaús. 31. Deus Filho quer Se formar e, por assim dizer, Se encarnar todos os dias, por meio de sua querida Mãe, em seus membros, e lhe diz: “Tomai posse da tua herança em Israel” (Eclo 24, 13). É como se dissesse: Deus, meu Pai, Me deu por herança todas as nações da terra, todos os homens bons e maus, predestinados e réprobos. Conduzirei uns com a vara de ouro e outros, com a vara de ferro. Serei o pai e o advogado de uns, o justo vingador de outros, e o juiz de todos. Mas Vós, minha querida Mãe, não tereis por herança e posse senão os predestinados simbolizados por Israel. Como sua boa mãe, lhes dareis à luz, os nutrireis e educareis. Como sua soberana, os conduzireis, governareis e defendereis. 32. “Um homem e um homem nasceu dela” (Sl 87, 5), diz o Espírito Santo. Segundo a explicação de alguns Padres, o primeiro homem nascido em Maria é o Homem-Deus, Jesus Cristo; o segundo é um puro homem, filho de Deus e de Maria por adoção. Se Jesus Cristo, cabeça dos homens, nasceu d’Ela, os predestinados, que são os membros dessa cabeça, devem também nascer d’Ela, por uma consequência necessária. Uma mesma mãe não traz ao mundo a cabeça ou o chefe sem os membros, nem os membros sem a cabeça; senão, seria uma monstruosidade da natureza. Do mesmo modo, na ordem da graça, a cabeça e os membros nascem de uma mesma mãe; e se um membro do Corpo místico de Jesus Cristo, isto é, um predestinado, nascesse de uma outra mãe que não fosse Maria, que gerou a cabeça, não seria um predestinado nem um membro de Jesus Cristo, mas um monstro na ordem da graça. 33. Além disso, Jesus Cristo é hoje, como o será sempre, o fruto de Maria, como o Céu e a terra Lhe repetem mil e mil vezes todos os dias: “E bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”. Assim, é certo que Jesus Cristo é tão verdadeiramente o fruto e a obra de Maria em cada homem em particular, que O possui, quanto em todo o mundo em geral. De tal modo que, se algum fiel tiver Jesus Cristo formado em seu coração, ele pode dizer ousadamente: “Mil graças a Maria, o que eu possuo é fruto e obra sua, e sem Ela eu não O teria”. E a Ela se podem aplicar, mais verdadeiramente do que São Paulo as aplicou a si próprio, estas palavras: Todos os dias dou à luz os filhos de Deus, até que Jesus Cristo, meu Filho, seja neles formado na plenitude de sua idade (Cf. Ga 4, 19). Santo Agostinho, superando a si mesmo e a tudo o que eu acabo de dizer, afirma que todos os predestinados, para serem conformes à imagem do Filho de Deus, são neste mundo escondidos no seio da Santíssima Virgem, onde são guardados, nutridos, mantidos e engrandecidos por essa boa Mãe, até que Ela os gere para a glória, após a morte, que é propriamente o dia de seu nascimento, como chama a Igreja a morte dos justos. Ó mistério da graça desconhecido dos réprobos e pouco conhecido dos predestinados! 34. Deus Espírito Santo quer formar eleitos em Maria e por Maria, e Lhe diz: Lançai, minha bem-amada e minha Esposa, as raízes de todas as vossas virtudes em meus eleitos (Cf. Eclo 24, 13), a fim de que eles cresçam de virtude em virtude e de graça em graça. Tive tanta complacência em Vós, quando vivíeis na terra praticando as mais sublimes virtudes, que desejo ainda Vos encontrar sobre a terra, sem deixar de estar no Céu. Reproduzi-Vos para esse fim em meus eleitos: que Eu veja neles, com agrado, as raízes de vossa fé invencível, de vossa humildade profunda, de vossa mortificação universal, de vossa oração sublime, de vossa caridade ardente, de vossa esperança firme e de todas as vossas virtudes. Vós continuais a ser minha Esposa, tão fiel, tão pura e tão fecunda como nunca: que vossa fé me dê fiéis; que vossa pureza me dê virgens; que vossa fecundidade me dê eleitos e templos. 35. Quando Maria lança suas raízes numa alma, nela produz maravilhas da graça que só Ela pode produzir, pois só Ela é a Virgem fecunda, que nunca teve nem terá quem a iguale em pureza e fecundidade. Maria produziu, com o Espírito Santo, a maior maravilha que já existiu ou existirá, que é um Deus-Homem. E produzirá, consequentemente, as maiores coisas que hão de existir nos últimos tempos. A formação e a educação dos grandes santos, que viverão no fim do mundo, Lhes estão reservadas; pois somente essa Virgem singular e milagrosa pode produzir, em união com o Espírito Santo, coisas únicas e extraordinárias. 36. Quando o Espírito Santo, seu Esposo, A encontra numa alma, Ele voa para lá, entra nela plenamente, comunica-Se a essa alma abundantemente, na mesma medida em que ela dá lugar à sua Esposa. E uma das grandes razões pelas quais o Espírito Santo não opera agora maravilhas retumbantes nas almas, é porque não encontra nelas uma união bastante grande com sua fiel e inseparável Esposa. Digo: inseparável Esposa, pois desde que este Amor substancial do Pai e do Filho desposou Maria para produzir Jesus Cristo, a cabeça dos eleitos, e Jesus Cristo nos eleitos, Ele nunca A repudiou, porque Ela sempre foi fiel e fecunda. 37. Do que acabo de dizer deve-se evidentemente concluir: Primeiro, que Maria recebeu de Deus um grande poder sobre as almas dos eleitos. Pois Ela não pode fazer neles sua morada, como Deus Pai Lhe ordenou, formá-los, nutri-los e fazê-los nascer para a vida eterna como sua mãe, tê-los por sua herança e porção, formá-los em Jesus Cristo e Jesus Cristo neles, lançar nos seus corações as raízes de suas virtudes, e ser a companheira inseparável do Espírito Santo nas obras de suas graças, Ela não pode, repito, fazer tudo isso, a menos que tenha direito e domínio nas suas almas por uma graça singular do Altíssimo que, tendo-Lhe dado poder sobre seu Filho único e natural, também Lhe deu poder sobre seus filhos adotivos, não somente quanto ao corpo, o que seria pouco, mas também quanto à alma. 38. Maria é a Rainha do Céu e da terra por graça, como Jesus é o Rei por natureza e conquista. Ora, como o reino de Jesus Cristo consiste principalmente no coração ou interior do homem, segundo esta palavra: “O reino de Deus está no interior de vós” (Lc 17, 21), assim também o reino da Santíssima Virgem está principalmente no interior do homem, isto é, na sua alma. E é principalmente nas almas que Ela é mais glorificada com seu Filho do que em todas as criaturas visíveis, e podemos chamá-La, com os santos, a Rainha dos Corações. 39. Em segundo lugar, é preciso concluir que a Santíssima Virgem sendo necessária a Deus, de uma necessidade que se chama de hipotética, em consequência da vontade divina, Ela é muito mais necessária aos homens para chegarem a seu fim último. Não se pode, portanto, confundir a devoção à Santíssima Virgem com a devoção aos outros santos, como se ela não fosse mais necessária, mas facultativa e além das obrigações de piedade. 40. O douto e piedoso Suárez, da Companhia de Jesus, o sábio e devoto Justo Lípsio, doutor de Lovaina, e vários outros, provaram de maneira incontestável, baseados na opinião dos Padres (entre outros, Santo Agostinho, Santo Efrém, diácono de Edessa, São Cirilo de Jerusalém, São Germano de Constantinopla, São João Damasceno, Santo Anselmo, São Bernardo, São Bernardino, São Tomás e São Boaventura), que a devoção à Santíssima Virgem é necessária para a salvação. E que é sinal infalível de condenação – segundo o sentir do próprio Ecolampádio e de alguns outros – não ter estima e amor pela Virgem Santa; e que, pelo contrário, é sinal infalível de predestinação ser-Lhe inteira e verdadeiramente dedicado ou devoto. 41. Provam-no as figuras e palavras do Antigo e Novo Testamento, as opiniões e os exemplos dos santos o confirmam, a razão e a experiência o ensinam e o demonstram; e o próprio demônio e seus asseclas, contrariados e pressionados pela força da verdade, foram muitas vezes obrigados a confessá-lo. De todas as passagens dos santos Padres e Doutores que amplamente compilei para provar esta verdade, cito apenas uma para não me alongar demais: Ser vosso devoto, ó Virgem Santíssima, diz São João Damasceno, é uma arma de salvação que Deus dá àqueles que quer salvar. 42. Poderia transcrever aqui várias histórias que comprovam a mesma verdade, entre outras: 1) A que vem narrada nas crônicas de São Francisco, quando ele viu em êxtase uma grande escada que chegava ao Céu, no topo da qual estava Nossa Senhora. Foi-lhe mostrado que era preciso subir por essa escada para se chegar ao Céu. 2) Ou a que está nas crônicas de São Domingos, segundo a qual quinze mil demônios possuíam a alma de um infeliz herege perto de Carcassona, onde o santo pregava o Rosário. Por ordem da Santíssima Virgem e para a confusão deles, os demônios foram obrigados a confessar grandes e consoladoras verdades sobre a devoção a Maria. E o fizeram com tanta força e clareza que não se pode ler essa história autêntica e o elogio que o demônio fez, contra sua vontade, da devoção a Ela, sem verter lágrimas de alegria, por pouco que se seja devoto de Nossa Senhora. 43. Se a devoção à Santíssima Virgem é necessária a todos os homens para simplesmente alcançar sua salvação, ela o é ainda mais para aqueles que são chamados a uma perfeição particular. E não acredito que uma pessoa possa adquirir uma união íntima com Nosso Senhor e uma perfeita fidelidade ao Espírito Santo, sem uma grande união com Maria e sem uma grande dependência de seu socorro. 44. Só Maria encontrou graça diante de Deus, sem auxílio de nenhuma outra pura criatura. Todos os que acharam graça diante de Deus, desde então, só por seu intermédio a obtiveram; e também só por Ela a encontrarão todos os que ainda hão de vir. Ela estava plena de graça ao ser saudada pelo arcanjo Gabriel, e foi superabundantemente repleta de graça pelo Espírito Santo quando Ele A cobriu com sua sombra inefável. E de tal maneira essa dupla plenitude aumentou dia a dia, momento a momento, que Maria atingiu um imenso e inconcebível patamar de graça. Por isso o Altíssimo A constituiu a única guardiã de seus tesouros e a única dispensadora de suas graças, para enobrecer, elevar e enriquecer quem Ela quiser; para fazer passar, apesar de tudo, quem Ela quiser pela porta estreita da vida, e para dar o trono, o cetro e a coroa de rei a quem Ela desejar. Jesus é sempre e em toda parte o fruto e Filho de Maria; e Maria é em toda parte a árvore verdadeira que dá o fruto da vida, e a verdadeira mãe que o produz. 45. Só a Maria Deus confiou as chaves dos celeiros do divino amor, e o poder de entrar nas vias mais sublimes e secretas da perfeição, e de nelas fazer entrar os outros. Só Maria dá aos miseráveis filhos da infiel Eva a entrada no Paraíso terrestre, para aí passearem agradavelmente com Deus, para aí se esconderem em segurança dos seus inimigos, e para aí se alimentarem deliciosamente do fruto das árvores da vida e da ciência do bem e do mal – sem temer a morte –, e beberem a grandes tragos as celestes águas da bela fonte que aí jorra em abundância. Ou antes, sendo Ela própria esse Paraíso terrestre, essa terra virgem e abençoada de onde Adão e Eva pecadores foram expulsos, só acolhe em Si aqueles e aquelas que Lhe apraz, para os tornar santos. 46. Todos os ricos do povo – para me servir da expressão do Espírito Santo, segundo a explicação de São Bernardo – suplicam o vosso favor de século em século, e particularmente no fim do mundo. Isto quer dizer que os mais santos, as almas mais ricas em graça e em virtudes, serão as mais assíduas em rezar à Santíssima Virgem e em tê-La sempre presente como seu perfeito modelo a ser imitado, e como seu auxílio poderoso para socorrê-las. 47. Disse que isso acontecerá particularmente no fim do mundo e em breve, porque o Altíssimo e sua Santa Mãe devem suscitar grandes santos, que ultrapassarão tanto em santidade a maioria dos outros santos, quanto os cedros do Líbano ultrapassam os arbustos, como foi revelado a uma santa alma cuja vida foi escrita por M. de Renty. 48. Essas grandes almas, cheias de graça e de zelo, serão escolhidas para se opor aos inimigos de Deus, que se agitarão de todos os lados, e serão singularmente devotas da Santíssima Virgem, esclarecidas pela sua luz, nutridas de seu leite, conduzidas pelo seu espírito, sustentadas pelo seu braço e guardadas sob sua proteção, de modo que combaterão com uma mão e edificarão com a outra. Com uma mão, combaterão, derrubarão, esmagarão os hereges com suas heresias, os cismáticos com seus cismas, os idólatras com suas idolatrias e os pecadores com suas impiedades. Com a outra mão, edificarão o templo do verdadeiro Salomão e a mística cidade de Deus, quer dizer, a Santíssima Virgem, chamada pelos Santos Padres o Templo de Salomão e a Cidade de Deus. Por suas palavras e exemplos, levarão todo o mundo à verdadeira devoção a Maria, o que lhes atrairá muitos inimigos, mas também muitas vitórias e glória para Deus. É o que Deus revelou a São Vicente Ferrer, grande apóstolo de seu século, como ele o assinalou claramente numa de suas obras. É o que o Espírito Santo parece ter predito no Salmo 58, com estas palavras: “Para saberem que Deus é Senhor em Jacó e em toda a terra; eles retornarão à tarde, e sofrerão a fome como cachorros, e andarão em volta da cidade para buscar o que comer” (Sl 58, 14-15). Essa cidade, que os homens circundarão no fim do mundo para se converterem e saciarem sua fome de justiça, é a Santíssima Virgem, chamada pelo Espírito Santo a cidade e sede de Deus. 49. É por Maria que a salvação do mundo começou, e é por Maria que deve ser consumada. Maria quase não apareceu na primeira vinda de Jesus Cristo, a fim de que os homens, ainda pouco instruídos e esclarecidos sobre a pessoa de seu Filho, não se afastassem da verdade, apegando-se intensa e grosseiramente a Ela, por causa dos encantos admiráveis que o Altíssimo Lhe havia concedido, inclusive exteriormente. O que é tão verdadeiro que São Dionísio, o Areopagita, nos deixa por escrito que, quando A viu, A teria tomado por uma divindade, por causa de seus encantos secretos e de sua beleza incomparável, se a fé, na qual estava bem confirmado, não lhe tivesse ensinado o contrário. Mas, na segunda vinda de Jesus Cristo, Maria deve ser conhecida e revelada pelo Espírito Santo, a fim de por Ela fazer conhecer, amar e servir Jesus Cristo, uma vez que não subsistirão mais as razões que O levaram a ocultar sua Esposa durante a vida e a não revelá-La senão bem pouco desde a pregação do Evangelho. 50. Deus quer, portanto, revelar e manifestar Maria, a obra-prima de suas mãos, nesses últimos tempos. 1) Porque, em sua profunda humildade, Ela Se escondeu neste mundo e Se colocou mais abaixo que o pó, tendo obtido de Deus, de seus Apóstolos e Evangelistas que não fosse manifestada. 2) Porque, sendo a obra-prima das mãos de Deus, tanto no nosso mundo pela graça, como no Céu pela glória, Ele quer, por meio d’Ela, ser glorificado e louvado sobre a terra pelos viventes. 3) Como Ela é a aurora que precede e descobre o Sol de justiça, que é Jesus Cristo, deve ser conhecida e vista, para que Jesus Cristo também o seja. 4) Sendo a via pela qual Jesus Cristo veio a nós pela primeira vez, Ela o será ainda quando Ele vier na segunda vez, embora de maneira distinta. 5) Sendo o meio seguro e a via reta e imaculada para ir a Jesus Cristo e O encontrar perfeitamente, é por Ela que O devem achar as boas almas chamadas a brilhar em santidade. Aquele que achar Maria encontrará a vida. Mas não pode achar Maria quem não A procura; não pode procurá-La quem não A conhece; pois não se procura nem se deseja um objeto desconhecido. É preciso, portanto, que Maria seja mais conhecida do que nunca, para maior conhecimento e glória da Santíssima Trindade. 6) Maria deve brilhar, mais do que nunca, em misericórdia, em força e em graça nesses últimos tempos. Em misericórdia, para trazer de volta e receber amorosamente os pobres pecadores e extraviados que se converterão e voltarão à Igreja Católica. Em força contra os inimigos de Deus, os idólatras, cismáticos, maometanos, judeus e ímpios empedernidos, que se revoltarão terrivelmente para seduzir e fazer cair, por meio de promessas e ameaças, todos aqueles que lhes forem contrários. Enfim, Ela deve brilhar em graça, para animar e sustentar os valentes soldados e fiéis servos de Jesus Cristo, que combaterão pelos seus interesses. 7) Enfim, Maria deve ser terrível para o demônio e seus asseclas como um exército em ordem de batalha, principalmente nesses últimos tempos, porque o demônio, sabendo bem que tem pouco tempo, e muito menos do que nunca, para perder as almas, redobra todos os dias seus esforços e seus combates. Ele suscitará em breve cruéis perseguições e armará terríveis ciladas aos servos fiéis e verdadeiros filhos de Maria, que lhe dão mais trabalho para vencer do que os outros. 51. É principalmente a essas últimas e cruéis perseguições do demônio, que aumentarão todos os dias até o reino do Anticristo, que se deve aplicar a primeira e célebre predição e maldição de Deus lançada no Paraíso terrestre contra a serpente. Vem a propósito explicá-la aqui para a glória da Santíssima Virgem, para a salvação de seus filhos e a confusão do demônio. “Porei inimizades entre ti e a mulher, entre tua raça e a d’Ela; Ela te esmagará a cabeça, e tu armarás ciladas ao seu calcanhar” (Gen 3,15). 52. Deus nunca fez e formou senão uma única inimizade, porém irreconciliável, que há de durar e mesmo aumentar até o fim: é entre Maria, sua digna Mãe, e o demônio; entre os filhos e servos da Santíssima Virgem, e os filhos e sequazes de Lúcifer. Deste modo, o mais terrível inimigo que Deus constituiu contra o demônio é Maria, sua Santa Mãe. Ele A dotou desde o Paraíso terrestre, embora Ela existisse ainda apenas na sua mente, de tanto ódio contra esse maldito inimigo de Deus, tanto engenho para descobrir a malícia dessa antiga serpente, tanta força para vencer, arrasar e esmagar esse orgulhoso ímpio, que o demônio A teme mais, não só do que a todos os anjos e homens, mas, em certo sentido, do que ao próprio Deus. Não que a ira, o ódio e o poder de Deus não sejam infinitamente maiores do que os da Virgem Maria, pois as perfeições d’Ela são limitadas. Mas, é que, primeiro, Satanás, sendo orgulhoso, sofre infinitamente mais por ser vencido e castigado por uma pequena e humilde serva de Deus, e a humildade d’Ela o humilha mais do que o poder divino. Segundo, porque Deus deu a Maria um poder tão grande contra os demônios, que estes temem mais – como foram muitas vezes obrigados a confessar pela boca dos possessos – um só de seus suspiros por alguma alma, do que as preces de todos os santos, e uma só de suas ameaças contra eles do que todos os seus outros tormentos. 53. O que Lúcifer perdeu por orgulho, Maria o ganhou por humildade; o que Eva condenou e perdeu por desobediência, Maria o salvou por obediência. Eva, ao obedecer à serpente, perdeu consigo todos os seus filhos e os entregou ao demônio; Maria, ao Se tornar perfeitamente fiel a Deus, salvou consigo todos os seus filhos e servos, e os consagrou à sua Majestade. 54. Deus estabeleceu não apenas uma inimizade, mas inimizades, não só entre Maria e o demônio, mas entre a raça da Virgem e a raça do demônio; isso quer dizer que Deus pôs inimizades, antipatias e ódios secretos entre os verdadeiros filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e escravos do demônio: eles não se amam nem têm qualquer afinidade uns com os outros. Os filhos de Belial, os escravos de Satanás, os amigos do mundo (pois é a mesma coisa), sempre perseguiram até hoje e perseguirão mais do que nunca aqueles e aquelas que pertencem à Santíssima Virgem, como outrora Caim perseguiu seu irmão Abel, e Esaú seu irmão Jacó, que são as figuras dos réprobos e dos predestinados. Mas a humilde Maria alcançará sempre a vitória sobre esse orgulhoso, e tão grande que chegará a lhe esmagar a cabeça onde reside seu orgulho. Ela descobrirá sempre seus fingimentos infernais, dissipará seus conselhos diabólicos e protegerá até o fim dos tempos seus fiéis servos contra a garra cruel do demônio. O poder de Maria sobre todos os diabos brilhará particularmente nos últimos tempos, quando satanás armará ciladas ao seu calcanhar, isto é, aos seus humildes escravos e seus pobres filhos que Ela suscitará para fazer guerra ao demônio. Eles serão pequenos e pobres segundo o mundo, e rebaixados diante de todos como o calcanhar, pisoteados e perseguidos como o calcanhar o é em relação aos outros membros do corpo. Mas, em troca, serão ricos da graça de Deus, que Maria lhes distribuirá abundantemente; grandes e destacados em santidade diante de Deus, superiores a toda criatura pelo seu zelo ardente, e tão fortemente apoiados pelo socorro divino que, com a humildade de seu calcanhar e em união com Maria, esmagarão a cabeça do demônio e farão triunfar Jesus Cristo. 55. Enfim, Deus quer que sua Santa Mãe seja hoje mais conhecida, mais amada, mais honrada do que nunca foi. O que acontecerá, sem dúvida, se os predestinados adotarem, com a graça e luz do Espírito Santo, a prática interior e perfeita que lhes revelarei em seguida. Eles verão, então, tão claramente quanto a fé lhes permitir, esta formosa Estrela do mar, e chegarão ao Porto seguro, apesar das tempestades e dos piratas, seguindo sua conduta. Conhecerão as grandezas dessa Soberana, e se consagrarão inteiramente a seu serviço como seus súditos e seus escravos de amor. Provarão suas doçuras e suas bondades maternais, e A amarão carinhosamente como seus filhos bem-amados. Conhecerão as misericórdias de que Ela está repleta e sentirão a necessidade de seu socorro, e recorrerão a Ela em todas as coisas como à sua querida advogada e medianeira junto de Jesus Cristo. Saberão que Ela é o meio mais seguro, mais fácil, mais curto e mais perfeito para chegar a Jesus Cristo, e se entregarão a Ela de corpo e alma, sem limite, para pertencer do mesmo modo a Jesus Cristo. 56. Mas quem serão esses servos, escravos e filhos de Maria? Serão um fogo ardente, ministros do Senhor que atearão o fogo do divino amor por toda parte. Serão como flechas pontiagudas na mão da poderosa Maria para transpassar seus inimigos (Cf. Sl 126, 4). Serão filhos de Levi, bem purificados pelo fogo das grandes tribulações e bem unidos a Deus, que trarão o ouro do amor divino no coração, o incenso da oração no espírito e a mirra da mortificação no corpo, e serão por toda parte o bom odor de Jesus Cristo para os pobres e os pequenos, e um odor de morte para os grandes, os ricos e os orgulhosos mundanos. 57. Serão nuvens tonitruantes que voarão pelos ares ao menor sopro do Espírito Santo. E, sem se apegar a nada, sem se espantar nem se afligir com nada, derramarão a chuva da palavra de Deus e da vida eterna, trovejarão contra o pecado, clamarão contra o mundo, golpearão o demônio e seus asseclas, e transpassarão de um lado ao outro, para a vida ou para a morte, com sua espada de dois gumes da palavra de Deus, todos aqueles a quem forem enviados da parte do Altíssimo. 58. Serão verdadeiros apóstolos dos últimos tempos, a quem o Senhor das virtudes dará a palavra e a força para operar maravilhas e conquistar despojos gloriosos sobre seus inimigos; dormirão sem ouro nem prata e, o que é melhor, sem preocupações no meio de outros padres, eclesiásticos e clérigos (Cf. Sl 67, 14). E, no entanto, terão as asas prateadas da pomba para ir com a pura intenção da glória de Deus e da salvação das almas aonde o Espírito Santo os chamar, e deixarão atrás de si, nos lugares onde tiverem pregado, tão somente o ouro da caridade que é o cumprimento de toda a lei. 59. Enfim, sabemos que serão verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, que seguirão as pegadas de sua pobreza, humildade, desprezo do mundo e caridade, ensinando a via estreita de Deus na pura verdade, segundo o santo Evangelho, e não segundo as máximas do mundo, sem se afligir nem fazer acepção de pessoa, sem poupar, ouvir nem recear nenhum mortal, por poderoso que seja. Terão em sua boca a espada de dois gumes da palavra de Deus; carregarão nos seus ombros o estandarte ensanguentado da Cruz, o crucifixo na mão direita, o terço na esquerda, os sagrados nomes de Jesus e de Maria em seu coração, e a modéstia e mortificação de Jesus Cristo em toda a sua conduta. Eis os grandes homens que virão, suscitados por Maria, por ordem do Altíssimo, para estender seu império sobre o dos ímpios, idólatras e maometanos. Mas, quando e como isso acontecerá?... Só Deus o sabe. Cabe a nós calar, rezar, suspirar e esperar: “Esperei firmemente no Senhor” (Sl 39, 2). 60. Até aqui dissemos algo da necessidade que temos da devoção à Santíssima Virgem. Cumpre dizer em que consiste esta devoção, o que farei, com a ajuda de Deus, depois de propor algumas verdades fundamentais, que deitarão luz sobre esta grande e sólida devoção que quero revelar. 61. Primeira verdade. Jesus Cristo, nosso Salvador, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, deve ser o fim último de todas as nossas outras devoções, do contrário elas seriam falsas e enganadoras. Jesus Cristo é o alfa e o ômega, o começo e o fim de todas as coisas. Não trabalhamos, como diz o Apóstolo, senão para tornar todo homem perfeito em Jesus Cristo, porque é n’Ele só que habita toda a plenitude da Divindade e todas as outras plenitudes de graças, de virtudes e de perfeições, e só n’Ele fomos abençoados de toda a bênção espiritual. Ele é o nosso único Mestre que nos deve ensinar, o nosso único Senhor de quem devemos depender, o nosso único Chefe ao qual devemos estar unidos, o nosso único Modelo ao qual devemos nos assemelhar, o nosso único Pastor que nos deve nutrir, a nossa única Via que nos deve conduzir, a nossa única Verdade em que devemos crer, a nossa única Vida que nos deve vivificar, e o nosso único tudo que nos deve bastar em todas as coisas. Não nos foi dado, debaixo do Céu, nenhum outro nome pelo qual devamos ser salvos, senão o nome de Jesus. Deus não estabeleceu nenhum outro fundamento de nossa salvação, de nossa perfeição e de nossa glória, senão Jesus Cristo. Todo edifício que não for alicerçado sobre esta pedra firme, está construído sobre areia movediça e, cedo ou tarde, infalivelmente cairá por terra. Todo fiel que não está unido a Ele como um sarmento ao tronco da vinha, cairá, secará e só servirá para ser lançado ao fogo. Se estamos em Jesus Cristo e Jesus Cristo em nós, não devemos temer nenhuma condenação: nem os anjos dos Céus, nem os homens da terra, nem os demônios dos infernos, nem nenhuma outra criatura nos poderá prejudicar, pois não nos poderá separar da caridade de Deus que está em Jesus Cristo. Por Jesus Cristo, com Jesus Cristo, em Jesus Cristo, podemos tudo: render toda honra e toda glória ao Pai, na unidade do Espírito Santo; tornar-nos perfeitos e ser para nosso próximo um bom odor de vida eterna. 62. Se, pois, estabelecermos a sólida devoção à Santíssima Virgem, não será senão para estabelecer mais perfeitamente a de Jesus Cristo, e para dar um meio fácil e seguro de encontrar Jesus Cristo. Se a devoção a Nossa Senhora afastasse de Jesus Cristo, seria preciso rejeitá-la como uma ilusão do demônio. Mas, muito pelo contrário, como já mostrei e voltarei a mostrar mais adiante, esta devoção nos é necessária para encontrar perfeitamente Jesus Cristo, amá-Lo ternamente e servi-Lo com fidelidade. 63. Volto-me aqui um momento para Vós, ó meu amável Jesus, para me queixar amorosamente à vossa divina Majestade de que a maior parte dos cristãos, mesmo os mais instruídos, não conhece a ligação necessária que existe entre Vós e vossa Santa Mãe. Vós estais, Senhor, sempre com Maria, e Maria está sempre conVosco e não pode estar sem Vós: senão Ela cessaria de ser o que é. Ela está tão transformada em Vós pela graça que já não vive mais, que não existe mais; sois só Vós, meu Jesus, que viveis e reinais n’Ela, mais perfeitamente que em todos os anjos e bem-aventurados. Ah! se conhecêssemos a glória e o amor que recebeis dessa admirável criatura, teríamos sobre Vós e sobre Ela sentimentos bem diferentes dos que temos. Ela Vos está tão intimamente ligada, que seria mais fácil separar a luz do sol ou o calor do fogo. Digo mais: seria mais fácil separar de Vós todos os anjos e santos, do que a divina Maria. Porque Ela vos ama mais ardentemente e Vos glorifica mais perfeitamente que todas as outras criaturas juntas. 64. Depois disso, meu amado Mestre, não é espantoso e lamentável ver a ignorância e as trevas de todos os homens deste mundo a respeito de vossa Santa Mãe? Não falo tanto dos idólatras e pagãos que, não Vos conhecendo, não cuidam de conhecê-La; nem falo sequer dos hereges e cismáticos, que não cuidam de ser devotos de vossa Santa Mãe, já que estão separados de Vós e de vossa Santa Igreja. Falo dos cristãos católicos, e até dos doutores entre os católicos que, embora façam profissão de ensinar aos outros as verdades, não Vos conhecem nem a vossa Santa Mãe, a não ser de uma maneira especulativa, seca, estéril e indiferente. Esses senhores só raramente falam da vossa Santa Mãe e da devoção que se Lhe deve ter, porque dizem temer que se abuse dela e que se faça a Vós injúria, honrando demasiadamente vossa Santa Mãe. Se veem ou ouvem algum devoto de Maria falar com frequência da devoção a essa boa Mãe de uma maneira carinhosa, forte e persuasiva, como de um meio seguro sem ilusão, de um caminho curto sem perigo, de uma via imaculada sem imperfeições, e de um segredo maravilhoso para Vos encontrar e amar perfeitamente, clamam contra esse devoto e lhe dão mil falsas razões para provar que não se deve falar tanto da Santíssima Virgem, que há muitos abusos nessa devoção, e que é preciso se empenhar em destruí-los e em falar mais de Vós, de preferência, em vez de levar os povos à devoção a Nossa Senhora, a quem já amariam bastante. Ouve-se, por vezes, eles falarem da devoção à vossa Santa Mãe, não para estabelecê-la e propagá-la, mas para destruir os abusos que dela fazem. Esses senhores não têm piedade nem devoção carinhosa por Vós, porque não as têm por Maria. Consideram o rosário, o escapulário, o terço, como devoções de carolas, próprias de ignorantes, sem as quais podemos nos salvar. E se lhes cai em mãos algum devoto de Maria, que reze seu terço ou tenha alguma outra prática de devoção para com Ela, logo lhe mudarão o espírito e o coração: em vez do terço, lhe aconselharão a rezar os sete salmos; em vez da devoção à Santíssima Virgem, recomendar-lhe-ão a devoção a Jesus Cristo. Ó meu amável Jesus, essas pessoas terão o vosso espírito? Agradam-Vos procedendo deste modo? Agradar-Vos-á quem não empregue todos os esforços para agradar vossa Mãe, com receio de Vos desagradar? Por acaso, a devoção à vossa santa Mãe impede a vossa? Atribui-Se Ela a Si mesma a honra que Lhe prestam? Forma Ela um partido diverso? É Ela uma estranha, sem nenhuma ligação conVosco? Separa-se ou afasta-se do vosso amor quem a Ela se dá e A ama? 65. No entanto, meu amável Mestre, se tudo o que acabo de dizer fosse verdade, a maioria dos sábios, para castigo do seu orgulho, não poderia afastar mais as almas da devoção à vossa Santa Mãe, e não poderia ter mais indiferença em relação a Ela. Livrai-me, Senhor, livrai-me desses sentimentos e práticas, e dai-me parte nos sentimentos de gratidão, de estima, de respeito e de amor que tendes para com vossa Santa Mãe, a fim de que Vos ame e glorifique mais na medida em que Vos imitar e seguir mais de perto. 66. Como se até aqui ainda nada tivesse dito em louvor de vossa Santa Mãe, concedei-me a graça de A louvar dignamente, apesar de todos os seus inimigos que são os vossos. E que eu lhes proclame altaneiramente com os santos: “Não presuma receber a misericórdia de Deus, quem ofende sua Santa Mãe”. 67. Para obter de vossa misericórdia uma verdadeira devoção à vossa Santa Mãe, e para inspirá-la a toda a terra, fazei que eu Vos ame ardentemente. Recebei para isso a oração abrasada que Vos faço com Santo Agostinho e vossos verdadeiros amigos: “Vós sois, ó Jesus, o Cristo, meu Pai santo, meu Deus misericordioso, meu Rei infinitamente grande; sois meu bom Pastor, meu único Mestre, meu auxílio cheio de bondade, meu bem-amado de uma beleza maravilhosa, meu Pão vivo, meu Sacerdote eterno, meu Guia para a pátria, minha verdadeira Luz, minha santa Doçura, meu reto Caminho, Sapiência minha preclara, minha pura Simplicidade, minha Paz e Concórdia; sois, enfim, toda a minha salvaguarda, minha herança preciosa, minha eterna salvação... Ó Jesus Cristo, amável Senhor, por que em toda a minha vida amei, por que desejei outra coisa senão Vós? Onde estava eu quando não pensava em Vós? Ah! que, pelo menos a partir deste momento, meu coração só deseje a Vós e por Vós se abrase, Senhor Jesus! Desejos de minha alma, correi, que já bastante tardastes; apressai-Vos para o fim a que aspirais; procurai em verdade Aquele que procurais. Ó Jesus, anátema seja quem não Vos ama. Aquele que não Vos ama seja repleto de amarguras. Ó doce Jesus, sede o amor, as delícias, a admiração de todo coração dignamente consagrado à vossa glória. Deus de meu coração e minha partilha, Jesus Cristo, que em Vós meu coração desfaleça, e sede Vós mesmo a minha vida. Acenda-se em minha alma a brasa ardente de vosso amor e se converta num incêndio todo divino, a arder para sempre no altar de meu coração; que inflame o íntimo do meu ser, e abrase o âmago de minha alma; para que, no dia de minha morte, eu apareça diante de Vós inteiramente consumido em vosso amor. Assim seja.” Quis transcrever esta admirável oração de Santo Agostinho a fim de que a rezem todos os dias, para pedir o amor a Jesus que procuramos através da divina Maria. 68. Segunda verdade. Devemos concluir, do que Jesus Cristo é para nós, que – como diz o Apóstolo – não somos nossos, mas inteiramente d’Ele, como seus membros e escravos, comprados pelo preço infinitamente caro de todo o seu sangue. Antes do Batismo, pertencíamos ao demônio como seus escravos. O Batismo nos tornou verdadeiros escravos de Jesus Cristo, que devem viver, trabalhar e morrer somente para dar frutos a esse Deus-Homem, para glorificá-Lo em nosso corpo e fazê-Lo reinar em nossa alma, porque somos sua conquista, seu povo de aquisição e sua herança. É pela mesma razão que o Espírito Santo nos compara: 1) A árvores plantadas ao longo das águas da graça nos campos da Igreja, que devem dar seus frutos a seu tempo; 2) Aos ramos de uma videira, da qual Jesus Cristo é a cepa, que devem dar boas uvas; 3) A um rebanho de que Jesus Cristo é o pastor, que deve se multiplicar e dar leite; 4) A uma boa terra de que Deus é o lavrador, e na qual a semente se multiplica e rende trinta, sessenta ou cem por um. Jesus Cristo amaldiçoou a figueira estéril e condenou o servo inútil que não fizera valer seu talento. Tudo isso nos prova que Jesus Cristo quer receber alguns frutos de nossas definhadas pessoas, a saber: nossas boas obras, porque estas só a Ele pertencem. “Criados para as boas obras em Jesus Cristo” (Ef 2, 10). Essas palavras do Espírito Santo mostram que Jesus Cristo é o único princípio e deve ser o único fim de todas as nossas boas obras, e que nós O devemos servir não somente como servos contratados, mas como escravos de amor. Explico-me. 69. Há neste mundo duas maneiras de pertencer a outra pessoa e depender de sua autoridade, a saber: a simples servidão e a escravidão, que fazem de alguém um servo ou um escravo. Pela servidão comum entre os cristãos, um homem compromete-se a servir outro durante certo tempo, mediante certa garantia ou determinada recompensa. Pela escravidão, um homem é inteiramente dependente de outro por toda a sua vida, e deve servir seu senhor sem pretender garantia nem recompensa alguma, como um de seus animais sobre o qual ele tem direito de vida e de morte. 70. Há três espécies de escravidão: uma natural, outra forçada e outra voluntária. Todas as criaturas são escravas de Deus da primeira forma: “Do Senhor é a terra com o que ela contém” (Sl 24, 1). Os demônios e os condenados o são da segunda maneira. Os justos e os santos o são da terceira. A escravidão voluntária é a mais perfeita e a mais gloriosa para Deus, que olha o coração, que pede o coração e que se chama o Deus do coração ou da vontade amorosa. Por essa escravidão se faz a escolha, sobre todas as coisas, de Deus e de seu serviço, ainda mesmo que a natureza não obrigasse a isso. 71. Há uma total diferença entre um servo e um escravo. 1) Um servo não dá a seu senhor tudo o que é nem tudo o que possui, nem tudo o que pode adquirir por si mesmo ou por outrem. Mas o escravo dá a seu senhor tudo de si, tudo o que possui e tudo o que pode adquirir, sem nenhuma exceção. 2) O servo exige a paga dos serviços que presta ao seu senhor, enquanto o escravo nada pode exigir, por mais aplicação, habilidade e força que tenha para trabalhar. 3) O servo pode deixar seu senhor quando quiser, ou pelo menos quando o tempo de seu serviço tiver expirado. O escravo não tem o direito de deixar seu senhor quando quiser. 4) O senhor do servo não tem sobre ele nenhum direito de vida e de morte, e se o matasse, como a um de seus animais de carga, cometeria um homicídio injusto. Já o senhor do escravo tem, pelas leis, direito de vida e de morte sobre ele, e pode vendê-lo a quem quiser, ou matá-lo, como faria a seu cavalo. 5) Enfim, o servo só está a serviço de um senhor temporariamente, enquanto o escravo está para sempre. 72. Nada há entre os homens que nos faça pertencer mais a um outro do que a escravidão. Nada há também entre os cristãos que nos faça pertencer mais a Jesus Cristo e à sua Santa Mãe do que a escravidão voluntária, segundo o exemplo do próprio Jesus Cristo, que tomou a forma de escravo por nosso amor: “Despojou-Se tomando a forma de escravo” (Fl 2, 7), e da Santíssima Virgem, que Se disse a serva e escrava do Senhor. O Apóstolo se chama, com ufania, servo de Cristo. Diversas vezes os cristãos são chamados na Escritura Sagrada de “servos de Cristo”. Esta palavra “servo”, segundo a justa observação de um grande homem, significava outrora apenas escravo, porque não havia ainda servos como os de hoje. Os senhores eram apenas servidos por escravos ou libertos. O Catecismo do Concílio de Trento, para que não reste dúvida alguma sobre a nossa condição de escravos de Jesus Cristo, exprime-se por um termo que não se presta a equívocos, chamando-nos mancipia Christi: “escravos de Jesus Cristo”. Isto posto: 73. Digo que devemos ser de Jesus Cristo e servi-Lo, não somente como servos mercenários, mas como escravos amorosos que, por efeito de um grande amor, dão-se e se entregam a servi-Lo na qualidade de escravos, pela única honra de Lhe pertencer. Antes do Batismo, éramos escravos do demônio; o Batismo nos tornou escravos de Jesus Cristo. Portanto, os cristãos têm de ser escravos do diabo ou de Jesus Cristo. 74. O que digo de modo absoluto de Jesus Cristo, o digo relativamente da Santíssima Virgem. Jesus Cristo, tendo-A escolhido por companheira indissolúvel de sua vida, de sua morte, de sua glória e de seu poder no Céu e na terra, Lhe deu por graça, relativamente à sua Majestade, todos os mesmos direitos e privilégios que Ele possui por natureza: tudo o que convém a Deus por natureza, convém a Maria por graça, dizem os santos; de sorte que, segundo eles, tendo ambos apenas a mesma vontade e o mesmo poder, têm ambos os mesmos súditos, servos e escravos. 75. Pode-se, portanto, seguindo o sentimento dos santos e de vários grandes homens, dizer-se e se fazer escravo amoroso da Santíssima Virgem, para desse modo ser mais perfeitamente escravo de Jesus Cristo. Nossa Senhora é o meio de que Nosso Senhor Se serviu para vir a nós; é também o meio de que devemos nos servir para ir até Ele. Pois Ela não é como as outras criaturas que, se a elas nos prendêssemos, poderiam nos afastar de Deus ao invés de nos aproximar d’Ele. Mas a mais forte inclinação de Maria é nos unir a Jesus Cristo, seu filho, e a mais forte inclinação do Filho é que se vá a Ele por meio de sua Santa Mãe. Assim O honramos e agradamos, como honraria e agradaria a um rei quem, para se tornar mais perfeitamente seu súdito e escravo, se fizesse escravo da rainha. É por isso que os santos Padres, e São Boaventura depois deles, dizem que a Virgem Maria é o caminho para ir a Nosso Senhor: “O caminho para Cristo é se aproximar d’Ela” (Psalt BM, Sl 117). 76. Ademais, como já disse, se Nossa Senhora é a Rainha e soberana do Céu e da terra, não tem Ela tantos súditos e escravos quantas são as criaturas? É o que afirmam Santo Anselmo, São Bernardo, São Bernardino e São Boaventura: “Ao poder de Deus tudo está sujeito, até a Virgem; ao poder da Virgem tudo está submisso, até o próprio Deus”. Não será razoável que entre tantos escravos por força os haja também por amor, que de boa vontade e na qualidade de escravos escolham Maria por sua soberana? O quê?! Os homens e os demônios têm seus escravos voluntários, e Maria não os há de ter? Um rei terá por honra que a rainha, sua companheira, possua escravos com direito de vida e morte sobre eles, porque a honra e o poder dele é a honra e o poder dela. Pode-se então acreditar que Nosso Senhor, que partilhou, como o melhor de todos os filhos, todo o poder com sua Santa Mãe, ache ruim que Ela tenha escravos? Tem Ele menos respeito e amor por sua Mãe que Assuero por Ester e que Salomão por Betsabé? Quem ousaria dizê-lo e até mesmo pensá-lo? 77. Mas, para onde me conduz minha pena? Por que me detenho aqui a provar uma coisa tão evidente? Se não querem que alguém se diga escravo da Santíssima Virgem, que importa?! Que se faça e se diga escravo de Jesus Cristo! É o mesmo que sê-lo de Maria, pois Jesus Cristo é o fruto e a glória d’Ela. É isto o que se faz de modo perfeito através da devoção de que falaremos em seguida. 78. Terceira verdade. Nossas melhores ações são ordinariamente manchadas e corrompidas pelo mau fundo que há em nós. Quando se põe água limpa e clara numa vasilha que cheira mal, ou vinho numa pipa cujo interior está estragado por outro vinho, a água clara e o bom vinho ficam estragados e tomam facilmente o mau cheiro. Do mesmo modo, quando Deus põe na vasilha de nossa alma, estragada pelo pecado original e atual, suas graças e orvalhos celestes ou o vinho delicioso de seu amor, seus dons são ordinariamente estragados e manchados pelo mau fermento e o mau fundo que o pecado deixou em nós. Nossas ações, mesmo as virtudes mais sublimes, disso se ressentem. É, pois, de suma importância, para adquirirmos a perfeição que só se alcança pela união com Jesus Cristo, nos esvaziarmos do que há de mau em nós. Do contrário, Nosso Senhor, que é infinitamente puro e odeia infinitamente a menor mancha na alma, nos afastará de seus olhos e não Se unirá a nós. 79. Para nos esvaziarmos de nós mesmos, é preciso, primeiro, bem conhecer, pela luz do Espírito Santo, nosso fundo mau, nossa incapacidade para todo bem útil à salvação, nossa fraqueza em todas as coisas, nossa inconstância em qualquer tempo, nossa indignidade de toda graça e nossa iniquidade em todo lugar. O pecado de nosso primeiro pai nos estragou a todos quase inteiramente, azedou, inchou e corrompeu, como o fermento azeda, incha e corrompe a massa em que é posto. Os pecados atuais que temos cometido, sejam mortais, sejam veniais, por perdoados que estejam, aumentaram nossa concupiscência, nossa fraqueza, nossa inconstância e nossa corrupção, e deixaram maus vestígios na nossa alma. Nossos corpos estão de tal modo corrompidos que são chamados pelo Espírito Santo corpos de pecado, concebidos no pecado, nutridos no pecado e capazes de tudo; corpos sujeitos a mil e mil doenças, que se corrompem de dia para dia, e que só geram sarna, verme e corrupção. Nossa alma, unida ao nosso corpo, se tornou tão carnal que é chamada carne: “Toda a humanidade tinha pervertido sua conduta na terra” (Gen 6, 12). Não temos por herança senão o orgulho e a cegueira no espírito, o endurecimento no coração, a fraqueza e a inconstância na alma, a concupiscência, as paixões revoltadas e as doenças no corpo. Somos naturalmente mais orgulhosos que pavões, mais apegados à terra que sapos, mais nojentos que bodes, mais invejosos que serpentes, mais gulosos que porcos, mais coléricos que tigres e mais preguiçosos que tartarugas, mais fracos que caniços e mais inconstantes que cata-ventos. Não temos no nosso fundo senão o vazio e o pecado, e não merecemos senão a ira de Deus e o inferno eterno. 80. Depois disso, será para admirar que Nosso Senhor tenha dito que quem quisesse segui-Lo deveria renunciar a si mesmo e odiar sua alma, e aquele que amasse sua vida a perderia e quem a odiasse a salvaria? Essa Sabedoria infinita, que não impõe mandamentos sem razão, não nos ordena odiar-nos a nós mesmos senão porque somos grandemente dignos de ódio: nada há tão digno de amor como Deus, nada tão digno de ódio como nós. 81. Segundo, para nos despojar de nós mesmos, é preciso morrer todos os dias para nós. Quer dizer, é preciso renunciar às operações das potências de nossa alma e dos sentidos do corpo, é preciso ver como se não víssemos, ouvir como se não ouvíssemos, servir-se das coisas deste mundo como se delas não nos servíssemos. A isto São Paulo chama morrer todos os dias: “Cada dia, exponho-me à morte” (1Cor 15, 31). Se o grão de trigo cai à terra e não morre, permanece na terra e não produz absolutamente fruto que seja bom (Cf. Jo 12,24). Se não morrermos para nós mesmos, e se nossas devoções mais santas não nos levam a essa morte necessária e fecunda, não produziremos fruto que valha. Nossas devoções se tornarão inúteis, todas as nossas boas obras serão manchadas pelo nosso amor próprio e nossa vontade própria, o que fará com que Deus tenha em abominação os maiores sacrifícios e as melhores ações que possamos fazer. E nesse caso, na hora de nossa morte nos encontraremos com as mãos vazias de virtudes e de méritos, e não teremos sequer uma centelha de puro amor, pois este só é comunicado às almas cuja vida está oculta com Jesus Cristo em Deus. 82. Terceiro, é preciso escolher entre todas as devoções à Santíssima Virgem aquela que nos leve mais a essa morte de nós mesmos, como sendo a melhor e mais santificante. Pois não se pode acreditar que tudo o que reluz seja ouro, que tudo o que é doce seja mel, e que tudo o que é fácil e praticado pela maioria, seja o mais santificante. Assim como na natureza há segredos para fazer operações naturais em pouco tempo, econômica e facilmente, assim também na ordem da graça existem segredos para fazer operações sobrenaturais em pouco tempo, suave e facilmente, tais como: despojar-se de si mesmo, encher-se de Deus e tornar-se perfeito. A prática que quero revelar é um desses segredos da graça, desconhecido da maioria dos cristãos, conhecido de poucos devotos, praticado e apreciado por um número ainda menor. Para começar a descobrir esta prática, eis uma quarta verdade que é uma consequência da terceira. 83. Quarta verdade. É mais perfeito, porque mais humilde, não nos aproximarmos diretamente de Deus, mas servirmo-nos de um mediador. Visto que nosso fundo está tão corrompido, como acabo de mostrar, se nos apoiarmos nos nossos próprios trabalhos, esforços e preparações para chegar até Deus e Lhe agradar, é certo que todas as nossas boas obras serão manchadas ou terão pouco peso diante de Deus para O levar a unir-Se a nós e a nos atender. Pois não é sem razão que Deus nos deu mediadores junto de sua Majestade. Ele viu nossa indignidade e incapacidade, teve piedade de nós e, para nos dar acesso às suas misericórdias, Ele nos deu intercessores poderosos junto de sua grandeza. De maneira que negligenciar esses mediadores e se aproximar diretamente de sua santidade, é faltar ao respeito para com um Deus tão nobre e tão santo; é fazer menos caso desse Rei dos reis do que se faria de um rei ou de um príncipe da terra, do qual não se quereria aproximar sem algum amigo que falasse por nós. 84. Nosso Senhor é nosso Advogado e nosso Medianeiro de redenção junto de Deus Pai; é por Ele que devemos rezar com toda a Igreja triunfante e militante; é por Ele que temos acesso junto de sua Majestade, e nós jamais devemos comparecer diante d’Ele senão apoiados e revestidos de seus méritos, como o pequeno Jacó, que se revestiu da pele de cabrito diante de seu pai Isaac, para receber sua bênção. 85. Mas, não temos nós absolutamente necessidade de um mediador junto do próprio Mediador? Nossa pureza é grande o bastante para nos unirmos diretamente a Ele, e por nós mesmos? Não é Ele Deus, em todas as coisas igual ao seu Pai e, por conseguinte, o Santo dos santos, tão digno de respeito como seu Pai? Se, pela sua caridade infinita, Ele Se tornou nossa garantia e nosso mediador junto de Deus Pai, para aplacá-Lo e pagar o que Lhe devíamos, será isso uma razão para termos menos respeito e temor por sua majestade e sua santidade? Digamos, pois, francamente com São Bernardo, que temos necessidade de um mediador junto do próprio Mediador, e que a divina Maria é a pessoa mais capaz de preencher essa missão caridosa. É por Ela que Jesus Cristo veio a nós, e é por Ela que devemos ir a Ele. Se tememos ir diretamente a Jesus Cristo, por causa de sua grandeza infinita ou por causa de nossa baixeza, ou ainda devido aos nossos pecados, imploremos ousadamente o auxílio e a intercessão de Maria, nossa Mãe. Ela é boa e terna; nada tem de austero ou de repulsivo, nada de demasiado sublime e brilhante. Contemplando-A, vemos a nossa própria natureza. Ela não é o sol que, pela vivacidade de seus raios, poderia nos cegar por causa de nossa fraqueza; mas Ela é bela e suave como a lua, que recebe a luz do sol e a tempera para a tornar conforme a nossa pequenez. É tão caridosa que não repele nenhum dos que pedem sua intercessão, por mais pecador que seja. Pois, como dizem os santos, nunca se ouviu dizer, desde que o mundo é mundo, que alguém tenha recorrido a Nossa Senhora com confiança e perseverança, e tenha sido por Ela desamparado. Ela é tão poderosa que nunca foi desatendida em seus pedidos. Basta que Se apresente diante de seu Filho para Lhe pedir alguma coisa: imediatamente Ele A atende e acolhe, amorosamente vencido pelos seios, pelas entranhas e pelas orações da sua queridíssima Mãe. 86. Tudo isso é tirado de São Bernardo e de São Boaventura; de maneira que, segundo eles, temos três degraus a subir para ir a Deus: o primeiro, que é o mais próximo de nós e o mais conforme à nossa capacidade, é Maria; o segundo é Jesus Cristo; e o terceiro é Deus Pai. Para ir a Jesus, é preciso ir a Maria; Ela é nossa Medianeira de intercessão. Para ir ao Pai Eterno, é preciso ir a Jesus; Ele é nosso Medianeiro de redenção. Ora, pela devoção que indicarei adiante, esta ordem é perfeitamente observada. 87. Quinta verdade. Em virtude de nossa fraqueza e fragilidade, é muito difícil conservar em nós as graças e os tesouros recebidos de Deus: 1) Porque guardamos esse tesouro, mais valioso que o Céu e a terra, em vasos frágeis (Cf. 2Cor 4, 7), num corpo corruptível, numa alma fraca e inconstante, que por um nada se perturba e se abate. 88. 2) Porque os demônios, que são finos ladrões, querem nos surpreender de improviso para nos roubar e despojar. Espreitam dia e noite o momento favorável para isso, rondam incessantemente para nos devorar e nos tirar num momento, por um pecado, tudo o que pudemos ganhar de graças e de méritos em vários anos. Sua malícia, sua experiência, suas artimanhas e seu número devem nos fazer temer imensamente essa infelicidade, visto que pessoas mais cheias de graças, mais ricas em virtudes, mais fundadas na experiência e mais elevadas em santidade, foram surpreendidas, roubadas e lamentavelmente saqueadas. Ah! quantos cedros do Líbano e quantas estrelas do firmamento não caíram miseravelmente e perderam toda sua elevação e luminosidade em pouco tempo! De onde vem essa estranha mudança? Isto não foi ausência de graça, que a ninguém falta, mas de humildade. Julgaram-se capazes de guardar seus tesouros, confiaram e se apoiaram neles mesmos. Acharam sua casa bastante segura e seus cofres suficientemente fortes para guardar o precioso tesouro da graça. Por causa dessa confiança inadvertida que tinham em si (embora lhes parecesse que se apoiavam unicamente na graça de Deus), o Senhor, muito justo, permitiu que fossem roubados, abandonando-os a si próprios. Ah! Se tivessem conhecido a devoção admirável que mostrarei em seguida, teriam confiado seu tesouro a uma Virgem poderosa e fiel, que o teria guardado como seu bem próprio, considerando isso como um dever de justiça. 89. 3) É difícil perseverar na virtude por causa da corrupção do mundo. O mundo está tão corrompido hoje, que é quase inevitável serem os corações religiosos manchados, se não por sua lama, pelo menos por sua poeira. Assim, é uma espécie de milagre alguém permanecer firme no meio desta torrente impetuosa sem ser arrastado; no meio deste mar tempestuoso, sem ser submergido ou saqueado pelos piratas e corsários; no meio deste ar empestado, sem ficar contaminado. É a Virgem, a única sempre fiel, sobre A qual a serpente nunca teve poder, que faz esse milagre em favor daqueles e daquelas que A amam de modo mais excelente. 90. Postas essas cinco verdades, é preciso, mais do que nunca, fazer uma boa escolha da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. Pois há cada vez mais falsas devoções tomadas por verdadeiras com facilidade. O demônio, como um falsário e enganador fino e experiente, já enganou e perdeu tantas almas por uma falsa devoção à Santíssima Virgem, que se serve todos os dias de sua experiência diabólica para perder muitas outras. Ele as distrai e as adormece no pecado, sob pretexto de algumas preces mal rezadas e de algumas práticas exteriores que lhes inspira. Assim como um falsário não falsifica ordinariamente senão o ouro e a prata, e muito raramente os outros metais (porque não valem a pena), assim o espírito maligno não falsifica tanto as outras devoções quanto as de Jesus e de Maria: a devoção à Santa Comunhão e a devoção à Santíssima Virgem, porque estas são, entre as demais devoções, o que são o ouro e a prata entre os metais. 91. É, pois, muito importante conhecer, primeiro, as falsas devoções à Santíssima Virgem para as evitar, e a verdadeira, para a abraçar. Segundo, entre tantas práticas diferentes da verdadeira devoção a Maria, saber qual é a mais perfeita, a mais agradável a Ela, a que dá maior glória a Deus e a mais santificadora para nós, a fim de a essa nos apegarmos. 92. Há sete tipos de falsos devotos e de falsas devoções à Santíssima Virgem, a saber: 1) os devotos críticos; 2) os devotos escrupulosos; 3) os devotos exteriores; 4) os devotos presunçosos; 5) os devotos inconstantes; 6) os devotos hipócritas; 7) os devotos interesseiros. 93. Os devotos críticos são, ordinariamente, sábios orgulhosos, espíritos fortes e independentes, que têm no fundo alguma devoção a Nossa Senhora, mas criticam quase todas as práticas de devoção que as pessoas simples prestam, modesta e santamente, a esta boa Mãe, porque não condizem com sua fantasia. Duvidam de todos os milagres e histórias contadas por autores dignos de fé ou tiradas das crônicas de ordens religiosas, que atestam as misericórdias e o poder da Santíssima Virgem. Veem com pesar as pessoas simples e humildes ajoelhadas diante de um altar ou imagem da Virgem Maria, talvez na esquina de uma rua, para aí rezar a Deus, e as acusam de idolatria, como se elas adorassem a madeira ou a pedra. Dizem que, quanto a eles, não gostam absolutamente dessas devoções exteriores e que não têm a mente tão fraca para dar crédito a tantos contos e historietas que correm sobre Nossa Senhora. Quando lhes relatam os louvores admiráveis que os santos Padres dirigem a Maria, respondem que falaram como oradores, por exagero, ou explicam erradamente suas palavras. Esses tipos de falsos devotos e de gente orgulhosa e mundana são de se temer muito e causam imenso dano à devoção à Santíssima Virgem, afastando dela eficazmente o povo, sob o pretexto de eliminar abusos. 94. Os devotos escrupulosos são pessoas que receiam desonrar o Filho honrando a Mãe, rebaixar um ao elevar a outra. Não podem suportar que se prestem à Santíssima Virgem louvores justíssimos, como os que Lhe dirigiram os santos Padres. Não suportam, senão a contragosto, que haja mais pessoas de joelhos diante de um altar de Nossa Senhora do que diante do Santíssimo Sacramento, como se um fosse contrário ao outro, como se aqueles que rezam à Virgem Maria não rezassem a Jesus Cristo! Não querem que falemos tantas vezes de Maria nem que a Ela recorramos com frequência. Eis algumas frases que lhes são habituais: — Para que tantos terços, tantas confrarias e devoções exteriores à Santíssima Virgem? — Quanta ignorância nisto tudo! — É fazer uma palhaçada de nossa religião. — Falem-me dos que são devotos de Jesus Cristo (eles pronunciam este Nome muitas vezes sem descobrir a cabeça, digo-o entre parênteses): é preciso recorrer a Jesus Cristo, Ele é nosso único medianeiro. É preciso pregar Jesus Cristo. Eis o que é sólido! O que dizem é verdadeiro num sentido. Mas, quanto à aplicação que disso fazem para impedir a devoção à Santíssima Virgem, é muito perigoso e uma fina cilada do maligno, sob pretexto de um bem maior. Pois nunca se honra mais a Jesus Cristo do que quando se honra mais a Santíssima Virgem. Posto que não A honramos senão para honrar mais perfeitamente a Jesus Cristo, e visto que vamos a Ela apenas como o caminho que leva ao fim desejado, que é Jesus. 95. A Santa Igreja, com o Espírito Santo, louva Nossa Senhora em primeiro lugar, e Jesus Cristo em segundo: “Bendita sois Vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus” (Lc 1,42). Não que Ela seja mais que Jesus Cristo ou igual a Ele: isto seria uma heresia intolerável. Mas, para louvar mais perfeitamente Jesus Cristo, é preciso antes louvar Maria. Digamos, pois, com todos os verdadeiros devotos da Santíssima Virgem, contra seus falsos devotos escrupulosos: Ó Maria, sois bendita entre todas as mulheres, e bendito é o fruto de vosso ventre, Jesus. 96. Os devotos exteriores são pessoas que fazem consistir toda a devoção à Santíssima Virgem em práticas externas. Contentam-se apenas com a exterioridade desta devoção, porque não têm nenhum espírito interior. Rezarão muitos terços às pressas, ouvirão várias missas sem atenção, irão às procissões sem devoção, entrarão em todas as suas confrarias sem mudar de vida, sem dominar suas paixões e sem imitar as virtudes dessa Santíssima Virgem. Só amam o que há de sensível nesta devoção, sem experimentar o que nela existe de sólido. Se não tiverem prazer sensível em suas práticas, acham que já não fazem nada, desorientam-se, abandonam tudo, ou tudo fazem sem constância. O mundo está cheio desses devotos exteriores e são eles os que mais criticam as pessoas de oração que se aplicam ao interior, por ser o essencial, sem desprezar o exterior de modéstia que acompanha sempre a verdadeira devoção. 97. Os devotos presunçosos são pecadores abandonados às suas paixões, ou amantes do mundo, que, sob o belo nome de cristão e devoto de Nossa Senhora, escondem o orgulho, ou a avareza, ou a impureza, ou a embriaguez, ou a raiva, ou a blasfêmia, ou a maledicência, ou a injustiça, etc. Dormem placidamente em seus maus hábitos, sem fazer esforço para se corrigir, sob o pretexto de que são devotos da Virgem. Dizem a si mesmos que Deus os perdoará, que não morrerão sem Confissão e não serão condenados, porque rezam seu terço, jejuam aos sábados, pertencem à confraria do Santo Rosário ou do Escapulário, ou às suas congregações, porque trazem o pequeno hábito ou a correntinha da Santíssima Virgem, etc. Quando alguém lhes diz que sua devoção não é senão uma ilusão do demônio e uma presunção perniciosa capaz de perdê-los, não querem acreditar. Dizem que Deus é bom e misericordioso, que não os criou para perdê-los, que não há homem que não peque. Dizem que não morrerão sem Confissão, e que um bom ato de contrição na hora da morte é suficiente. E, ademais, são devotos de Nossa Senhora, portam o escapulário, rezam diariamente, sem falha e sem vaidade, sete Pai-Nossos e sete Ave-Marias em sua honra. Às vezes rezam até o terço e o ofício da Virgem, e até jejuam!, etc. Para confirmar o que dizem e ainda mais se enganarem, citam algumas histórias que ouviram ou leram em livros, verdadeiras ou falsas (pouco importa), segundo as quais pessoas mortas em pecado mortal sem Confissão foram ressuscitadas para se confessar, porque durante a vida tinham dito algumas preces ou praticado alguns atos de devoção à Santíssima Virgem. Ou então como sua alma permaneceu milagrosamente no corpo até a Confissão, ou obteve de Deus a contrição e o perdão de seus pecados, graças à misericórdia da Santíssima Virgem, e com isso foram salvas. E esses falsos devotos esperam o mesmo. 98. Nada é mais pernicioso no Cristianismo do que essa presunção diabólica. Pois pode alguém verdadeiramente dizer que ama e honra a Virgem quando, por seus pecados, ofende, fere, crucifica e ultraja impiedosamente seu Filho, Jesus Cristo? Se Maria Se comprometesse a salvar, pela sua misericórdia, essa espécie de gente, autorizaria o crime, ajudaria a crucificar e ultrajar seu Filho. Quem ousaria jamais pensá-lo? 99. Digo que abusar assim da devoção à Santíssima Virgem, a qual, depois da devoção a Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento, é a mais santa e a mais sólida, é cometer um horrível sacrilégio. Depois do sacrilégio da indigna Comunhão, este é o maior e menos perdoável. Confesso que, para ser verdadeiramente devoto de Maria, não é absolutamente necessário ser tão santo que se evite todo pecado, embora isto fosse de desejar, mas é preciso ao menos (e note-se bem o que vou dizer): Primeiro, ter uma sincera resolução de evitar ao menos todo pecado mortal, que ultraja a Mãe tanto quanto o Filho; segundo, fazer força contra si mesmo para evitar o pecado; terceiro, entrar em confrarias, rezar o terço, o santo rosário ou outras preces, jejuar aos sábados, etc. 100. Isso é maravilhosamente útil à conversão de um pecador, mesmo empedernido. E se meu leitor for um destes, aconselho-o a que o faça, ainda que já tenha um pé no abismo, com a condição de praticar essas boas obras somente na intenção de obter de Deus, pela intercessão da Santíssima Virgem, a graça da contrição e o perdão de seus pecados, e de vencer seus maus hábitos. Não as pratique, porém, para permanecer placidamente no estado de pecado, contrariando os remorsos de sua consciência, o exemplo de Jesus Cristo e dos santos, e as máximas do santo Evangelho. 101. Os devotos inconstantes são aqueles que praticam alguma devoção a Nossa Senhora por intervalos e por caprichos: ora são fervorosos, ora são tíbios; ora parecem prontos a tudo fazer para seu serviço e, pouco depois, não são mais os mesmos. A princípio, abraçarão todas as devoções à Mãe de Deus, entrarão nas suas confrarias, mas logo depois não praticarão nenhuma regra com fidelidade. Mudam como a lua, e Maria os esmaga sob seus pés, como ao crescente, porque são volúveis e indignos de serem contados entre os servos desta Virgem Fiel, que têm a fidelidade e a constância por herança. É preferível não abraçar tantas preces e práticas de devoção, mas fazer poucas com amor e fidelidade, apesar do mundo, do demônio e da carne. 102. Há ainda falsos devotos de Maria que são hipócritas, que escondem seus pecados e seus maus hábitos sob o manto dessa Virgem fiel, a fim de passar aos olhos dos homens por aquilo que não são. 103. Há ainda devotos interesseiros, que não recorrem a Nossa Senhora senão para ganhar algum processo, para evitar algum perigo, para se curar de uma doença, ou para alguma outra necessidade do gênero, sem o que A esqueceriam. Uns e outros são falsos devotos, que não têm nenhuma aceitação diante de Deus e de sua Santa Mãe. 104. Tomemos, pois, muito cuidado em não ser do número dos devotos críticos, que não acreditam em nada e criticam tudo; dos devotos escrupulosos, que receiam ser demasiado devotos de Maria, por respeito a Jesus Cristo; dos devotos exteriores, que fazem consistir toda sua devoção em práticas externas; dos devotos presunçosos, que, sob pretexto de sua falsa devoção à Santíssima Virgem, apodrecem nos seus pecados; dos devotos inconstantes, que, por leviandade, mudam suas práticas de devoção, ou as deixam por completo à menor tentação; dos devotos hipócritas, que entram em confrarias e portam as insígnias da Mãe de Deus a fim de se passar por bons; e, enfim, dos devotos interesseiros, que não recorrem à Santíssima Virgem senão para se livrar dos males do corpo ou obter bens temporais. 105. Depois de ter revelado e condenado as falsas devoções à Mãe de Deus, é preciso em poucas palavras estabelecer a verdadeira, que é: 1) Interior; 2) Terna; 3) Santa; 4) Constante; 5) Desinteressada. 106. Primeiro, a verdadeira devoção a Nossa Senhora é interior, quer dizer, parte da mente e do coração, provém da estima que se tem a Ela, da elevada ideia que se formou de suas grandezas, do amor que se Lhe devota. 107. Segundo, ela é terna, quer dizer cheia de confiança na Santíssima Virgem, como é a de um filho na sua boa mãe. Faz com que uma pessoa recorra a Ela em todas as suas necessidades do corpo e do espírito, com muita simplicidade, confiança e ternura. Implora o auxílio de sua boa Mãe em todo tempo, em todo lugar e em todas as coisas: em suas dúvidas, para ser esclarecida; em suas tentações, para ser sustentada; em suas fraquezas, para ser fortalecida; em suas quedas, para ser reerguida; em seus desânimos, para ser encorajada; em seus escrúpulos, para se livrar deles; em suas cruzes, trabalhos e reveses da vida, para ser consolada. Enfim, em todos os seus males do corpo e do espírito, Maria é seu recurso habitual, sem receio de importunar esta boa Mãe e de desagradar a Jesus Cristo. 108. Terceiro, a verdadeira devoção a Nossa Senhora é santa, quer dizer, leva uma alma a evitar o pecado e a imitar as virtudes da Santíssima Virgem, particularmente sua profunda humildade, sua fé viva, sua obediência cega, sua oração contínua, sua mortificação universal, sua pureza divina, sua caridade ardente, sua paciência heroica, sua doçura angélica e sua sabedoria divina. Essas são as dez principais virtudes da Santíssima Virgem. 109. Quarto, a verdadeira devoção à Mãe de Jesus é constante, fortalece uma alma no bem e a leva a não deixar facilmente suas práticas de devoção. Torna-a corajosa para se opor ao mundo com suas modas e máximas; à carne com suas inquietações e paixões; ao demônio com suas tentações. De maneira que uma pessoa verdadeiramente devota de Maria não é volúvel, tristonha, escrupulosa nem temerosa. Não quer isto dizer que ela não caia e não mude às vezes na sensibilidade de sua devoção. Porém, se cai, levanta-se estendendo a mão à sua boa Mãe; se perde o gosto e a devoção sensível, não se aflige por isso, pois o justo e o devoto fiel de Maria vive da fé em Jesus e Maria, e não dos sentimentos do corpo. 110. Quinto, por fim, a verdadeira devoção à Santíssima Virgem é desinteressada, pois inspira à alma que não busque a si mesma, mas só a Deus em sua Santa Mãe. Um verdadeiro devoto de Maria não serve esta augusta Rainha por espírito de lucro e de interesse, nem para seu bem temporal nem eterno, corporal nem espiritual, mas unicamente por que Ela merece ser servida, e Deus n’Ela. Não ama Maria precisamente porque recebe ou espera d’Ela algum bem, mas porque Ela é digna de amor. É por isso que A ama e serve fielmente tanto nos desgostos e nas aridezes como nas doçuras e nos fervores sensíveis; ama-A tanto no Calvário como nas bodas de Caná. Oh! Como é agradável e precioso aos olhos de Deus e de sua Santa Mãe um devoto da Virgem que em nada se busca nos serviços que Lhe presta! Mas, como é raro encontrar um desses hoje! É a fim de que não seja mais tão raro, que peguei na pena e escrevi o que tenho ensinado com fruto, em público e em particular, nas minhas missões durante muitos anos. 111. Já disse muitas coisas da Santíssima Virgem, mas tenho muito mais ainda a dizer, e d’Ela omitirei ainda infinitamente mais, seja por ignorância, insuficiência ou falta de tempo, no intuito que tenho de formar um verdadeiro devoto de Maria e um verdadeiro discípulo de Jesus Cristo. 112. Oh! como meu esforço seria bem empregado se este pequeno escrito, caindo nas mãos de uma alma bem nascida, nascida de Deus e de Maria, e não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, lhe descobrisse e inspirasse, pela graça do Espírito Santo, a excelência e o valor da verdadeira e sólida devoção à Santíssima Virgem que vou descrever agora! Soubesse eu que meu sangue criminoso podia servir para fazer entrar no coração as verdades que escrevo em honra de minha querida Mãe e soberana Senhora, de quem sou o último dos filhos e dos escravos, em lugar de tinta eu me serviria desse sangue para escrever estas letras, na esperança que tenho de encontrar boas almas que, por sua fidelidade à prática que ensino, compensarão minha querida Mãe e Senhora pelas perdas que lhe causaram minha ingratidão e infidelidade. 113. Sinto-me, mais do que nunca, animado a crer e a esperar em tudo o que tenho profundamente gravado no coração, e que peço a Deus desde há muitos anos, a saber: que cedo ou tarde a Santíssima Virgem terá mais filhos, servos e escravos de amor como nunca, e que por esse meio Jesus Cristo, meu amado Mestre, reinará nos corações mais do que nunca. 114. Prevejo que muitas feras frementes virão em fúria para rasgar com seus dentes diabólicos este pequeno escrito e aquele de quem o Espírito Santo Se serviu para o escrever, ou ao menos para o envolver nas trevas e no silêncio de um cofre, a fim de que não apareça. Atacarão e perseguirão aqueles e aquelas que o lerem e o puserem em prática. Mas, não importa! Tanto melhor! Essa visão me encoraja e me faz esperar um grande sucesso, quer dizer, um grande esquadrão de bravos e valentes soldados de Jesus e de Maria, de ambos os sexos, para combater o mundo, o demônio e a natureza corrompida, nos tempos perigosos que, mais do que nunca, hão de vir. “O leitor entenda bem” (Mt 24,15). “Quem puder compreender, compreenda” (Mt 19, 12). 115. Há várias práticas interiores da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. Eis, resumidamente, as principais: 1) Honrá-La como a digna Mãe de Deus, com o culto de hiperdulia, quer dizer, estimá-La e honrá-La acima de todos os outros santos, como a obra-prima da graça e a primeira depois de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem; 2) Meditar em suas virtudes, seus privilégios e suas ações; 3) Contemplar suas grandezas; 4) Dirigir-Lhe atos de amor, de louvor e de reconhecimento; 5) Invocá-La cordialmente; 6) Oferecer-se e unir-se a Ela; 7) Fazer suas ações com o fim de Lhe agradar; 8) Começar, continuar e terminar todas as suas ações por Ela, n’Ela, com Ela e para Ela, a fim de fazê-las por Jesus Cristo, em Jesus Cristo, com Jesus Cristo e para Jesus Cristo, nosso último fim. Explicaremos adiante esta última prática. 116. A verdadeira devoção a Nossa Senhora tem também várias práticas exteriores. Eis as principais: 1) Alistar-se nas suas confrarias e ingressar nas suas congregações; 2) Ingressar nas ordens religiosas instituídas em sua honra; 3) Publicar seus louvores; 4) Praticar esmolas, jejuns e mortificação do espírito ou do corpo em sua honra; 5) Trazer consigo suas insígnias, como o santo rosário ou o terço, o escapulário ou a correntinha; 6) Recitar, com atenção, devoção e modéstia, ou o santo rosário composto de quinze dezenas de Ave-Marias em honra dos quinze principais mistérios de Jesus Cristo, ou o terço de cinco dezenas, que é o terço do rosário, em honra dos cinco mistérios gozosos, que são: a Anunciação, a Visitação, a Natividade de Jesus Cristo, a Apresentação e o Encontro de Jesus Cristo no Templo; ou em honra dos cinco mistérios dolorosos, que são: a Agonia de Jesus Cristo no jardim das Oliveiras, sua Flagelação, sua Coroação de espinhos, o Carregamento da Cruz e sua Crucifixão; ou em honra dos cinco mistérios gloriosos, que são: a Ressurreição de Jesus Cristo, sua Ascensão, a Descida do Espírito Santo ou Pentecostes, a Assunção da Virgem Maria em corpo e alma ao Céu, e sua Coroação pelas três Pessoas da Santíssima Trindade. Pode-se rezar também um terço de seis ou sete dezenas em honra dos anos que se crê que Maria viveu na terra; ou a pequena coroa da Virgem, composta de três Pai-Nossos e doze Ave-Marias, em honra de sua coroa de doze estrelas ou privilégios; ou o ofício de Maria Santíssima, tão universalmente aceito e recitado na Igreja; ou o pequeno saltério de Nossa Senhora, composto por São Boaventura em sua honra, tão terno e tão devoto que não se pode recitá-lo sem se comover. Ou então catorze Pai-Nossos e Ave-Marias em honra de suas catorze alegrias; ou quaisquer outras preces, hinos e cânticos da Igreja, como a Salve Regina, o Alma, o Ave Regina Coelorum ou o Regina Coeli, segundo os diferentes tempos; ou o Ave Maris Stella, O gloriosa Domina, etc., ou o Magnificat ou algumas outras preces de devoção, de que os livros estão cheios; 7) Cantar e fazer cantar em sua honra cânticos espirituais; 8) Fazer-Lhe um número de genuflexões ou reverências, dizendo-Lhe, por exemplo, todas as manhãs, sessenta ou cem vezes: Ave Maria, Virgo fidelis, para obter de Deus, através d’Ela, a fidelidade às graças de Deus durante o dia. E à noite, Ave Maria, Mater misericordiae, para pedir perdão a Deus, por meio d’Ela, dos pecados cometidos durante o dia; 9) Cuidar de suas confrarias, enfeitar seus altares, coroar ou embelezar suas imagens; 10) Levar e fazer levar suas imagens em procissão, e trazer uma consigo, como uma arma poderosa contra o maligno; 11) Mandar fazer e colocar suas imagens, ou seu nome, nas igrejas, nas casas, nas portas e entradas das cidades, das igrejas e das moradias; 12) Consagrar-se a Ela de uma maneira especial e solene. 117. Há uma quantidade de outras práticas da verdadeira devoção à Santíssima Virgem que o Espírito Santo inspirou às santas almas, e que são muito santificadoras. Podem ser lidas mais extensamente em Paraíso aberto a Filágia, composto pelo Rev. Padre Paulo Barry, da Companhia de Jesus. Nesse livro, recolhe ele um grande número de devoções que os santos praticaram em honra da Santíssima Virgem, as quais servem maravilhosamente para santificar as almas, desde que sejam praticadas como se deve. Ou seja: 1) Com boa e reta intenção de só agradar a Deus e de se unir a Jesus Cristo como seu fim último, e de edificar o próximo; 2) Com atenção, sem distração voluntária; 3) Com devoção, sem precipitação nem negligência; 4) Com modéstia e compostura respeitosa e edificante do corpo. 118. Depois de tudo, declaro bem alto que, tendo lido quase todos os livros que tratam da devoção à Santíssima Virgem, e tendo conversado com as mais santas e sábias personalidades destes últimos tempos, não conheci nem aprendi prática de devoção a Nossa Senhora semelhante à que vou indicar. Esta exige de uma alma mais sacrifícios por Deus e a esvazia mais de si mesma e de seu amor próprio; a conserva mais fielmente na graça, e a graça nela; a une mais perfeita e facilmente a Jesus Cristo; e, enfim, é mais gloriosa para Deus, mais santificante para a alma e mais útil ao próximo. 119. Como o essencial desta devoção consiste no interior que ela deve formar, não será igualmente compreendida por todos. Uns se deterão no que ela tem de exterior, e não passarão além, e estes serão a maioria. Outros, em pequeno número, entrarão em seu interior, mas subirão apenas um degrau. Quem subirá ao segundo? Quem chegará até o terceiro? Enfim, quem se identificará com ela permanentemente? Só aquele a quem o Espírito de Jesus Cristo revelar este segredo. Ele próprio conduzirá a alma fiel para lá, para progredir de virtude em virtude, de graça em graça e de luzes em luzes para chegar até a transformação de si mesma em Jesus Cristo, e à plenitude de sua idade na terra e de sua glória no Céu. 120. Se toda nossa perfeição consiste em sermos conformes, unidos e consagrados a Jesus Cristo, a mais perfeita de todas as devoções é, sem dúvida, aquela que nos conforma, une e consagra mais perfeitamente a Jesus Cristo. Ora, de todas as criaturas, Maria é a mais conforme a Jesus Cristo. Por conseguinte, de todas as devoções, aquela que consagra e assemelha mais uma alma a Nosso Senhor é a devoção à Santíssima Virgem, sua Santa Mãe. E quanto mais uma alma for consagrada a Maria, mais ela o será a Jesus Cristo. É por isso que a perfeita consagração a Jesus Cristo não é mais que uma perfeita e inteira consagração de si mesmo à Santíssima Virgem. E nisto consiste a devoção que ensino ou, noutras palavras, consiste numa perfeita renovação dos votos e promessas do santo Batismo. 121. Esta devoção consiste, pois, em se dar por inteiro à Santíssima Virgem para ser, através d’Ela, inteiramente de Jesus Cristo. É preciso dar-Lhe: 1) Nosso corpo com todos os seus sentidos e seus membros; 2) Nossa alma com todas as suas potências; 3) Nossos bens exteriores que chamamos de fortuna, presentes e futuros; 4) Nossos bens interiores e espirituais, que são nossos méritos, nossas virtudes e nossas boas obras passadas, presentes e futuras. Em duas palavras, tudo o que temos na ordem da natureza e na ordem da graça, e tudo o que poderemos ter no futuro na ordem da natureza, da graça ou da glória. E isso sem reserva alguma, nem sequer de um centavo, de um cabelo e da menor boa ação, para toda a eternidade, sem pretender nem esperar nenhuma outra recompensa de seu oferecimento e de seu serviço, do que a honra de pertencer a Jesus Cristo por Ela, ainda que esta amável Senhora não fosse, como é sempre, a mais liberal e agradecida das criaturas. 122. Aqui é preciso reparar que há duas coisas nas boas obras que praticamos, a saber: a satisfação e o mérito, ou melhor dizendo, o valor satisfatório ou impetratório e o valor meritório. O valor satisfatório ou impetratório de uma boa ação consiste em satisfazer a pena devida ao pecado, ou em alcançar uma nova graça. O valor meritório, ou o mérito, consiste em uma boa ação merecer a graça e a glória eterna. Ora, nesta consagração de nós mesmos à Santíssima Virgem, damos-Lhe todo o valor satisfatório, impetratório e meritório, quer dizer, as satisfações e os méritos de todas as nossas boas obras. Damos-Lhe nossos méritos, nossas graças e nossas virtudes, não para os comunicar a outros (pois nossos méritos, graças e virtudes são, propriamente falando, incomunicáveis; só Jesus Cristo, tornando-Se a nossa garantia junto do Pai, nos pode comunicar os seus méritos), mas para que, como depois diremos, Ela os conserve, aumente e aperfeiçoe. Damos-Lhe nossas satisfações para as comunicar a quem bem Lhe parecer, e para a maior glória de Deus. 123. Resulta daqui: 1) Que por esta consagração damos a Jesus Cristo tudo o que podemos Lhe dar, da maneira mais perfeita, visto ser pelas mãos de Maria. E damos assim muito mais do que pelas outras devoções, em que Lhe consagramos parte do nosso tempo, ou parte das nossas boas obras, ou parte das nossas satisfações e mortificações. Aqui tudo é dado e consagrado, até o direito de dispor de seus bens interiores, e as satisfações que se ganha pelas suas boas obras no dia a dia. Isso não se faz nem mesmo numa ordem religiosa. Nas ordens religiosas dão-se a Deus os bens de fortuna pelo voto de pobreza, os bens do corpo pelo voto de castidade, a própria vontade pelo voto de obediência, e algumas vezes a liberdade do corpo pelo voto de clausura. Mas, não se Lhe dá a liberdade ou o direito que se tem de dispor do valor de suas boas obras, e não se renuncia, tanto quanto seja possível, ao que o cristão tem de mais precioso e mais caro, que são seus méritos e suas satisfações. 124. 2) Segue daí que uma pessoa assim consagrada e sacrificada voluntariamente a Jesus Cristo por Maria, não pode mais dispor do valor de nenhuma de suas boas ações. Tudo o que sofre, tudo o que pensa, diz e faz de bom, pertence a Maria, a fim de que Ela de tudo disponha segundo a vontade de seu Filho, e para sua maior glória, sem que esta dependência prejudique de algum modo as obrigações do estado a que essa pessoa pertença atualmente ou no futuro. Por exemplo, as obrigações de um padre que, por seu ofício ou por outra razão, deve aplicar o valor satisfatório e impetratório da santa Missa a um particular. Pois esse oferecimento só é feito conforme a ordem de Deus e os deveres de seu estado. 125. 3) Consagra-se tudo completamente à Santíssima Virgem e a Jesus Cristo: à Santíssima Virgem, como ao meio perfeito que Jesus Cristo escolheu para Se unir a nós e nós a Ele; e a Nosso Senhor, como ao nosso último fim, a quem devemos tudo o que somos, como a nosso Redentor e a nosso Deus. 126. Disse que esta devoção podia muitíssimo bem ser chamada uma perfeita renovação dos votos ou promessas do santo Batismo. Pois todo cristão, antes de seu Batismo, era escravo do demônio, porque lhe pertencia. No seu Batismo, pela sua própria boca ou pela de seu padrinho e de sua madrinha, ele renunciou solenemente a satanás, suas pompas e suas obras, e tomou Jesus Cristo por seu Mestre e soberano Senhor, para depender d’Ele na qualidade de escravo de amor. É o que se faz pela presente devoção: renuncia-se (como está dito na fórmula da consagração), ao demônio, ao mundo, ao pecado e a si mesmo, dando-se por inteiro a Jesus Cristo pelas mãos de Maria. E até fazemos algo a mais, pois no Batismo falamos habitualmente pela boca de outrem, a saber pelo padrinho e pela madrinha, e não nos damos a Jesus Cristo senão por meio de procurador. Mas, nesta devoção, é por nós mesmos, é voluntariamente, é com conhecimento de causa que o fazemos. No santo Batismo, não nos damos a Jesus Cristo pelas mãos de Maria, pelo menos de uma maneira expressa, e não damos a Jesus Cristo o valor de nossas boas ações. Mas, por esta devoção nos damos expressamente a Nosso Senhor pelas mãos de Maria, e Lhe consagramos o valor de todas as nossas ações. 127. Diz São Tomás que os homens fazem voto no santo Batismo de renunciar ao demônio e às suas pompas (Cf. Summa Theol. 2-2, q. 88, art 2). E esse voto, diz Santo Agostinho, é o maior e o mais indispensável (Cf. Epis. 59 ad Paulin). É também o que dizem os canonistas: o voto principal é o que fazemos no Batismo. No entanto, quem guarda esse grande voto? Quem cumpre fielmente as promessas do santo Batismo? Quase todos os cristãos não falseiam a fidelidade que prometeram a Jesus Cristo no seu Batismo? De onde virá esse desregramento universal, senão do esquecimento em que se vive das promessas e dos compromissos do santo Batismo, e do fato de que quase ninguém ratifica por si mesmo o contrato de aliança que fez com Deus por meio de seus padrinhos? 128. Isso é tão verdadeiro que o Concílio de Sens (em 1141), convocado por ordem de Luís, o Bondoso, para remediar as grandes desordens dos cristãos, entendeu que a principal causa dessa corrupção nos costumes vinha do esquecimento e da ignorância em que se vivia das promessas do santo Batismo. E não encontrou melhor meio para remediar a esse tão grande mal que o de levar os cristãos a renovar os votos e promessas do santo Batismo. 129. O Catecismo do Concílio de Trento (de 1545 a 1563), fiel intérprete das intenções desse santo concílio, exorta os párocos a fazer a mesma coisa e a levar seus fiéis a se recordarem que estão ligados e consagrados a Nosso Senhor Jesus Cristo como escravos a seu Redentor e Senhor (Cf. Cat. Conc. Trid., pte I,c.3). 130. Ora, se os Concílios, os Padres e a própria experiência nos mostram que o melhor remédio para os desregramentos dos cristãos é recordar-lhes as obrigações de seu Batismo e fazê-los renovarem os votos nele feitos, não é razoável realizá-lo presentemente de uma maneira perfeita, através desta devoção e consagração a Nosso Senhor por meio de sua Santa Mãe? Digo de uma maneira perfeita, porque se serve, para se consagrar a Jesus Cristo, do mais perfeito de todos os meios, que é a Santíssima Virgem. 131. Não se pode alegar que esta devoção seja nova ou indiferente: ela não é nova, pois os concílios, os Padres e vários autores antigos e novos falam desta consagração a Nosso Senhor ou renovação dos votos do santo Batismo como algo antigamente praticado, e a aconselham a todos os cristãos. Ela não é indiferente, pois a principal fonte das desordens e, por conseguinte, da condenação dos cristãos, vem do esquecimento e da indiferença por esta prática. 132. Alguns podem dizer que esta devoção, fazendo-nos dar a Nosso Senhor, pelas mãos da Santíssima Virgem, o valor de todas as nossas boas obras, preces e mortificações e esmolas, nos impossibilita de socorrer as almas de nossos parentes, amigos e benfeitores. Em primeiro lugar, respondo que não é de crer que os nossos amigos, parentes ou benfeitores sejam prejudicados pelo fato de nos termos dedicado e consagrado sem reservas ao serviço de Nosso Senhor e da sua Santa Mãe. Seria fazer injúria ao poder e à bondade de Jesus e de Maria, que saberão bem socorrer nossos parentes, amigos e benfeitores com nosso pequeno rendimento espiritual, ou por outras vias. Segundo, esta prática não impede absolutamente que se reze pelos outros, sejam mortos, sejam vivos, embora a aplicação de nossas boas obras dependa da vontade da Santíssima Virgem. Pelo contrário, nos fará rezar com mais confiança, exatamente como uma pessoa rica, que tivesse doado todo seu bem a um grande príncipe, para honrá-lo mais, rogaria com mais confiança a este príncipe para que desse esmola a algum dos seus amigos. Daria até prazer ao príncipe por proporcionar-lhe assim ocasião de mostrar seu reconhecimento para com uma pessoa que se despojou para revesti-lo, e que se fez pobre para o honrar. É preciso dizer a mesma coisa de Nosso Senhor e de Maria Santíssima: eles jamais Se deixarão vencer em gratidão. 133. Alguém dirá talvez: se eu entrego à Santíssima Virgem todo o valor de minhas ações para que o aplique a quem Ela quiser, talvez seja preciso que eu sofra muito tempo no Purgatório. Essa objeção, que vem do amor próprio e da ignorância da liberalidade de Deus e de sua Santa Mãe, se destrói por si mesma. Uma alma fervorosa e generosa, que preze mais os interesses de Deus do que os próprios, que dê a Deus tudo o que tem, sem reserva, sem poder dar mais, que não deseje senão a glória e o reino de Jesus Cristo por sua Santa Mãe, e que se sacrifique por inteiro para alcançá-lo, essa alma generosa e liberal será mais castigada no outro mundo por ter sido mais liberal e mais desinteressada que as outras? De modo algum: é para com essa alma, como veremos em seguida, que Nosso Senhor e sua Santa Mãe são muito liberais neste mundo e no outro, na ordem da natureza, da graça e da glória. 134. É preciso vermos agora, o mais brevemente possível, os motivos que nos devem tornar esta devoção recomendável, os efeitos maravilhosos que ela produz nas almas fiéis e as suas práticas. 135. Primeiro motivo que nos mostra a excelência desta consagração de si mesmo a Jesus Cristo pelas mãos de Maria. Não se pode conceber na terra emprego mais destacado que o serviço de Deus. Se o menor servo de Deus é mais rico, mais poderoso e mais nobre que todos os reis e imperadores do mundo (se estes não são servos de Deus), quais serão as riquezas, o poder e a dignidade do fiel e perfeito servo de Deus que se dedique inteiramente ao seu serviço, sem reservas, tanto quanto lhe for possível! Tal é um fiel e amoroso escravo de Jesus em Maria, que se deu por inteiro ao serviço desse Rei dos reis, pelas mãos de sua Santa Mãe, e que nada reservou para si mesmo: todo o ouro da terra e as belezas dos céus não o podem pagar. 136. As outras congregações, associações e confrarias erigidas em honra de Nosso Senhor e de sua Santa Mãe, que fazem grande bem para o Cristianismo, não nos levam a dar tudo sem reserva. Elas prescrevem a seus associados algumas práticas e deveres, mas os deixam livres para todas as outras ações e outros momentos de sua vida. Porém, esta devoção aqui faz com que o fiel doe sem reserva a Jesus e a Maria todos os seus pensamentos, palavras, ações e sofrimentos, e todos os momentos de sua vida. De maneira que, quer esteja acordado ou dormindo, quer ele beba ou coma, quer ele faça as maiores ou as menores coisas, sempre se pode dizer que tudo o que faz, embora não pense nisso, é de Jesus e de Maria, em virtude de seu oferecimento, a menos que o tenha expressamente revogado. Que consolação! 137. Além disso, como já ficou dito, não há nenhuma outra prática que nos liberte mais facilmente de um certo espírito de propriedade que penetra imperceptivelmente nas melhores ações. O nosso bom Jesus nos concede esta grande graça em recompensa do ato heroico e desinteressado que fizemos, cedendo-Lhe, pelas mãos de sua Santa Mãe, todo o valor das nossas boas obras. Se Ele dá um cêntuplo, mesmo neste mundo, àqueles que, por seu amor, deixam os bens exteriores, temporais e perecíveis, qual será o cêntuplo que Ele dará àquele que Lhe sacrificar até seus bens interiores e espirituais! 138. Jesus, nosso grande amigo, Se deu a nós sem reserva, de corpo e alma, virtudes, graças e méritos. Diz São Bernardo: Ele me ganhou por inteiro, dando-Se todo a mim. Não é um dever de justiça e de gratidão Lhe darmos tudo o que nos for possível dar? Ele foi o primeiro a ser liberal para conosco. Que o sejamos também para com Ele, e O veremos ainda mais liberal durante nossa vida, na nossa morte e em toda a eternidade: “Com quem é bondoso Vos mostrais bondoso” (Sl 17, 26). 139. Segundo motivo, que nos mostra como é justo, em si mesmo, e vantajoso ao cristão se consagrar por inteiro à Santíssima Virgem por esta prática, a fim de ser mais perfeitamente de Jesus Cristo. Esse bom Mestre não recusou Se encerrar no seio da Santíssima Virgem como cativo e escravo de amor, e ser-Lhe submisso e obediente durante trinta anos. É aqui, eu o repito, que o espírito humano se perde, quando faz uma séria reflexão sobre esta conduta da Sabedoria encarnada, que não quis – embora o pudesse fazer – dar-Se diretamente aos homens, mas o fez pela Santíssima Virgem. Não quis vir ao mundo na idade de um homem perfeito, independente de outrem, mas como um pobre e pequeno menino, dependente dos desvelos e do sustento de sua Santa Mãe. Essa Sabedoria infinita, que tinha um desejo imenso de glorificar a Deus, seu Pai, e de salvar os homens, não achou meio mais perfeito e mais curto de fazê-lo do que Se submeter em todas as coisas à Santíssima Virgem, não somente durante os oito, dez ou quinze primeiros anos de sua vida, como as outras crianças, mas durante trinta anos. E deu mais glória a Deus, seu Pai, durante todo esse tempo de submissão e dependência da Santíssima Virgem, como não Lhe teria dado empregando esses trinta anos em fazer prodígios, em pregar por toda a terra, em converter todos os homens; do contrário, Ele o teria feito. Oh! oh! como glorifica altamente a Deus quem se submete a Maria, a exemplo de Jesus! Tendo diante dos olhos um exemplo tão visível e conhecido de todos, seremos tão insensatos para julgar possível encontrar um meio mais perfeito e mais direto de glorificar a Deus, do que o de se submeter a Maria, a exemplo de seu Divino Filho? 140. Recorde-se aqui, como prova da dependência que devemos ter da Santíssima Virgem, o que foi dito mais acima, relatando os exemplos que o Pai, o Filho e o Espírito Santo nos dão de submissão que devemos à Santíssima Virgem. O Pai não deu e não dá seu Filho senão por Ela, não suscita filhos senão por Ela, e não comunica suas graças senão por Ela. Deus Filho não foi formado para todo o mundo senão por Ela, não é gerado todos os dias e engendrado senão por Ela em união com o Espírito Santo, e não comunica seus méritos e suas virtudes senão por Ela. O Espírito Santo não formou Jesus Cristo senão por Ela, não forma os membros de seu Corpo místico senão por Ela, e não dispensa seus dons e favores senão por Ela. Depois de tantos e tão prementes exemplos da Santíssima Trindade, podemos nós, sem uma extrema cegueira, prescindir de Maria, e não nos consagrar a Ela nem depender d’Ela para ir a Deus e para nos sacrificar a Deus? 141. Eis algumas passagens latinas dos Padres, que escolhi para provar o que acabo de dizer: “Maria tem dois filhos, o Homem-Deus e o homem puro; d’Aquele, Maria é mãe corporalmente; deste, é mãe espiritualmente” (São Boaventura e Orígenes, Speculum B.M.V., lect. III, §1, 2º). “Esta é a vontade de Deus: quis que recebêssemos tudo por Maria; consequentemente, se temos alguma esperança, alguma graça, algo salutar, saibamos que o devemos a Ela” (São Bernardo, De Aquaeductu, n.6). “Todos os dons, virtudes e graças do próprio Espírito Santo são concedidos pelas mãos de Maria a quem Ela quer, quando quer, como quer e quanto quer” (São Bernardino de Sena, Sermo in Nativ. B.V., art 1, cap. 8). “Porque tu eras indigno de receber as graças, elas foram dadas a Maria, para que por Ela recebesses tudo o que tens” (São Bernardo, Sermo 3 in Vigilia Nativitatia Domini, n. 10). 142. Deus, vendo que somos indignos de receber suas graças diretamente de sua mão, diz São Bernardo, as dá a Maria, a fim de que tenhamos por Ela tudo o que Ele quer nos dar. E Ele encontra também sua glória em receber pelas mãos de Maria a gratidão, o respeito e o amor que Lhe devemos pelos seus benefícios. É, pois, muito justo que imitemos essa conduta de Deus, a fim de que a graça retorne ao seu autor pelo mesmo canal por onde veio, como diz o mesmo São Bernardo: Para que a graça volte ao seu dispensador pelo mesmo canal. É exatamente o que se faz por esta devoção: oferecemos e consagramos tudo o que somos e tudo o que possuímos à Santíssima Virgem, a fim de que Nosso Senhor receba por seu intermédio a glória e a gratidão que Lhe devemos. Reconhecemo-nos indignos e incapazes de nos aproximar de sua Majestade infinita por nós mesmos, e por isso nos servimos da intercessão da Santíssima Virgem. 143. Ademais, trata-se aqui de uma prática de grande humildade, que Deus ama acima das outras virtudes. Uma alma que se eleva, rebaixa a Deus; uma alma que se humilha, eleva a Deus. Deus resiste aos soberbos e concede suas graças aos humildes: se vos rebaixais, crendo-vos indigno de aparecer diante d’Ele e de vos aproximar d’Ele, Ele desce, abaixa-Se para vir a vós, para Se comprazer em vós, e para vos elevar, apesar de vós. Mas, de modo contrário, quando alguém se aproxima ousadamente de Deus, sem medianeiro, Ele foge, não se pode alcançá-Lo. Oh! como Ele ama a humildade de coração! É a essa humildade que leva esta prática de devoção, pois ensina a nunca nos aproximarmos por nós mesmos de Nosso Senhor, por mais manso e misericordioso que Ele seja, mas a nos servirmos sempre da intercessão da Santíssima Virgem, seja para comparecer diante de Deus, seja para Lhe falar, seja para se aproximar d’Ele, seja para Lhe oferecer alguma coisa, seja para nos unir e nos consagrar a Ele. 144. Terceiro motivo. A Santíssima Virgem, que é um mar de mansidão e de misericórdia, e que nunca Se deixa vencer em amor e em liberalidade, vendo que alguém se Lhe dá totalmente para A honrar e servir, despojando-se do que tem de mais querido para A amar, dá-Se também, inteiramente e duma maneira inefável, a quem tudo Lhe deu. Ela o faz imergir no abismo de suas graças; Ela o adorna de seus méritos; Ela lhe dá o apoio de seu poder; Ela o ilumina de sua luz; Ela o abrasa com seu amor; Ela lhe comunica suas virtudes: sua humildade, sua fé, sua pureza, etc.; Ela Se torna sua garantia, seu suplemento e seu tudo diante de Jesus. Enfim, como essa pessoa consagrada é toda de Maria, Maria é também toda dela. Assim, pode-se dizer desse perfeito servo e filho de Maria o que São João Evangelista diz dele mesmo, que tomou a Santíssima Virgem por todos os seus bens: “O discípulo A recebeu” (Jo 19,27). 145. Isto produz na alma, se for fiel, uma grande desconfiança, desprezo e ódio de si mesma, e uma grande confiança e um grande abandono à Santíssima Virgem, sua boa senhora. Ela não se apoia mais, como antes, em suas disposições, intenções, méritos, virtudes e boas obras. Porque, tendo feito um sacrifício completo a Jesus por intermédio desta boa Mãe, já não tem senão um só tesouro que encerra todos os seus bens e que já não está em suas mãos, e este tesouro é Maria. Isso faz com que a alma se aproxime de Nosso Senhor sem escrúpulo nem temor servil, e que ela O invoque com muita confiança. É o que a faz entrar nos sentimentos do devoto e sábio abade Ruperto, que, fazendo alusão à vitória que Jacó alcançou sobre um anjo, diz à Santíssima Virgem estas belas palavras: “Ó Maria, minha Princesa e Mãe imaculada de um Deus-Homem, Jesus Cristo, desejo lutar com esse Homem, ou seja, com o Verbo divino, armado não de meus próprios méritos, mas dos vossos” (Rup. prolog. in Cantic.). Oh! como se é poderoso e forte junto de Jesus Cristo quando se está armado dos méritos e da intercessão da digna Mãe de Deus que, como diz Santo Agostinho, venceu amorosamente o Todo Poderoso! 146. Como, por esta prática, doamos a Nosso Senhor, pelas mãos de sua Santa Mãe, todas as nossas boas obras, esta boa Senhora as purifica, as embeleza e as faz serem aceitas por seu Filho. 1) Ela as purifica de toda sujeira do amor-próprio e do apego imperceptível à criatura, que estão insensivelmente nas melhores ações. Uma vez que elas estão entre suas mãos puríssimas e fecundas, essas mesmas mãos – que nunca foram estéreis nem ociosas e que purificam tudo o que tocam – retiram do presente que lhe damos tudo o que pode nele haver de estragado ou imperfeito. 147. 2) Ela as embeleza e as adorna com seus méritos e virtudes. Como se um camponês, querendo ganhar a amizade e a benevolência do rei, fosse à rainha e lhe entregasse uma maçã, que é todo seu ganho, a fim de que a rainha a apresentasse ao rei. A rainha, tendo aceito o pobre e pequeno presente do camponês, poria essa maçã em um grande e belo prato de ouro, e a apresentaria assim ao rei, da parte do camponês. Dessa forma, a maçã, embora indigna em si mesma de ser apresentada a um rei, tornar-se-ia um presente digno de sua Majestade, em atenção ao prato de ouro onde está e à pessoa que a apresenta. 148. 3) Ela apresenta essas boas obras a Jesus Cristo, pois não guarda nada para Si do que Lhe dão, como se Ela fosse a destinatária, mas fielmente remete tudo a Jesus Cristo. O que se Lhe dá, dá-se necessariamente a Jesus; se A louvamos e glorificamos, logo Ela louva e glorifica a Jesus. Quando A louvamos e bendizemos, Ela canta, como outrora ao ser louvada por Santa Isabel: “Minha alma glorifica ao Senhor” (Lc 1, 46). 149. 4) Ela faz com que Jesus aceite essas boas obras, por pequeno e pobre que seja o presente para esse Santo dos santos e esse Rei dos reis. Quando alguém apresenta alguma coisa a Jesus, por si mesmo e apoiado em sua habilidade e sua disposição pessoais, Jesus examina o presente e, frequentemente, o rejeita por causa da mancha que contraiu pelo amor-próprio, como outrora rejeitou os sacrifícios dos judeus, cheios de sua vontade própria. Mas quando se Lhe apresenta alguma coisa pelas mãos puras e virginais de sua bem-amada, Ele é tocado pelo seu lado fraco, se me é lícito falar assim. Ele não considera tanto a coisa que se Lhe dá, mas, sim, sua boa Mãe que a apresenta. Não olha tanto de onde vem esse presente, mas Aquela por quem ele vem. Assim Maria, que nunca é recusada e é sempre bem recebida por seu Filho, faz com que sua Majestade receba agradavelmente tudo o que Ela Lhe apresenta, pequeno ou grande. Basta que Maria o apresente para que Jesus o receba e o aceite. É o grande conselho que dava São Bernardo àqueles e àquelas que conduzia à perfeição. Quando quiserdes oferecer alguma coisa a Deus, tende o cuidado de oferecê-la pelas mãos agradabilíssimas e digníssimas de Maria, a menos que queirais ser rejeitado: “Ao desejardes oferecer algo a Deus, cuide de fazê-lo pelas mãos de Maria, se não quiserdes ser rejeitado” (São Bernardo, Lib. de Aquaed.). 150. Não é o que a própria natureza inspira aos pequenos em relação aos grandes, como já vimos? Por que a graça não nos levaria a fazer a mesma coisa para com Deus, que está infinitamente acima de nós, e perante quem somos menos que átomos? Temos, além do mais, uma advogada tão poderosa que nunca é rejeitada; tão engenhosa que sabe de todos os segredos para ganhar o coração de Deus; tão boa e caridosa que não repele ninguém, por pequeno e mau que seja. Mostrarei mais adiante, na história de Jacó e Rebeca, a verdadeira prefigura das verdades que enuncio. 151. Quarto motivo. Fielmente praticada, esta devoção é um excelente meio para fazer com que o valor de todas as nossas boas obras seja empregado para a maior glória de Deus. Quase ninguém age por este fim tão nobre – embora a isso estejamos obrigados –, seja por não saber em que consiste a maior glória de Deus, seja por não a querer. Mas a Santíssima Virgem, a quem cedemos o valor e o mérito de nossas boas obras, conhece perfeitamente onde se acha a maior glória de Deus e não faz nada sem ser para este fim. Por isso, um perfeito servo desta boa Mestra, consagrado todo a Ela como dissemos, pode afirmar ousadamente que o valor de todas as suas ações, pensamentos e palavras é empregado para a maior glória de Deus, a menos que ele revogue expressamente seu oferecimento. Pode haver algo mais consolador para uma alma que ama a Deus de um amor puro e desinteressado, e que preza mais a glória e os interesses de Deus do que os seus próprios interesses? 152. Quinto motivo. Esta devoção é um caminho fácil, curto, perfeito e seguro para chegar à união com Nosso Senhor, no que consiste a perfeição do cristão. É um caminho fácil, que Jesus Cristo tornou mais acessível vindo a nós, onde não se encontra nenhum obstáculo para se chegar a Ele. Pode-se, na verdade, chegar à união divina por outros caminhos, mas será através de muito mais cruzes e mortes estranhas, com maiores dificuldades que só penosamente serão vencidas. Será preciso passar por noites escuras, por combates e agonias estranhas, por cima de montanhas escarpadas, por cima de espinhos muito pontiagudos e horríveis desertos. Mas, pelo caminho de Maria, passa-se mais suave e tranquilamente. Nele encontramos, é verdade, grandes combates a travar e grandes dificuldades a vencer. Porém, esta boa Mãe e Senhora torna-Se tão próxima e tão presente a seus fiéis servos, para os iluminar nas suas trevas, esclarecer nas suas dúvidas, fortalecer nos seus temores, sustentar nos seus combates e suas dificuldades, que, na verdade, comparado aos outros, este caminho virginal para encontrar Jesus Cristo é feito de rosas e de mel. Houve alguns santos, mas em pequeno número, como Santo Efrém, São João Damasceno, São Bernardo, São Bernardino, São Boaventura, São Francisco de Sales, etc., que passaram por este caminho suave para ir a Jesus Cristo, porque o Espírito Santo, Esposo fiel de Maria, lhos mostrou por uma graça singular. Mas outros santos, que são em maior número, embora tenham sido todos devotos da Santíssima Virgem, não ingressaram, ou o fizeram muito pouco, nesta via. Por isso passaram por provações mais rudes e mais perigosas. 153. Mas então, dir-me-á algum fiel servo de Maria, por que os servos fiéis desta boa Mãe têm tantas ocasiões de sofrer, e mais até do que outros que d’Ela não são tão devotos? Contradizem-nos, perseguem-nos, caluniam-nos, não os suportam; ou, ainda, caminham em trevas interiores e por desertos onde não há a menor gota de orvalho celeste. Se esta devoção à Santíssima Virgem torna mais fácil o caminho que conduz a Jesus Cristo, por que são eles os mais crucificados? 154. Respondo-lhe que é bem verdade que os mais fiéis servos da Virgem Maria, sendo seus maiores favoritos, recebem d’Ela as maiores graças e favores do Céu, que são as cruzes. Mas sustento que são também esses servos de Maria que carregam aquelas cruzes com mais facilidade, mérito e glória; e aquilo que deteria mil vezes um outro, ou o faria cair, não os detém uma única vez e os faz progredir. É que esta boa Mãe, repleta de graça e de unção do Espírito Santo, adoça todas aquelas cruzes que lhes prepara no açúcar de sua doçura maternal e na unção do puro amor. De modo que eles as aceitam alegremente como nozes caramelizadas, embora sejam em si mesmas muito amargas. E creio que uma pessoa desejosa de ser devota e viver piedosamente em Jesus Cristo e, por conseguinte, sofrer perseguições e carregar todos os dias sua cruz, não carregará nunca grandes cruzes, ou não as carregará alegremente nem até o fim, sem uma terna devoção à Santíssima Virgem, que é a doçura das cruzes. Do mesmo modo, ninguém poderá comer, sem se fazer grande violência, que não será duradoura, nozes verdes sem serem cristalizadas no açúcar. 155. Esta devoção à Santíssima Virgem é um caminho curto para encontrar Jesus Cristo, seja porque nela não há perigo de extravio, seja porque, como acabo de dizer, nela se caminha com mais alegria e facilidade, e, portanto, com mais prontidão. Avança-se mais, em pouco tempo de submissão e dependência a Maria, do que em anos inteiros de vontade própria e apoio em si mesmo. Pois um homem obediente e submisso à divina Maria cantará vitórias assinaladas sobre todos os seus inimigos. Estes, é verdade, tentarão impedi-lo de caminhar, ou fazê-lo recuar ou cair. Mas, com o apoio, o auxílio e a condução de Maria, sem cair, sem recuar e mesmo sem se atrasar, ele avançará a passos de gigante para Jesus Cristo, através do mesmo caminho pelo qual está escrito que Jesus Cristo veio a nós a passos de gigante e em pouco tempo. 156. Por que achais que Jesus Cristo viveu tão pouco na terra e, no curto período em que nela passou, viveu quase sempre na submissão e obediência à sua Mãe? Ah! é que, tendo morrido cedo, Ele viveu muito, e muito mais que Adão, cujas perdas Ele vinha reparar, embora este tenha vivido mais de novecentos anos. Jesus Cristo viveu muito, porque viveu submisso e bem unido à sua Santa Mãe para obedecer a Deus seu Pai; pois: a) Aquele que honra sua mãe se assemelha a um homem que ajunta tesouros, diz o Espírito Santo, ou seja, aquele que honra Maria sua Mãe até se submeter a Ela e Lhe obedecer em todas as coisas, tornar-se-á em breve muito rico, porque amontoa diariamente tesouros, pelo segredo dessa pedra filosofal: “Quem honra sua mãe é semelhante àquele que acumula um tesouro” (Eclo 3.5). b) Segundo uma interpretação espiritual desta palavra do Espírito Santo: “Minha velhice se encontra na misericórdia do seio” (Sl 91, 11), é no seio de Maria, que envolveu e gerou um homem perfeito e que teve a capacidade de conter Aquele que todo o universo não compreende nem contém, é no seio de Maria, digo, que os jovens se tornam anciãos em luz, em santidade, em experiência e em sabedoria, e que se chega em poucos anos até a plenitude da idade de Jesus Cristo. 157. Esta prática de devoção à Santíssima Virgem é um caminho perfeito para ir e se unir a Jesus Cristo, porque a divina Maria é a mais perfeita e a mais santa das puras criaturas, e Jesus Cristo, que veio perfeitamente a nós, não escolheu outro caminho em sua grande e admirável viagem. O Altíssimo, o Incomparável, o Inacessível, Aquele que É, quis vir a nós, pequenos vermes da terra, que nada somos. Como se fez isto? O Altíssimo desceu perfeita e divinamente até nós através da humilde Maria, sem nada perder de sua divindade e santidade. E é por Maria que os pequeninos devem subir perfeita e divinamente ao Altíssimo, sem nada temer. O Incompreensível Se deixou compreender e conter perfeitamente pela pequena Maria, sem nada perder de sua imensidade. É também pela pequena Maria que devemos nos deixar conter e conduzir perfeitamente, sem nenhuma reserva. O Inacessível Se aproximou e Se uniu estreita, perfeita e até pessoalmente à nossa humanidade por meio de Maria, sem nada perder de sua Majestade. É também por Maria que devemos nos aproximar de Deus e nos unir à sua Majestade, perfeita e estreitamente, sem receio de sermos repelidos. Enfim, Aquele que É quis vir ao que não é, e fazer com que o que não é se torne Deus ou naquele que É. Ele o fez perfeitamente, dando-Se e Se submetendo inteiramente à jovem Virgem Maria, sem cessar de ser no tempo Aquele que É desde toda a eternidade. Do mesmo modo, é por Maria que, embora nada sejamos, podemos nos tornar semelhantes a Deus pela graça e pela glória, dando-nos a Ela tão perfeita e inteiramente, que nada sejamos em nós mesmos e tudo n’Ela, sem receio de nos enganarmos. 158. Que me façam um caminho novo para ir a Jesus Cristo, e que esse caminho seja pavimentado de todos os méritos dos bem-aventurados, adornado de todas as suas virtudes heroicas, iluminado e enfeitado de todas as luzes e belezas dos anjos, e que todos os anjos e santos nele estejam para ali conduzir, defender e sustentar aqueles e aquelas que por ele quiserem andar: em verdade, em verdade digo ousadamente, e digo a verdade, que eu escolheria de preferência a esse caminho tão perfeito, a via imaculada de Maria: “Fez que o meu caminho fosse imaculado” (Sl 18, 33). Caminho sem nenhuma mancha nem sujeira, sem pecado original nem atual, sem sombras nem trevas. E se meu amável Jesus, na glória, vem uma segunda vez à terra (como é certo) para nela reinar, não escolherá absolutamente outro caminho para sua vinda senão a divina Maria, por quem veio tão segura e perfeitamente na primeira vez. A diferença que haverá entre a sua primeira e a última vinda é que a primeira foi secreta e escondida, e a segunda será gloriosa e triunfante. Mas ambas perfeitas, porque ambas serão por Maria. Ah! eis um mistério que não se compreende: Aqui se cale toda língua. 159. Esta devoção à Santíssima Virgem é um caminho seguro para ir a Jesus Cristo e adquirir a perfeição unindo-nos a Ele: a) Porque esta prática que ensino não é nova. Como diz M. Boudon, falecido há pouco em odor de santidade, num livro que escreveu sobre esta devoção, ela é tão antiga que não se pode assinalar com precisão o seu início. No entanto, é certo que há mais de setecentos anos se encontram sinais dela na Igreja. Santo Odilon, abade de Cluny, que viveu por volta do ano 1040, foi um dos primeiros que a praticou publicamente na França, como se vê na sua vida. O cardeal Pedro Damião relata que, no ano 1076, o bem-aventurado Marinho, seu irmão, se fez escravo da Santíssima Virgem na presença de seu diretor, de uma maneira bem edificante: pôs uma corda ao pescoço, tomou a disciplina e depositou sobre o altar uma quantia de dinheiro como sinal de seu devotamento e consagração à Santíssima Virgem. A isto se manteve tão fielmente por toda sua vida que mereceu, na sua morte, ser visitado e consolado por sua boa Senhora, e dos lábios d’Ela receber as promessas do Paraíso, por recompensa de seus serviços. Cesário Bolando fez menção de um ilustre cavaleiro, Valtero de Birbak, parente próximo dos duques de Lovaina, que, por volta do ano 1300, fez esta consagração de si mesmo à Santíssima Virgem. Esta devoção foi praticada por vários de modo particular até o século XVII, quando se tornou pública. 160. O Pe. Simão de Rojas, da Ordem da Trindade, chamada da Redenção dos Cativos, pregador do rei Filipe III, pôs em voga esta devoção em toda a Espanha e Alemanha; e, à instância de Filipe III, obteve de Gregório XV grandes indulgências para aqueles que a praticarem. O Pe. de Los Rios, da Ordem de Santo Agostinho, juntamente com o Padre de Rojas, seu íntimo amigo, dedicou-se a espalhar esta devoção por suas palavras e seus escritos na Espanha e Alemanha. Nesse intuito, compôs um grosso volume intitulado Hierarchia Mariana, em que trata, com muita piedade e erudição, da antiguidade, da excelência e da solidez desta devoção. Os Padres Teatinos, no século passado, estabeleceram esta devoção na Itália, Sicília e Sabóia. 161. O Padre Estanislau Falácio, da Companhia de Jesus, levou adiante maravilhosamente esta devoção na Polônia. O Padre de Los Rios, no seu livro mencionado mais acima, relata os nomes dos príncipes, princesas, bispos e cardeais de diferentes reinos que abraçaram esta devoção. O Padre Cornélio a Lápide, tão recomendável por sua piedade quanto por sua profunda ciência, tendo recebido da parte de vários bispos e teólogos a incumbência de examinar esta devoção, depois de tê-la analisado maduramente, teceu-lhe louvores dignos de sua piedade. Seu exemplo foi seguido por várias outras grandes personagens. Os Padres Jesuítas, sempre zelosos ao serviço da Santíssima Virgem, apresentaram em nome dos congregados de Colônia um pequeno tratado desta devoção ao duque Ferdinando de Baviera, naquele momento arcebispo de Colônia, que lhe deu sua aprovação e a permissão de fazê-lo imprimir, exortando todos os párocos e religiosos de sua diocese a propagar, tanto quanto pudessem, esta sólida devoção. 162. O cardeal de Bérulle, cuja memória é abençoada por toda a França, foi um dos mais zelosos em espalhar esta devoção nesse país, apesar de todas as calúnias e perseguições que lhe fizeram os críticos e libertinos. Acusaram-no de novidade e de superstição. Escreveram e publicaram contra ele um folheto difamatório, e se serviram – ou melhor, o demônio por meio deles – de mil estratagemas para impedi-lo de espalhar esta devoção na França. Mas esse grande e santo homem respondeu às calúnias só com sua paciência, e às objeções contidas no libelo, com um pequeno escrito onde as refuta vigorosamente. Mostra-lhes que esta devoção está fundada no exemplo de Jesus Cristo, nas obrigações que Lhe temos e nos votos que fizemos no santo Batismo. E é particularmente com essa última razão que fecha a boca de seus adversários, fazendo-lhes ver que esta consagração à Santíssima Virgem, e a Jesus Cristo pelas mãos d’Ela, não é mais que uma perfeita renovação dos votos ou promessas do Batismo. Diz belas coisas sobre esta devoção, que se pode ler em suas obras. 163. Pode-se ler no livro de M. Boudon os diferentes papas que aprovaram esta devoção, os teólogos que a examinaram, e as perseguições que ela sofreu e venceu, e os milhares de pessoas que a abraçaram, sem que jamais nenhum papa a tenha condenado. E não poderia fazê-lo sem derrubar os fundamentos do Cristianismo. Consta, portanto, que esta devoção não é nova. E se não é muito comum, é por ser preciosa demais para ser apreciada e praticada por todo o mundo. 164. b) Esta devoção é um meio seguro para ir a Jesus Cristo, porque o próprio da Virgem Maria é nos conduzir seguramente a Jesus Cristo, como o próprio de Jesus Cristo é nos conduzir seguramente ao Pai eterno. E que as pessoas espirituais não acreditem erroneamente que Maria seja um obstáculo para se chegar à união divina. Pois, seria possível que Aquela que encontrou graça diante de Deus, para todo o mundo em geral e para cada um em particular, fosse um empecilho para uma alma encontrar a grande graça da união com Ele? Seria possível que Aquela que foi repleta e superabundante de graças, tão unida e transformada em Deus que Ele teve de Se encarnar n’Ela, pudesse impedir uma alma de se unir perfeitamente a Deus? É bem verdade que a visão de outras criaturas, embora santas, poderia talvez retardar a união divina em certas circunstâncias, mas jamais Maria, como já disse e não me cansarei de repetir. Uma razão porque tão poucas almas atingem a plenitude da idade de Jesus Cristo, é que Maria, que é, hoje como sempre, a Mãe de Jesus Cristo e a Esposa fecunda do Espírito, não está suficientemente formada em seus corações. Quem quer ter o fruto bem maduro e formado deve ter a árvore que o produz. Quem quer ter o fruto da vida, Jesus Cristo, deve ter a árvore da vida, que é Maria. Quem quer ter em si a operação do Espírito Santo, deve ter sua Esposa fiel e indissolúvel, a divina Maria, que o torna fértil e fecundo, como dissemos alhures. 165. Estejamos, portanto, persuadidos de que quanto mais presente tivermos Maria em nossas orações, contemplações, ações e sofrimentos – senão de modo distinto e perceptível, ao menos de maneira geral e imperceptível –, mais perfeitamente encontraremos Jesus Cristo, que está sempre com Maria, grande, poderoso, operante e incompreensível, mais do que no Céu ou do que em qualquer criatura do universo. Assim, a divina Maria, toda mergulhada em Deus, longe está de se tornar um obstáculo para os perfeitos chegarem à união com Deus. Não houve até hoje, nem haverá jamais, criatura alguma que nos ajude mais eficazmente nesta grande obra, seja pelas graças que Ela nos comunica para este efeito, pois ninguém está cheio do pensamento de Deus senão por Ela, como diz um santo, seja por nos defender contra as ilusões e trapaças do espírito maligno. 166. Lá onde está Maria, não pode estar o espírito maligno. Um dos sinais mais infalíveis de que se é conduzido pelo bom espírito é ser muito devoto de Maria, pensar n’Ela e falar d’Ela com frequência. Tal é o pensamento de um santo que acrescenta: assim como a respiração é um sinal certo de que o corpo não está morto, assim o pensamento frequente e a invocação amorosa de Maria é um sinal certo de que a alma não está morta pelo pecado. 167. Diz a Igreja, e o Espírito Santo que a conduz, que só Maria esmagou sozinha todas as heresias. Assim, por mais que os críticos resmunguem, jamais um fiel devoto de Maria cairá na heresia ou na ilusão, ao menos formalmente. Poderá errar materialmente, tomar a mentira por verdade, e o espírito maligno pelo bom, embora mais dificilmente que qualquer outra pessoa. Porém, cedo ou tarde conhecerá sua falta e seu erro material. E quando o conhecer, não se obstinará de maneira alguma em crer e sustentar o que tinha julgado verdadeiro. 168. Portanto, aquele que, sem receio de ilusão, comum às pessoas de oração, deseja avançar na via da perfeição e encontrar segura e perfeitamente Jesus Cristo abrace com “coração generoso e ânimo resoluto” (2Mac 1, 3) esta devoção à Santíssima Virgem, que talvez ainda não conheça. Que entre no caminho excelente que lhe era desconhecido e que lhe mostro. É um caminho facilitado por Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada, nosso único chefe, e os que por ele passarem não podem se enganar. É um caminho fácil, por causa da plenitude da graça e da unção do Espírito Santo que o preenche. Ao se caminhar por ele, não se cansa nem se recua. É um caminho curto, que em pouco tempo nos leva a Jesus Cristo. É um caminho perfeito, onde não há lama nem poeira, nem o menor lixo do pecado. É, enfim, um caminho seguro, que nos conduz a Jesus Cristo e à vida eterna, reta e seguramente, sem desviar à direita nem à esquerda. Entremos, pois, nesse caminho e andemos por ele dia e noite até a plenitude da idade de Jesus Cristo. 169. Sexto motivo. Esta prática de devoção dá uma grande liberdade interior, que é a liberdade dos filhos de Deus, às pessoas que a praticam fielmente. Como por esta devoção nos tornamos escravos de Jesus Cristo, consagrando-nos inteiramente a Ele nesta qualidade, esse bom Mestre assim recompensa o cativeiro amoroso em que nos colocamos: 1) Tira todo escrúpulo e temor servil da alma, que só servem para estreitá-la, escravizá-la e confundi-la; 2) Abre o coração para uma santa confiança em Deus, fazendo-o ver n’Ele seu pai; 3) Inspira-lhe um amor terno e filial a Deus. 170. Sem me deter a provar essa verdade por meio de razões, me contento em relatar um traço de história que li na vida da Madre Inês de Jesus, religiosa jacobina, do convento de Langeac, em Auvérnia, e que morreu em odor de santidade nesse mesmo lugar, em 1634. Quando tinha apenas sete anos e sofrendo de grandes tormentos de espírito, ouviu uma voz a lhe dizer que, se quisesse ser libertada de todas as suas aflições e protegida contra todos os seus inimigos, deveria se tornar o quanto antes escrava de Jesus e de sua Santa Mãe. Mal chegou em casa, se entregou por inteiro a Jesus e à sua Santa Mãe nessa qualidade, embora não conhecesse ainda esta devoção. Tendo encontrado uma corrente de ferro, cingiu-se com ela sobre seus rins e a carregou até a morte. Depois dessa ação, todas as suas aflições e escrúpulos cessaram. Achou-se numa grande paz e generosidade de coração, o que a levou a ensinar esta devoção a vários outros que nela fizeram grandes progressos, entre os quais, M. Olier, fundador do Seminário de São Sulpício, e vários padres e eclesiásticos do mesmo seminário. Um dia, Nossa Senhora apareceu à Madre Inês de Jesus e lhe pôs ao pescoço uma corrente de ouro para lhe testemunhar a alegria que sentia por ela se ter feito escrava de seu Filho e sua. E Santa Cecília, que acompanhava a Virgem Maria, lhe disse: Felizes aqueles que são os fiéis escravos da Rainha do Céu, pois gozarão da verdadeira liberdade: no vosso serviço está a liberdade! 171. Sétimo motivo. O que pode ainda nos engajar a abraçar esta devoção são os grandes benefícios que dela receberá nosso próximo. Pois por esta devoção exercemos para com ele a caridade de uma maneira eminente, uma vez que lhe damos, pelas mãos de Maria, tudo o que temos de mais caro, que é o valor satisfatório e impetratório de todas as nossas boas obras, sem excluir o menor bom pensamento e o mais leve sofrimento. Consentimos que todas as satisfações que adquirimos e vamos adquirir até a morte sejam aplicadas, segundo a vontade da Santíssima Virgem, na conversão dos pecadores ou na libertação das almas do Purgatório. Não é isto amar seu próximo perfeitamente? Não é isto ser o verdadeiro discípulo de Jesus Cristo, que se reconhece pela caridade? Não é este o meio de converter os pecadores sem perigo de vaidade, e libertar as almas do Purgatório quase sem fazer mais nada além do que nos impõem os deveres de estado? 172. Para se conhecer a excelência desse motivo, seria preciso conhecer o bem que é a conversão de um pecador ou a libertação de uma alma do Purgatório. É um bem infinito, maior do que criar o céu e a terra, pois é dar a uma alma a posse de Deus. Ainda que por esta devoção não se libertasse senão uma alma do Purgatório em toda a sua vida, ou que se convertesse apenas um pecador, não bastaria isso para levar todo homem verdadeiramente caridoso a abraçá-la? Mas é preciso notar que nossas boas obras, passando pelas mãos de Maria, recebem um acréscimo de pureza e, por conseguinte, de méritos e de valor satisfatório e impetratório. Por isso se tornam muito mais capazes de aliviar as almas do Purgatório e de converter os pecadores do que se não passassem pelas mãos virginais e liberais de Maria. O pouco que se dá por Ela, sem vontade própria, em verdade se torna bem poderoso para abrandar a ira de Deus e para atrair sua misericórdia. Na hora da morte verificar-se-á, talvez, que uma pessoa realmente fiel a esta devoção terá livrado, por esse meio, muitas almas do Purgatório e convertido muitos pecadores, embora só tenha praticado as ações ordinárias do seu estado. Que alegria em seu juízo! Que glória na eternidade! 173. Oitavo motivo. Enfim, o que mais fortemente nos leva, de certa maneira, a esta devoção à Santíssima Virgem é o fato de ser um meio admirável para perseverar na virtude e ser fiel. Por que a maior parte das conversações dos pecadores não é duradoura? Por que se recai tão facilmente no pecado? Por que a maioria dos justos, ao invés de avançar de virtude em virtude e adquirir novas graças, perde muitas vezes o pouco de virtudes e de graças que possui? Essa desgraça provém, como acima mostrei, de que estando o homem tão corrompido, tão fraco e tão inconstante, fia-se em si mesmo e se apoia em suas próprias forças, julgando-se capaz de guardar o tesouro de suas graças, de suas virtudes e méritos. Por esta devoção, confiamos à Santíssima Virgem, que é fiel, tudo o que possuímos e A tomamos por depositária universal de todos os nossos bens da natureza e da graça. Confiamo-nos à sua fidelidade, apoiamo-nos em seu poder e nos alicerçamos em sua misericórdia e sua caridade, a fim de que conserve e aumente nossas virtudes e méritos, apesar de o demônio, o mundo e a carne se esforçarem para no-los arrancar. Dizemos-lhe, como um bom filho à sua mãe, e um fiel servo à sua senhora: “Guardai o que foi depositado” (1Tim 6, 20). Minha boa Mãe e Senhora, reconheço que recebi até aqui mais graças de Deus por vossa intercessão do que eu mereço, e que minha funesta experiência me ensina que carrego esse tesouro em um vaso muito frágil e que sou muito fraco e muito miserável para conservá-lo em mim mesmo: “Sou pequeno e desprezado” (Sl 118, 141). Suplico-vos, recebei em depósito tudo o que possuo e o conservai por vossa fidelidade e vosso poder. Se me guardardes, nada perderei; se me sustentardes, não cairei; se me protegerdes, estarei a salvo de meus inimigos. 174. É o que diz São Bernardo em termos formais para nos inspirar esta devoção: “Quando Ela vos sustenta, não caís; quando vos protege, não temeis; quando vos conduz, não cansais; quando vos é favorável, chegais ao porto da salvação” (Serm. super Missus, n. 17). São Boaventura parece dizer a mesma coisa em termos ainda mais formais: “A Virgem Maria”, diz ele, “não é apenas mantida na plenitude dos santos; mas mantém e guarda os santos na plenitude deles, a fim de que esta não diminua. Impede que suas virtudes se percam, que seus méritos pereçam, que suas graças se percam e que os demônios os prejudiquem. Por fim, impede que Nosso Senhor os castigue quando pecam” (Speculum B.V., VII, §6). 175. A Santíssima Virgem é a Virgem fiel que, pela sua fidelidade a Deus, repara as perdas causadas pela infiel Eva por sua infidelidade, e que obtém de Deus a fidelidade e a perseverança para todos os que se consagram a Ela. Por isso um santo a compara a uma âncora firme, que os retém e os impede de naufragar no mar agitado deste mundo, onde tantas pessoas perecem por não se prenderem a essa âncora firme. Nós prendemos, diz ele, as almas à vossa esperança como a uma firme âncora (Cf. S. João Damasceno, Sermo 1 in Dormitatione B.M.V.). Foi a Ela que os santos que se salvaram mais se prenderam e prenderam os outros, a fim de perseverarem na virtude. Felizes, pois, mil vezes felizes os cristãos que, agora, se prendem fiel e inteiramente a Ela como a uma âncora firme. Os efeitos da tempestade deste mundo não os farão submergir nem perder seus tesouros celestes. Felizes aqueles e aquelas que entram n’Ela como na arca de Noé! As águas do dilúvio de pecados, que afogam tanta gente, não os prejudicarão, pois: “Aqueles que se guiam por Mim não pecarão” (Eclo 24, 30), diz Ela com a Sabedoria. Felizes os filhos infiéis da infeliz Eva que se prendem à Mãe e Virgem fiel, que sempre permanece fiel e jamais se desmente (Cf. 2Tim 2, 13), e que ama sempre aqueles que A amam (Cf. Pr 8,17), não somente com um amor afetivo, mas efetivo e eficaz, impedindo-os, por meio de graças abundantes, de recuar na virtude ou de cair no caminho perdendo a graça de seu Filho. 176. Esta boa Mãe recebe sempre, por pura caridade, tudo aquilo que Lhe damos em depósito. E, uma vez que o recebeu como depositária, é obrigada por justiça a no-lo guardar, em virtude do contrato de depósito. Do mesmo modo que uma pessoa a quem eu tivesse confiado mil moedas de ouro seria obrigada a guardá-las, e se, por negligência, viesse a perdê-las, em boa justiça seria a responsável. Mas não, jamais a fiel Maria deixará perder por sua negligência o que Lhe confiamos. É mais fácil passarem antes o céu e a terra, do que Ela ser negligente e infiel com os que n’Ela confiam. 177. Pobres filhos de Maria, vossa fraqueza é extrema, vossa inconstância é grande, vosso íntimo é bem corrompido. Eu o confesso, sois formado da mesma massa corrompida dos filhos de Adão e Eva, mas não desanimeis por isso. Consolai-vos, regozijai-vos: eis o segredo que vos ensino, desconhecido de quase todos os cristãos, mesmo dos mais devotos. Não deixeis vosso ouro e vossa prata em vossos cofres, já arrombados pelo espírito maligno que vos roubou, e são pequenos, fracos e velhos demais para conter um tesouro tão grande e tão precioso. Não depositeis água pura e clara da fonte em vossos vasos estragados e infectados pelo pecado. Se o pecado já não existe neles, ficou ainda seu odor, e a água por causa disso ficará estragada. Não ponhais vossos vinhos finos em vossos velhos tonéis que foram enchidos de mau vinho: ficariam estragados e em perigo de se perderem. 178. Embora me ouçais, almas predestinadas, falo mais claramente. Não confieis o ouro de vossa caridade, a prata de vossa pureza, as águas das graças celestes, nem os vinhos de vossos méritos e virtudes a um saco furado, a um cofre velho e quebrado, a um vaso deteriorado e corrompido como vós sois. Do contrário, sereis pilhados pelos ladrões, quer dizer, os demônios que procuram e espreitam, noite e dia, o tempo certo para o fazer. Pelo vosso mau odor de amor próprio, de confiança em vós mesmos e de vontade própria, estragareis tudo o que Deus vos dá de mais puro. Colocai, lançai no seio e no coração de Maria todos os vossos tesouros, todas as vossas graças e virtudes: Ela é um vaso de espírito, é um vaso de honra, é um vaso insigne de devoção. Depois que o próprio Deus Se encerrou com todas as suas perfeições nesse vaso, este se tornou todo espiritual e a morada espiritual das almas mais espirituais; tornou-se honorífico e o trono de honra dos maiores príncipes da eternidade; tornou-se insigne na devoção e a morada dos mais ilustres em mansidão, em graças e em virtudes. Tornou-se, enfim, rico como uma casa de ouro, forte como uma torre de David e puro como uma torre de marfim. 179. Oh! como é feliz o homem que tudo deu a Maria, que se confia e abandona, em tudo e por tudo, em Maria! Ele é todo de Maria, e Maria é toda dele. Pode dizer ousadamente com David: “Ela é feita para mim” (Cf. Sl 118, 56); ou com o Discípulo bem-amado: “Eu A tomei por todo o meu bem” (Jo 19,27); ou com Jesus Cristo: “Tudo o que tenho é vosso, e tudo o que tendes é meu” (Jo 17,10). 180. Se, ao ler isso, algum crítico imaginar que falo com exagero e por demasiada devoção, infelizmente não me entende, seja porque é um homem carnal que não compreende as coisas do espírito, seja porque é do mundo e não pode receber o Espírito Santo, ou porque é orgulhoso e crítico, que condena e menospreza tudo o que não entende. Mas as almas que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus e de Maria, me compreendem e apreciam, e é para elas que escrevo (Cf. Jo 1,13). 181. No entanto, retomando a matéria interrompida, digo a uns e a outros que a divina Maria, sendo a mais honesta e a mais liberal de todas as puras criaturas, jamais Se deixa vencer em amor e em liberalidade: em troca de um ovo, diz um santo, Ela dá um boi; quer dizer, pelo pouco que se Lhe dá, Ela dá muito do que recebeu de Deus. Por conseguinte, se uma alma se doa a Ela sem reservas, Ela Se doa a essa alma sem reservas, desde que ponha sua confiança n’Ela sem presunção, trabalhando, por sua vez, em adquirir as virtudes e em dominar suas paixões. 182. Que os fiéis servos da Santíssima Virgem digam, portanto, ousadamente com São João Damasceno: “Tendo confiança em Vós, ó Mãe de Deus, serei salvo. Tendo vossa proteção, nada temerei. Com vosso auxílio, combaterei e porei em fuga meus inimigos: porque vossa devoção é uma arma de salvação que Deus dá àqueles que quer salvar” (Joan. Damas., serm. de Annuntiat). 183. De todas as verdades que acabo de escrever em relação à Santíssima Virgem e a seus filhos e servos, o Espírito Santo nos dá, na Sagrada Escritura, uma imagem admirável na história de Jacó, que recebeu a bênção de seu pai Isaac graças aos desvelos e à diligência de sua mãe Rebeca. Ei-la como a narra o Espírito Santo. Em seguida, acrescentarei a sua explicação. 184. Esaú tinha vendido a Jacó seu direito de primogenitura. Vários anos depois, Rebeca, mãe dos dois irmãos, que amava ternamente Jacó, assegurou-lhe essa vantagem por meio de um expediente santo e cheio de mistérios. Aconteceu que Isaac, sentindo-se muito velho, quis abençoar seus filhos antes de morrer. Chamou seu filho Esaú, a quem amava, e mandou-o caçar algo para ele comer e, em seguida, dar-lhe a sua bênção. Rebeca avisou imediatamente Jacó sobre o que se passava e o mandou ir pegar dois cabritos no rebanho. Logo que este os entregou à sua mãe, ela os preparou como sabia que Isaac gostava. Vestiu Jacó com as roupas de Esaú, que ela guardava. Cobriu-lhe as mãos e o pescoço com a pele dos cabritos, para que o pai, que estava cego, julgasse, pelo contato com os pelos da mão, que se tratava de Esaú, embora ouvisse a voz de Jacó. Isaac, com efeito, surpreendido com a voz que acreditava ser a de Jacó, mandou-o se aproximar. Tendo tocado os pelos da pele de cabrito que cobria as mãos dele, disse que, na verdade, a voz era a de Jacó, mas as mãos eram as de Esaú. Depois de ter comido e sentido, ao beijar Jacó, o cheiro de suas roupas perfumadas, ele o abençoou e lhe desejou o orvalho do céu e a fecundidade da terra; estabeleceu-o senhor de todos os seus irmãos, e terminou sua bênção por estas palavras: “Maldito seja quem te amaldiçoar e bendito quem te abençoar” (Gen 27,29). Assim que Isaac terminou de pronunciar essas palavras, entrou Esaú trazendo já preparado o que tinha apanhado na caça, para que o pai comesse e o abençoasse em seguida. Esse santo patriarca ficou tomado de incrível surpresa ao compreender o que tinha se passado. Porém, longe de retratar o que fizera, o confirmou, pois reconhecia no ocorrido claramente o dedo de Deus. Esaú então lançou rugidos, como nota a Sagrada Escritura, e, acusando com fúria o ardil de seu irmão, perguntou a seu pai se tinha apenas uma bênção. Neste ponto, como observam os santos Padres, Esaú é a imagem daqueles que, conciliando facilmente Deus com o mundo, querem gozar ao mesmo tempo as consolações do Céu e as da terra. Isaac, tocado pelos gritos de Esaú, o abençoou afinal, mas com uma bênção terrena, sujeitando-o ao seu irmão, o que fez Esaú conceber um ódio tão entranhado contra Jacó que, para matá-lo, só esperava pela morte do pai. E Jacó não teria podido evitar a morte, se Rebeca, sua querida mãe, não o tivesse salvado pelas diligências e pelos bons conselhos que lhe deu, os quais ele seguiu. 185. Antes de explicar essa história, que é tão bela, cumpre notar que, segundo todos os santos Padres e os intérpretes da Sagrada Escritura, Jacó é a figura de Jesus Cristo e dos predestinados, e Esaú a dos réprobos. Basta examinar as ações e a conduta de um e de outro para comprová-lo. 1) Esaú, o mais velho, era forte e robusto de corpo, habilidoso ao atirar flechas e apanhar muitas presas na caçada. 2) Quase não ficava em casa e, confiando somente na sua força e destreza, trabalhava sempre fora. 3) Não se esforçava muito em agradar sua mãe Rebeca, e nada fazia para isso. 4) Era tão guloso e gostava tanto de comer, que vendeu seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas. 5) Era, como Caim, cheio de inveja contra seu irmão Jacó e o perseguia sem trégua. 186. Eis a conduta diária dos réprobos. 1) Confiam em sua força e seus talentos para os negócios temporais; são muito fortes, muito hábeis e muito esclarecidos para as coisas do mundo, porém muito fracos e ignorantes nas coisas do Céu. É por isso que: 187. 2) Nunca ou quase nunca permanecem em casa, quer dizer, no seu íntimo, que é a casa interior e essencial que Deus deu a cada homem para, a seu exemplo, nela morar, pois Deus permanece sempre em Si mesmo. Os réprobos não gostam do recolhimento nem da espiritualidade, nem da devoção interior, e tratam de acanhados, carolas e primitivos aqueles que são interiores e retirados do mundo, e que trabalham mais no interior do que no exterior. 188. 3) Os réprobos pouco se preocupam com a devoção à Santíssima Virgem, a Mãe dos predestinados. É verdade que não A odeiam formalmente, e às vezes Lhe dirigem louvores, dizem que A amam e praticam até alguma devoção em sua honra. Mas, de resto, não suportariam que alguém A amasse ternamente, porque não têm por Ela as ternuras de Jacó. Notam defeitos nas práticas de devoção às quais os bons filhos e servos d’Ela se entregam fielmente para ganhar seu afeto. Não acreditam que esta devoção lhes seja necessária para a salvação, e acham que basta não odiarem formalmente a Virgem Maria ou não desprezarem abertamente sua devoção para ganharem as boas graças d’Ela. Acham que já são seus servos, recitando e sussurrando algumas orações em sua honra, sem ternura por Ela nem emenda da própria vida. 189. 4) Os réprobos vendem seu direito de primogenitura, quer dizer, os prazeres do Paraíso por um prato de lentilhas, isto é, pelos prazeres da terra. Riem, bebem, comem, divertem-se, brincam, dançam, etc., como Esaú, sem a preocupação de se tornarem dignos da bênção do Pai celeste. Numa palavra, não pensam senão na terra, não gostam senão da terra, não falam e não agem senão pela terra e seus prazeres, vendendo por um pequeno momento de prazer, por uma vã fumaça de honra e por um pedaço de terra dura, amarela ou branca, a graça batismal, sua veste de inocência, sua herança celeste. 190. 5) Enfim, os réprobos odeiam e perseguem todos os dias os predestinados, aberta ou veladamente. Desprezam-nos, criticam-nos, contrariam-nos, injuriam-nos, roubam-nos, enganam-nos, empobrecem-nos, escorraçam-nos e os reduzem a pó. Quanto a eles, fazem fortuna, curtem seus prazeres, estão em boa situação, se enriquecem, se engrandecem e vivem à vontade. 191. 1) Jacó, o caçula, era de compleição fraca, meigo e sossegado, e ficava normalmente em casa para ganhar as boas graças de sua mãe Rebeca, a quem amava ternamente. Se saía, não era por sua própria vontade, nem pela confiança que tivesse em sua habilidade, mas por obediência à sua mãe. 192. 2) Amava e honrava sua mãe, pelo que ficava em casa junto dela. Sua maior felicidade era vê-la, e evitava tudo o que podia lhe desagradar. Isso aumentava o amor que Rebeca tinha por ele. 193. 3) Era submisso em todas as coisas à sua mãe e em tudo lhe obedecia, imediata e amorosamente, sem se queixar. Ao menor sinal da vontade materna, o pequeno Jacó corria e trabalhava. Acreditava em tudo o que ela lhe dizia, sem discutir. Por exemplo, quando ela lhe disse que fosse buscar dois cabritos e os trouxesse para preparar do que comer ao seu pai Isaac, Jacó não lhe respondeu que bastava um para dar de comer a um só homem. Mas, sem discutir, fez o que ela lhe dissera. 194. 4) Tinha uma confiança sem limites na sua querida mãe. Como não se fiava de modo algum no seu próprio saber, apoiava-se unicamente nos cuidados e proteção da mãe. Recorria a ela em todas as suas necessidades e a consultava em todas as suas dúvidas. Por exemplo, quando lhe perguntou se, ao invés da bênção, não receberia a maldição de seu pai, acreditou e confiou nela, quando a mãe lhe disse que tomaria sobre si essa maldição. 195. 5) Enfim, imitava, na medida das suas forças, as virtudes que via em sua mãe. Parece que uma das razões pelas quais permanecia recolhido em casa, era para imitar a mãe, tão virtuosa, e fugir das más companhias que corrompem os costumes. Por esse meio, tornou-se digno de receber a dupla bênção de seu pai. 196. Eis também a conduta diária dos predestinados: 1) Permanecem em casa com sua mãe, quer dizer, amam o recolhimento, são interiores e se entregam à oração. Mas o fazem seguindo o exemplo de sua Mãe e na companhia d’Ela, a Virgem Maria, cuja glória reside toda no interior, e que em sua vida sempre amou o retiro e a oração. Verdade é que algumas vezes eles aparecem no mundo, mas por obediência à vontade de Deus e à de sua querida Mãe, a fim de cumprir os deveres de seu estado. Por maiores que sejam, na aparência, as coisas que fazem exteriormente, estimam muito mais as coisas que fazem dentro de si, no seu interior, em companhia da Santíssima Virgem, porque n’Ela realizam a grande obra de sua perfeição, perto da qual todas as outras obras não são senão brinquedos de criança. É por isso que, enquanto algumas vezes seus irmãos e irmãs trabalham exteriormente com muita força, diligência e sucesso, no meio do louvor e aprovação do mundo, sabem eles, pela luz do Espírito Santo, que há muito mais glória, benefício e prazer em permanecer escondido no retiro com Jesus Cristo, seu modelo, numa inteira e perfeita submissão à sua Mãe, do que fazer por si mesmos maravilhas da natureza e da graça no mundo, como tantos Esaús e condenados. A glória de Deus e as riquezas para o homem se encontram na casa de Maria (Cf. Sl 112, 3). Senhor Jesus, como são amáveis vossos tabernáculos! O passarinho achou uma casa para se alojar e a rola um ninho onde abrigar seus filhotes. Oh! quão feliz é o homem que permanece na casa de Maria, onde primeiro fizestes vossa morada! É nesta morada dos predestinados que o homem recebe socorro de Vós somente, e que dispõe no seu coração as ascensões e graus de todas as virtudes, a fim de se elevar à perfeição neste vale de lágrimas: “Como são amáveis as vossas moradas, Senhor dos exércitos” (Sl 84, 2). 197. 2) Amam-Na ternamente e honram verdadeiramente a Santíssima Virgem como sua boa Mãe e Senhora. Amam-Na não apenas de boca, mas em verdade; honram-Na não apenas por fora, mas no fundo do coração; evitam, como Jacó, tudo o que pode Lhe desagradar, e praticam com fervor tudo o que acreditam poder atrair sua benevolência. Trazem-Lhe e Lhe dão, não dois cabritos, como Jacó a Rebeca, mas seu corpo e sua alma, com tudo o que deles depende, simbolizado pelos dois cabritos de Jacó, a fim de que: a) Ela os receba como algo que Lhe pertence; b) Ela os mate e os faça morrer para o pecado e para eles mesmos, despojando-os de sua própria pele e de seu amor próprio, e, por esse meio, agradar a Jesus, seu Filho, que só quer como amigos e discípulos seus os que morreram para si mesmos; c) Ela os prepare ao gosto do Pai celeste e para sua maior glória, que Ela conhece melhor que nenhuma criatura; d) Pelos desvelos e intercessões da Mãe, esse corpo e essa alma, bem purificados de toda mancha, bem mortos, bem despojados e bem preparados, sejam uma iguaria delicada, digna do paladar e da bênção do Pai celeste. Não é isto o que hão de fazer as pessoas predestinadas, que apreciam e praticam a consagração perfeita a Jesus Cristo pelas mãos de Maria que nós ensinamos, para demonstrar a Jesus e a Maria um amor efetivo e corajoso? Os condenados dizem bastante que amam Jesus, que amam e honram Maria, mas não com seus haveres, não até Lhes sacrificar seus corpos com seus sentidos e sua alma com suas paixões, como os predestinados. 198. 3) Estes são submissos e obedientes à Santíssima Virgem, como à sua boa Mãe, seguindo o exemplo de Jesus Cristo que, dos trinta e três anos que viveu na terra, empregou trinta a glorificar Deus seu Pai, por uma perfeita e inteira submissão à sua Santa Mãe. A Ela obedecem seguindo exatamente seus conselhos, como o pequeno Jacó seguiu os de Rebeca, que lhe disse: “Meu filho, segue meus conselhos” (Gen 27, 8). Ou como os convidados nas bodas de Caná, aos quais a Virgem Maria disse: “Fazei tudo o que meu Filho vos disser” (Jo 2, 5). Jacó, por ter obedecido à sua mãe, recebe a bênção como por milagre, embora naturalmente não lhe coubesse. Os convidados às bodas de Caná, por terem seguido o conselho da Santíssima Virgem, foram honrados com o primeiro milagre de Jesus Cristo, que ali converteu a água em vinho, a pedido de sua Santa Mãe. De igual modo, todos aqueles que, até o fim dos séculos, receberem a bênção do Pai celeste e forem honrados com as maravilhas de Deus, não receberão essas graças senão em consequência de sua perfeita obediência a Maria. Os Esaús, ao contrário, perdem sua bênção, por falta de submissão à Santíssima Virgem. 199. 4) Esses predestinados têm uma grande confiança na bondade e no poder da Santíssima Virgem, sua boa Mãe. Reclamam sem cessar seu socorro; olham para Ela como sua estrela polar, para chegar a bom porto; revelam-Lhe suas dificuldades e suas necessidades com muita abertura de coração; apegam-se aos seus seios de misericórdia e suavidade, para ter o perdão de seus pecados pela sua intercessão ou para provar suas doçuras maternais em meio às penas e aborrecimentos. Lançam-se mesmo, escondem-se e se perdem de modo admirável no seu seio amoroso e virginal, para nele serem abrasados de um puro amor, purificados das menores manchas e encontrarem plenamente Jesus, que aí reside como no seu mais glorioso trono. Oh! que felicidade! Não creiais, diz o abade Guerrico, que haja mais felicidade em morar no seio de Abraão do que no seio de Maria, pois o Senhor nele colocou seu trono. Os réprobos, pelo contrário, põem toda sua confiança em si mesmos. Como o filho pródigo, não comem senão o alimento dos porcos; não se alimentam senão de terra como os sapos, e só amam as coisas visíveis e exteriores como os mundanos. Eles não apreciam as doçuras das entranhas e dos seios de Maria; não sentem um certo apoio e uma certa confiança que os predestinados sentem pela Virgem Maria, sua boa Mãe. Amam miseravelmente a sua fome das coisas exteriores, como diz São Gregório, porque não querem saborear a doçura que lhes está preparada dentro de si mesmos e dentro de Jesus e de Maria. 200. 5) Enfim, os predestinados seguem as vias da Santíssima Virgem, sua boa Mãe. Isto é, eles A imitam, e nisto são verdadeiramente felizes e devotos, trazendo o sinal infalível de sua predestinação, como lhes diz esta boa Mãe: “Bem-aventurados os que praticam minhas virtudes e que seguem as pegadas de minha vida, com o socorro da divina graça” (Pr 8, 32). São felizes neste mundo, durante a vida, pela abundância das graças e doçuras que da minha plenitude lhes comunico mais abundantemente que àqueles que não Me imitam de tão perto. São felizes na morte, que é doce e tranquila, e a qual assisto ordinariamente, para os conduzir, Eu mesma, às alegrias eternas. Finalmente, serão felizes na eternidade, porque nunca algum dos meus dedicados servos, que imitou as minhas virtudes durante a vida, se perdeu. Os réprobos, ao contrário, são infelizes durante sua vida, em sua morte e na eternidade, porque não imitam a Santíssima Virgem em suas virtudes, contentando-se em pertencer a alguma de suas confrarias, em recitar algumas preces em sua honra ou em praticar alguma outra devoção exterior. Ó Virgem Maria, minha boa Mãe, quão felizes – repito-o com transportes do meu coração – quão felizes são aqueles e aquelas que, não se deixando seduzir por uma falsa devoção para conVosco, guardam fielmente vossas vias, vossos conselhos e vossas ordens! Mas quão infelizes e malditos são aqueles que, abusando de vossa devoção, não guardam os mandamentos de vosso Filho: “Malditos os que se afastam de vossos mandamentos” (Sl 118, 21). 201. Eis agora os deveres caridosos que a Virgem Maria, como a melhor de todas as mães, presta a estes fiéis servos, que se deram a Ela da maneira que expus, e segundo a figura de Jacó. “Eu amo os que me amam” (Pr 8, 17). Ela os ama: a) Porque é sua verdadeira Mãe. Ora, uma mãe ama sempre seu filho, o fruto de suas entranhas; b) Ela os ama por reconhecimento, porque efetivamente eles A amam como sua boa Mãe; c) Ela os ama porque, sendo predestinados, Deus os ama: “Amei Jacó, porém aborreci Esaú” (Rm 9, 13); d) Ela os ama porque todos se consagraram a Ela, e são seu quinhão e sua herança: “Recebe Israel por tua herança” (Eclo 24, 13). 202. Ela os ama ternamente, e mais ternamente que todas as mães juntas. Reuni, se puderdes, todo o amor natural que as mães de todo o mundo têm pelos seus filhos, num mesmo coração de uma mãe por um filho único: certamente essa mãe amará muito esse filho. No entanto, é verdade que Maria ama ainda mais ternamente seus filhos do que aquela mãe amaria o seu. Ela não os ama somente com afeição, mas eficazmente. Seu amor por eles é ativo e efetivo, como o de Rebeca por Jacó, e ainda mais. Eis o que esta boa Mãe – da qual Rebeca era apenas a imagem – faz para obter a seus filhos a bênção do Pai celeste: 203. a) Ela espreita, como Rebeca, as ocasiões favoráveis para lhes fazer bem, os engrandecer e os enriquecer. Como Ela vê claramente em Deus todos os bens e todos os males, os bons e os maus acontecimentos, dispõe de longe tudo para isentar de todo tipo de males seus servos e os cumular de toda sorte de bens. De modo que, se há um bom proveito a se obter em Deus, pela fidelidade de uma criatura em algum elevado propósito, é certo que Maria alcançará essa dádiva para um de seus bons filhos e servos, e lhe dará a graça de tudo levar a cabo com fidelidade: Ela mesma Se ocupa dos nossos negócios, diz um santo. 204. b) Ela lhes dá bons conselhos, como Rebeca a Jacó: “Meu filho, segue meus conselhos” (Gen 27, 8). E, entre outros conselhos, inspira-lhes de Lhe trazerem dois cabritos, isto é, seu corpo e sua alma, para consagrá-los a Ela, a fim de que Ela prepare com eles um guisado agradável a Deus; e também a fazerem tudo o que Jesus Cristo, seu Filho, ensinou com suas palavras e exemplos. Se não lhes dá esses conselhos diretamente, Ela o faz pelo ministério dos anjos, cuja maior honra e prazer é obedecer a alguma de suas ordens para vir à terra em socorro de algum dos seus servos. 205. c) Quando lhe trazemos e consagramos nosso corpo e nossa alma e tudo o que deles depende, sem nada excetuar, o que faz esta boa Mãe? O que fez outrora Rebeca com os dois cabritos que lhe trouxe Jacó: • Ela os mata e faz morrer para a vida do velho Adão; • Ela os esfola e despoja de sua pele natural, de suas inclinações naturais, de sua vontade e amor próprios, e de todo apego à criatura; • Ela os purifica de todas as manchas e sujeiras de pecados; • Ela os prepara ao gosto de Deus e para sua maior glória. Como só Ela conhece perfeitamente esse gosto divino e a maior glória do Altíssimo, também só Ela pode aprontar e preparar, sem errar, nosso corpo e nossa alma segundo esse gosto infinitamente nobre e essa glória infinitamente oculta. 206. d) Esta boa Mãe, tendo recebido o oferecimento perfeito que Lhe fizemos de nós mesmos e de nossos próprios méritos e satisfações, através da devoção que indiquei, e tendo-nos despojado de nossas velhas roupas, prepara-nos e nos torna dignos de comparecer diante de nosso Pai celeste. • Ela nos reveste das roupas limpas, novas, preciosas e perfumadas de Esaú, o primogênito, isto é, de Jesus Cristo, seu Filho. Ela as guarda em sua casa, quer dizer, Ela as tem em seu poder, sendo a tesoureira e a dispensadora única e eterna dos méritos e das virtudes de seu Filho, Jesus Cristo, e pode dá-los e comunicá-los a quem quiser, quando quiser, como quiser e tanto quanto quiser, como vimos mais acima. • Ela envolve o pescoço e as mãos de seus servos com as peles de cabritos mortos e esfolados, quer dizer, adorna-os com os méritos e o valor de suas próprias ações. Ela mata e mortifica, na verdade, tudo o que há de impuro e imperfeito em suas pessoas, mas não perde nem dissipa todo o bem que a graça neles operou. Guarda-o e o aumenta, para fazer dele o ornamento e a força de seu pescoço e de suas mãos, isto é, para fortificá-los ao levarem o jugo do Senhor, que se carrega sobre o pescoço, e para realizarem grandes coisas para a glória de Deus e a salvação de seus pobres irmãos. • Ela esparge um novo perfume e uma nova graça nessas roupas e ornamentos ao lhes comunicar suas próprias roupas: seus méritos e suas virtudes, que Ela lhes legou ao morrer, por testamento, como diz uma santa religiosa do século passado, morta em odor de santidade, e que o soube por revelação. De maneira que todos os seus criados, seus fiéis servos e escravos são duplamente vestidos, com as roupas de seu Filho e as suas: “Toda a sua família tem vestes forradas” (Pr 31, 21). Por isso não têm a recear o frio de Jesus Cristo, branco como a neve, que os réprobos, inteiramente nus e despojados dos méritos de Jesus Cristo e da Virgem Maria, não poderão suportar. 207. e) Ela lhes faz obter, enfim, a bênção do Pai celeste, embora naturalmente não a devessem receber, uma vez que são apenas os caçulas e os filhos adotivos. Com essas roupas inteiramente novas, muito preciosas e perfumadas, com seu corpo e sua alma bem preparados e dispostos, eles se aproximam confiantes do leito de repouso de seu Pai celeste. Ele ouve e distingue sua voz, que é aquela do pecador; toca suas mãos cobertas de peles; sente o bom odor de suas roupas; come com júbilo o que Maria, Mãe deles, Lhe preparou. E, reconhecendo neles os méritos e o bom odor de seu Filho e de sua Santa Mãe: • Dá-lhes sua dupla bênção: a do orvalho do céu (Cf. Gen 27, 28), quer dizer, da graça divina que é semente da glória: “Deus nos abençoou com toda bênção espiritual em Cristo” (Ef 1, 3). E a bênção da fecundidade da terra (Cf. Gen 27, 28), quer dizer, esse bom Pai lhes dá seu pão quotidiano e uma suficiente abundância dos bens deste mundo; • Ele os constitui senhores de seus outros irmãos, os réprobos. Não que essa primazia apareça sempre neste mundo, que passa num instante e onde muitas vezes os condenados dominam: “Até quando, Senhor, triunfarão os ímpios? Até quando se desmandarão em discursos arrogantes, e jactanciosos estarão esses obreiros do mal?” (Sl 93, 3-4). No entanto, essa primazia é verdadeira e aparecerá manifestamente no outro mundo, por toda a eternidade, onde os justos, como diz o Espírito Santo, dominarão e comandarão as nações (Cf. Sb 3, 8). • Sua Majestade, não contente de abençoá-los em suas pessoas e em seus bens, abençoa ainda todos os que os abençoarem, e amaldiçoa todos os que os amaldiçoarem e perseguirem (Cf. Gn 27, 29). 208. O segundo dever de caridade que Nossa Senhora exerce para com estes fiéis servos é o de provê-los de tudo, para o corpo e para a alma. Ela lhes dá roupas forradas, como acabamos de ver; alimenta-os com as iguarias excelentes da mesa de Deus; dá-lhes de comer o pão da vida, que Ela formou: Meus queridos filhos, Ela lhes diz pela boca da Sabedoria, enchei-vos de minhas gerações, quer dizer, de Jesus, o fruto de vida, que Eu pus no mundo para vós (Cf. Eclo 24, 26). Vinde, lhes repete Ela noutro lugar, comei do meu pão, que é Jesus, e bebei do vinho de seu amor, que para vós misturei com o leite de minhas entranhas (Cf. Pr 9, 5; Ct 5, 1). Sendo a tesoureira e a dispensadora dos dons e das graças do Altíssimo, Ela destina uma boa parte, a melhor, para nutrir e prover seus filhos e servos. Eles são saciados com o pão vivo e inebriados com o vinho que engendra virgens. Eles são amamentados ao peito (Cf. Is 66, 12). Eles têm tanta facilidade para carregar o jugo de Jesus Cristo que nem sentem seu peso, por causa do azeite da devoção com o qual Ela o faz apodrecer (Cf. Is 10, 27). 209. O terceiro bem que a Santíssima Virgem faz aos seus fiéis servos é o de conduzi-los e orientá-los segundo a vontade de seu Filho. Rebeca conduzia seu pequeno Jacó e lhe dava de tempos em tempos bons conselhos, seja para atrair sobre ele a bênção de seu pai, seja para evitar o ódio e a perseguição de seu irmão Esaú. Maria, que é a Estrela do mar, conduz todos os seus servos a bom porto. Mostra-lhes o caminho da vida eterna; evita-lhes os passos perigosos; os conduz pela mão nas veredas da justiça; auxilia-os quando estão prestes a cair; levanta-os quando estão caídos; repreende-os como mãe caridosa, quando erram; e algumas vezes até os castiga amorosamente. Um filho obediente a Maria, sua mãe nutrícia e sua diretora esclarecida, pode se extraviar nos caminhos da eternidade? Seguindo-A, diz São Bernardo, não vos extraviareis. Não temais que um verdadeiro filho de Maria seja enganado pelo maligno e caia em qualquer heresia formal. Onde é Maria que conduz, não há lugar para o espírito maligno com suas ilusões, nem para os heréticos com suas artimanhas: “Se Ela te sustém, não cais” (S. Bernardo). 210. O quarto benefício, que a Virgem Maria presta a seus filhos e fiéis servos, é que Ela os defende e os protege contra seus inimigos. Rebeca, por seus desvelos e diligências, livrou Jacó de todos os perigos que este correu, particularmente da morte que seu irmão Esaú lhe teria provavelmente dado, como fizera Caim a seu irmão Abel, pelo ódio e pela inveja que tinha dele. Maria, a boa Mãe dos predestinados, os esconde sob as asas de sua proteção, como uma galinha aos seus pintinhos. Fala-lhes, abaixa-se até eles, condescende com as suas fraquezas. Cerca-os e os acompanha “como um exército em ordem de batalha” (Ct 6, 4). Um homem rodeado de um exército bem enfileirado de cem mil homens pode temer seus inimigos? Um fiel servo de Maria, cercado de sua proteção e de seu poder imperial, tem ainda menos a temer. Esta boa Mãe e poderosa Princesa dos Céus despacharia batalhões de milhões de anjos em socorro de um dos seus servos, antes que se pudesse jamais dizer que um fiel servidor de Maria, que n’Ela confiou, sucumbiu à malícia, ao número e à força de seus inimigos. 211. Enfim, o quinto e maior benefício que a amável Maria presta a seus fiéis devotos, é que Ela intercede por eles junto de seu Filho, apaziguando-O com suas preces. Ela os une a Ele com vínculo muito íntimo e nesta união os conserva. Rebeca fez aproximar Jacó do leito de seu pai. O bom homem o tocou, o abraçou e até o beijou com alegria. Ficou contente e saciado com as carnes bem preparadas que Jacó lhe trouxe. E tendo aspirado com muito contentamento os perfumes preciosos de suas vestes, exclamou: “Eis o cheiro de meu filho, que é como o cheiro de um campo fecundo, que o Senhor abençoou” (Gn 27, 27). Esse campo fecundo, cujo perfume encanta o coração de um pai, não é outro senão o odor das virtudes e dos méritos de Maria, que é um campo cheio de graça, onde Deus Pai semeou, qual grão de trigo dos eleitos, seu Filho único. Oh! como um filho perfumado do bom odor de Maria é bem acolhido por Jesus Cristo, Pai do século futuro! Oh! como se une imediata e perfeitamente a Ele! Já o demonstramos longamente mais acima [n. 152- 168]. 212. Ademais, depois que Ela cumulou seus filhos e fiéis servos de seus favores, depois de lhes obter a bênção do Pai celeste e a união com Jesus Cristo, Ela os conserva em Jesus Cristo, e Jesus Cristo neles. Ela os guarda e vela sempre sobre eles, para que não percam a graça de Deus nem caiam nas ciladas de seus inimigos. Ela mantém os santos na sua plenitude, e nela os faz perseverar até o fim, como já vimos. Eis a explicação dessa grande e antiga figura da predestinação e da condenação, tão desconhecida e tão cheia de mistérios. 213. Meu querido irmão, convencei-vos de que, se fordes fiel às práticas interiores e exteriores desta devoção que vos indicarei adiante: Conhecereis, pela luz que o Espírito Santo vos dará por meio de Maria, sua querida Esposa, vosso fundo mau, vossa corrupção e incapacidade para todo bem (do qual Deus é o princípio como autor da natureza e da graça). Em consequência desse conhecimento, vós vos desprezareis e não pensareis em vós senão com horror. Vós vos considerareis como uma lesma que estraga tudo com sua baba, ou como um sapo que envenena tudo com seu veneno, ou como uma cobra maliciosa que não procura senão enganar. Enfim, a humilde Maria vos comunicará sua profunda humildade, fará com que vos desprezeis a vós mesmo, mas não aos outros, e gosteis de ser desprezado. 214. A Santíssima Virgem vos fará participar de sua fé, que foi maior na terra que a fé de todos os patriarcas, os profetas, os apóstolos e todos os santos. Agora que Ela reina nos céus, não tem mais essa fé, porque vê claramente todas as coisas em Deus, pela luz da glória; mas, no entanto, com o beneplácito do Altíssimo, Ela não a perdeu ao entrar na glória; guardou-a, a fim de conservá-la na Igreja militante para seus mais fiéis servos e servas. Por isso, quanto mais ganhardes a benquerença desta augusta Princesa e Virgem fiel, mais tereis pura fé em toda a vossa conduta: uma fé pura, que fará com que não vos preocupeis muito com o sensível e o extraordinário; uma fé viva e animada pela caridade, que vos levará a fazer vossas ações movido somente por puro amor; uma fé firme e inabalável como um rochedo, que vos fará permanecer firme e constante no meio dos trovões e das tormentas; uma fé ativa e penetrante, que, como uma misteriosa chave mestra, vos dará entrada nos mistérios de Jesus Cristo, nos novíssimos do homem e no coração do próprio Deus; uma fé corajosa, que vos fará empreender e levar a cabo, sem hesitações, grandes coisas por Deus e pela salvação das almas; enfim, uma fé que será vossa tocha inflamada, vossa vida divina, vosso tesouro escondido da divina Sabedoria, e vossa arma toda onipotente da qual vos servireis para esclarecer os que estão nas trevas e na sombra da morte, para abraçar os que são tíbios e que precisam do ouro ardente da caridade, para dar vida aos que estão mortos pelo pecado, para tocar e dobrar, por vossas palavras doces e poderosas, os corações de mármore e os cedros do Líbano, e, finalmente, para resistir ao demônio e a todos os inimigos da salvação. 215. Esta Mãe do amor formoso tirará de vosso coração todo escrúpulo e todo temor servil desregrado: Ela o abrirá e o alargará para correr às ordens de seu Filho, com a santa liberdade dos filhos de Deus, e para nele introduzir o puro amor de que Ela possui o tesouro. De maneira que não vos conduzireis mais, como até agora tendes feito, por temor ao Deus da caridade, mas pelo puro amor. Vós O olhareis como vosso bom Pai, a quem tentareis agradar incessantemente, com quem conversareis confiadamente, como um filho fala a seu bom pai. Se, por infelicidade, vierdes a ofendê-Lo, humilhar-vos-eis logo diante d’Ele, pedir-Lhe-eis perdão por isso humildemente, estender-Lhe-eis a mão com simplicidade e vos reerguereis amorosamente, sem perturbação nem inquietação, e continuareis a caminhar para Ele sem desânimo. 216. A Virgem Maria vos preencherá de uma grande confiança em Deus e n’Ela mesma: 1) porque não vos aproximareis mais de Jesus Cristo por vós mesmo, mas sempre por esta boa Mãe; 2) porque, tendo-Lhe dado todos os vossos méritos, graças e satisfações, para dispor deles à sua vontade, Ela vos comunicará suas virtudes e vos revestirá de seus méritos, de sorte que podereis dizer a Deus com confiança: “Eis Maria vossa serva, faça-se em mim segundo a vossa palavra” (Lc 1,38); 3) porque, tendo-vos dado a Ela por inteiro, corpo e alma, Ela que é liberal com os liberais e mais liberal que os próprios liberais, Se dará a vós em troca, de uma maneira maravilhosa, mas verdadeira; de sorte que podereis Lhe dizer com ousadia: “Eu sou vosso, Virgem Maria, salvai-me” (Cf. Sl 118, 94); ou como já disse, com o Discípulo bem-amado: Eu Vos tomei, Santa Mãe, por todos os meus bens. Podereis ainda dizer, com São Boaventura: Minha querida Senhora e Salvadora, agirei com confiança e não temerei absolutamente, porque sois minha força e meu louvor no Senhor (Cf. Is 12,2). Sou todo vosso, e tudo o que tenho Vos pertence; ó gloriosa Virgem, bendita acima de todas as coisas criadas, que eu Vos ponha como um selo sobre meu coração, porque vosso amor é forte como a morte! Vós poderíeis dizer a Deus com os sentimentos do Profeta: “Senhor, nem meu coração, nem meus olhos têm qualquer motivo para se exaltar e se orgulhar, nem para buscar as coisas grandes e maravilhosas; e, com isso, ainda não sou humilde. Mas reergui e encorajei minha alma pela confiança; sou como uma criança desgarrada dos prazeres da terra e apoiada sobre o seio de minha mãe; e é sobre esse seio que me cumulo de bens” (Cf. Sl 130, 1-2). O que aumentará ainda vossa confiança n’Ela é que, tendo Lhe dado em depósito tudo o que tendes de bom para dá-lo ou guardá-lo, tereis menos confiança em vós e muito mais n’Ela, que é vosso tesouro. Oh! que confiança e que consolo para uma alma que pode dizer que o tesouro de Deus, onde Ele pôs tudo o que tem de mais precioso, é o seu também! Ela é, diz um santo, o tesouro do Senhor. 217. A alma de Maria se comunicará a vós para glorificar o Senhor; seu espírito entrará no lugar do vosso para se regozijar em Deus, seu salvador, contanto que vos torneis fiéis às práticas desta devoção. Que a alma de Maria esteja em cada um para n’Ela glorificar o Senhor; que o espírito de Maria esteja em cada um, para nele se regozijar em Deus. Ah! quando virá esse tempo feliz – diz um santo homem de nossos dias todo perdido em Maria – ah! quando virá esse tempo feliz em que a divina Maria será estabelecida senhora e soberana nos corações, para os submeter plenamente ao império de seu grande e único Jesus?! Quando é que as almas respirarão Maria como os corpos respiram o ar? Coisas maravilhosas acontecerão então neste pobre mundo, onde o Espírito Santo, encontrando sua querida Esposa reproduzida nas almas, descerá sobre elas abundantemente e as preencherá de seus dons, particularmente do dom de sua sabedoria, para nelas operar maravilhas da graça. Meu querido irmão, quando virá esse tempo feliz e esse século de Maria, em que várias almas escolhidas e obtidas do Altíssimo por Maria, perdendo-se a si mesmas no abismo do interior d’Ela, tornar-se-ão cópias vivas de Maria, para amar e glorificar Jesus Cristo? Esse tempo só virá quando se conhecer e se praticar a devoção que ensino: “Para que venha o vosso Reino, ó Jesus, venha o Reino de Maria!”. 218. Se Maria, que é a árvore da vida, é bem cultivada em vossa alma pela fidelidade às práticas desta devoção, ela dará fruto a seu tempo. E esse fruto não é outro senão Jesus Cristo. Vejo tantos devotos e devotas que buscam Jesus Cristo, uns por uma via e uma prática, outros por outra. E, frequentemente, depois de terem trabalhado muito durante a noite, podem dizer: “Embora tenhamos trabalhado durante toda a noite, não pegamos nada” (Lc 5, 5). E poder-se-ia dizer-lhes: Muito trabalhastes e pouco ganhastes. Jesus Cristo é ainda bem fraco em vós. Mas, pela via imaculada de Maria e por esta prática divina que ensino, trabalha-se durante o dia, trabalha-se num lugar santo, trabalha-se pouco. Não há noite em Maria, porque nunca houve n’Ela nem mesmo a menor sombra de pecado. Maria é um lugar santo, e o Santo dos santos, onde os santos são formados e moldados. 219. Reparai, por favor, que digo que os santos são moldados em Maria. Há uma grande diferença entre fazer uma figura em relevo a golpes de martelo e de cinzel, e fazer uma figura lançando-a numa fôrma: os escultores e estatuários trabalham muito para fazer as figuras do primeiro jeito, e precisam de muito tempo. Mas, ao fazê-las do segundo modo, trabalham pouco e as fazem em muitíssimo pouco tempo. Santo Agostinho chama a Virgem Maria “o molde de Deus”, o molde próprio a formar e moldar deuses. Aquele que é lançado nesse molde divino é logo formado em Jesus Cristo, e Jesus Cristo nele. Facilmente e em pouco tempo será transformado em Deus, pois é lançado no próprio molde que formou um Deus. 220. Parece-me que posso muito bem comparar diretores espirituais e pessoas devotas, que queiram formar Jesus Cristo em si ou nos outros através de outras práticas diferentes desta, a escultores que, pondo sua confiança em sua experiência, seus engenhos e sua arte, dão uma infinidade de golpes de martelo e de cinzel numa pedra dura, ou numa peça de madeira mal polida, para dela fazer a imagem de Jesus Cristo. E algumas vezes não conseguem representar Jesus Cristo ao natural, quer por falta de conhecimento e experiência da pessoa de Jesus Cristo, quer por causa de algum golpe mal dado, que estragou a obra. Mas, quanto aos que abraçam este segredo da graça que lhes apresento, comparo-os com razão a fundidores e moldadores que, tendo encontrado o belo molde de Maria, onde Jesus Cristo foi natural e divinamente formado, sem confiar em seu próprio talento, mas unicamente na excelência do molde, se lançam e se perdem em Maria para se tornarem o retrato vivo de Jesus Cristo. 221. Ó bela e verdadeira comparação! Mas quem a compreenderá? Desejo que sejais vós, meu querido irmão. Lembrai-vos, porém, que só se lança no molde o que está fundido e líquido. Isto quer dizer que é preciso destruir e fundir em vós o velho Adão, para se tornar o novo em Maria. 222. Por esta prática, bem fielmente observada, dareis a Jesus Cristo mais glória em um mês do que por qualquer outra, embora mais difícil, em vários anos. Eis as razões do que afirmo: 1) Porque, fazendo vossas ações pela Virgem Maria, como esta prática ensina, abandonais vossas próprias intenções e operações, embora boas e conhecidas, para vos perder, por assim dizer, nas da Santíssima Virgem, embora elas vos sejam desconhecidas. Com isso, passareis a participar da sublimidade de suas intenções, que foram tão puras, que Ela deu mais glória a Deus pela menor de suas ações (por exemplo, fiando sua roca ou dando um ponto de agulha), do que São Lourenço pelo cruel martírio que sofreu na grelha, e mesmo do que todos os santos pelas suas mais heroicas ações. Assim, durante sua permanência neste mundo, Ela adquiriu uma plenitude tão inefável de graças e de méritos, que seria mais fácil contar as estrelas do firmamento, as gotas d’água do mar e as areias do litoral, do que seus méritos e suas graças. Ela deu mais glória a Deus do que todos os anjos e os santos lhe deram ou jamais darão. Oh! Que prodígio sois, Maria! Só Vós podeis realizar os prodígios de graça nas almas que querem docilmente se perder em Vós! 223. 2) Porque uma alma, por esta prática, considera como nada tudo o que pensa ou faz por si mesma, e se apoia e se compraz somente nas disposições de Maria, para se aproximar de Jesus Cristo e mesmo para Lhe falar. Assim, pratica muito mais a humildade do que as almas que agem por si mesmas, apoiando-se e se deleitando, imperceptivelmente, nas suas próprias disposições. Consequentemente, essa alma glorifica mais a Deus, que só é perfeitamente glorificado pelos humildes e pequenos de coração. 224. 3) Porque a Santíssima Virgem, dignando-Se, por grande caridade, receber em suas mãos virginais o presente de nossas ações, lhes confere uma beleza e um brilho admiráveis. Ela própria as oferece a Jesus Cristo, sem dificuldade. E Nosso Senhor é assim mais glorificado do que se as oferecêssemos por nossas mãos criminosas. 225. 4) Enfim, porque nunca pensais em Maria, sem que Maria, em vosso lugar, pense em Deus. Nunca louvais nem honrais Maria, sem que Ela convosco louve e honre a Deus. Maria Se refere toda a Deus, e bem Lhe poderia chamar de a relação de Deus, que só existe em referência a Ele, ou o eco de Deus, porque Ela só diz e repete a Deus. Se dizeis Maria, Ela diz Deus. Santa Isabel louvou Maria e A chamou bem-aventurada, porque tinha acreditado. Maria, o eco fiel de Deus, entoa: “Minha alma glorifica o Senhor” (Lc 1, 46). O que Maria fez nessa ocasião, Ela o faz todos os dias. Quando A louvamos, amamos e honramos, ou Lhe damos alguma coisa, é a Deus que louvamos, amamos e honramos, é a Deus que damos por Maria e em Maria. 226. Embora o essencial desta devoção consista no interior, não deixa de ter várias práticas exteriores que não devem ser negligenciadas: “Eis o que era preciso fazer em primeiro lugar, sem, contudo, deixar o restante” (Mt 23, 23). Seja porque as práticas exteriores bem feitas ajudam as interiores, seja porque recordam ao homem, que se conduz sempre pelos sentidos, o que ele fez ou deve fazer; seja, ainda, porque podem edificar o próximo que as vê, o que não ocorre com as práticas puramente interiores. Portanto, que nenhum mundano critique nem aqui se intrometa, para dizer que a verdadeira devoção reside no coração, que é preciso evitar as exterioridades, pois pode haver nisso vaidade, que é preciso ocultar a devoção, etc. Eu lhe respondo com meu Mestre: “Que os homens vejam vossas boas obras, a fim de que glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 16). Não que se deva fazer suas ações e devoções exteriores, como diz São Gregório, para agradar aos homens e disso tirar qualquer louvor, pois tal seria vaidade. Mas algumas vezes são feitas diante dos homens no intuito de agradar a Deus e de fazê-Lo glorificar por esse meio, sem se preocupar com desprezos ou louvores dos homens. Mencionarei apenas resumidamente algumas práticas exteriores, que chamo de exteriores não porque são feitas sem o interior, mas porque têm algo de exterior que as distingue das que são puramente interiores. 227. Primeira prática. Aqueles e aquelas que quiserem abraçar esta devoção particular (que não está erigida em confraria, embora isto fosse de desejar), depois de terem empregado pelo menos doze dias para esvaziar-se do espírito do mundo, contrário ao de Jesus Cristo, como disse na primeira parte desta preparação para o Reino de Jesus Cristo, empregarão três semanas para se encher de Jesus Cristo por meio da Santíssima Virgem. Eis a ordem que poderão seguir: 228. Durante a primeira semana, empregarão todas as suas orações e atos de piedade para pedir o conhecimento de si mesmos e a contrição de seus pecados. Farão tudo em espírito de humildade. Para isso, poderão, se quiserem, meditar no que eu disse sobre nosso fundo mau e se considerar, nos dias dessa semana, como caracóis, lesmas, sapos, porcos, cobras e bodes. Ou ainda meditar nestas três palavras de São Bernardo: Pensa no que foste, um pouco de lama; no que és, um vaso de estrume; no que serás, alimento de vermes. Pedirão a Nosso Senhor e ao Espírito Santo que os iluminem, por estas palavras: “Senhor, que eu veja” (Lc 18, 41); ou Que eu me conheça; ou Vinde, Espírito Santo, e dirão todos os dias a ladainha do Espírito Santo e a oração que segue. Recorrerão à Santíssima Virgem e Lhe pedirão essa grande graça que deve ser o fundamento das outras. Para isso dirão, todos os dias, o Ave maris Stella e sua ladainha. 229. Durante a segunda semana, aplicar-se-ão em todas as suas orações e obras de cada dia, para conhecer a Santíssima Virgem. Pedirão esse conhecimento ao Espírito Santo. Poderão ler e meditar o que sobre isso dissemos. Recitarão, como na primeira semana, a ladainha do Espírito Santo e o Ave maris Stella, e, além disso, um rosário todos os dias, ou pelo menos um terço, nessa intenção. 230. Empregarão a terceira semana em conhecer Jesus Cristo. Poderão ler e meditar o que dissemos a esse respeito, e dizer a oração de Santo Agostinho que vem no começo da segunda parte (n. 67). Poderão, com o mesmo Santo, dizer e repetir cem e cem vezes por dia: “Senhor, que eu Vos conheça!” ou então, “Senhor, que eu veja quem sois!”. Recitarão, como nas semanas precedentes, a ladainha do Espírito Santo e o Ave maris Stella, e acrescentarão todos os dias a ladainha do Santíssimo Nome de Jesus. 231. Ao cabo dessas três semanas, confessar-se-ão e comungarão na intenção de se darem a Jesus Cristo, na qualidade de escravos de amor, pelas mãos de Maria. E após a Comunhão, que procurarão fazer segundo o método indicado adiante, recitarão a fórmula de sua consagração, que encontrarão também mais adiante. Deverão escrevê-la ou mandá-la escrever, se não estiver impressa, e assiná-la no mesmo dia em que a fizerem. 232. Será bom que, nesse dia, paguem algum tributo a Jesus Cristo e à sua Santa Mãe, quer como penitência pela infidelidade passada aos votos de seu Batismo, quer para manifestar a sua submissão ao domínio de Jesus e de Maria. Esse tributo será segundo a devoção e a capacidade de cada qual: como um jejum, uma mortificação, uma esmola, uma vela. Mesmo que não dessem senão um alfinete em homenagem, mas de bom coração, isso bastaria a Jesus, que só olha a boa vontade. 233. Todos os anos, pelo menos, renovarão a mesma consagração no mesmo dia em que a fizeram, observando as mesmas práticas durante três semanas. Poderão até, todos os meses e todos os dias, renovar tudo o que fizeram, através destas poucas palavras: Sou todo vosso, e tudo o que tenho vos pertence, ó meu amável Jesus, por Maria, vossa Santa Mãe. 234. Segunda prática. Recitarão todos os dias de sua vida, mas sem a isso se obrigarem, a pequena coroa da Santíssima Virgem, composta de três Pai-Nossos e doze Ave-Marias, em honra dos doze privilégios e grandezas da Santíssima Virgem. Essa prática é muito antiga e tem seu fundamento na Sagrada Escritura. São João viu uma mulher coroada de doze estrelas, revestida de sol e tendo a lua sob seus pés. Segundo os intérpretes, essa mulher é a Santíssima Virgem. 235. Há várias maneiras de rezar bem essa coroinha, mas seria demasiado longo mencioná-las. O Espírito Santo as ensinará aos que forem mais fiéis a esta devoção. No entanto, para rezá-la do modo mais simples, dir-se-á ao começar: Dignai-Vos conceder-me que Vos louve, ó Virgem Sagrada, dai-me força contra os vossos inimigos. Em seguida reza-se o Credo, depois um Pai-Nosso, quatro Ave-Marias e um Glória ao Pai. E novamente um Pai-Nosso, quatro Ave-Marias e um Glória ao Pai; e assim por diante. No final, se dirá: “Sob a vossa proteção nos acolhemos, Santa Mãe de Deus; não desprezeis as nossa súplicas em nossas necessidades; mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita”. 236. Terceira prática. É bastante louvável, muito glorioso e muito útil àqueles e àquelas que assim se fizeram escravos de Jesus em Maria, que usem como sinal de sua escravidão de amor, pequenas correntes de ferro bentas com uma bênção própria (indicada mais adiante). Esses sinais exteriores, na verdade, não são essenciais, e uma pessoa pode muito bem dispensá-los, embora tenha abraçado esta devoção. No entanto, não posso deixar de louvar muito aqueles e aquelas que, depois de terem sacudido as correntes vergonhosas da escravidão do demônio (à qual o pecado original e talvez os pecados atuais os reduziram), se puseram voluntariamente sob a gloriosa escravidão de Jesus Cristo. Eles se gloriam, com São Paulo, de estarem em correntes por Jesus Cristo, mil vezes mais gloriosas e preciosas, mesmo sendo de ferro e sem brilho, que todos os colares de ouro dos imperadores. 237. Embora outrora nada houvesse de mais infame que a cruz, no presente esse madeiro é o que há de mais glorioso no Cristianismo. O mesmo se diga dos ferros da escravidão. Nada havia de mais ignominioso entre os antigos, e ainda presentemente entre os pagãos. Porém, entre os cristãos, nada há de mais ilustre do que as correntes de Jesus Cristo, porque elas nos livram e preservam dos laços infames do pecado e do demônio, nos colocam em liberdade e nos ligam a Jesus Cristo e a Maria, não por constrangimento e força, como se faz a forçados, mas por caridade e amor, como a filhos: “Eu os atrairei a Mim”, diz Deus pela boca de um profeta, “pelo vínculo da caridade” (Os 11, 4). Estas, por conseguinte, são fortes como a morte, e, de certo modo, mais fortes ainda nas pessoas que forem fiéis em usar esses gloriosos sinais até o fim da vida. Pois, apesar de a morte aniquilar seus corpos, reduzindo-os à podridão, não destruirá os elos de sua escravidão, já que sendo de ferro, não se corrompem facilmente. E talvez no dia da ressurreição dos corpos, no grande Juízo Final, essas correntes, que ainda lhes ligarão os ossos, façam parte de sua glória e sejam transformadas em gloriosas correntes de luz. Felizes, pois, mil vezes felizes os escravos ilustres de Jesus em Maria que usarem suas correntes até o túmulo! 238. Eis as razões por que se usam essas correntes: Primeiro, é para que o cristão se lembre dos votos e promessas do seu Batismo, a renovação perfeita que deles fez por esta devoção, e a estreita obrigação que tem de lhes permanecer fiel. O homem se conduz muitas vezes mais pelos sentidos do que pela pura fé, e se esquece facilmente de suas obrigações para com Deus, se não tiver alguma coisa exterior que o faça se lembrar delas. Ora, essas correntes servem maravilhosamente para recordar ao cristão as correntes do pecado e da escravidão do demônio, das quais o santo Batismo o livrou. E para lembrá-lo da dependência de Jesus Cristo em que se colocou pelo santo Batismo, bem como da ratificação que dela fez ao renovar as suas promessas. Uma das razões por que tão poucos cristãos pensam nas promessas do seu santo Batismo e vivem com tanta libertinagem como se nada tivessem prometido a Deus, como os pagãos, é que não trazem nenhum sinal exterior que os faça lembrar disso. 239. Segundo, é para mostrar que não nos envergonhamos absolutamente da escravidão e servidão a Jesus Cristo, e que renunciamos à escravidão funesta do mundo, do pecado e do demônio. Terceiro, é para se garantir e se preservar das correntes da iniquidade. Pois temos de trazer as correntes da iniquidade ou as correntes da caridade e da salvação. 240. Ah! meu querido irmão, quebremos as correntes do pecado e dos pecadores, do mundo e dos mundanos, do demônio e de seus asseclas, e lancemos para longe de nós seu jugo funesto: “Quebremos as suas correntes e sacudamos de nós os seus laços!” (Sl 2, 3). “Ponhamos nossos pés”, para me servir das palavras do Espírito Santo, “em seus grilhões gloriosos, e nosso pescoço em suas coleiras” (Eclo 6, 25). Curvemos nossos ombros e carreguemos a Sabedoria, que é Jesus Cristo, e não nos aborreçamos com suas correntes (Cf. Eclo 6, 26). Notareis que o Espírito Santo, antes de dizer essas palavras, prepara a alma para que esta não rejeite seu importante conselho. Eis suas palavras: “Escuta meu filho, e aceita um conselho de sabedoria, e não rejeites meu conselho” (Eclo 6, 24). 241. Consenti, meu caríssimo amigo, que eu me una ao Espírito Santo, para vos dar o mesmo conselho: “As suas correntes são correntes de salvação” (Eclo 6, 31). Como Jesus Cristo na cruz deve atrair tudo a Si, de bom ou mau grado, Ele atrairá os réprobos pelas correntes de seus pecados, para os prender como forçados e demônios à sua ira eterna e à sua justiça vingadora. Mas, nesses últimos tempos, Ele atrairá especialmente os predestinados pelas correntes da caridade: “Eu atrairei tudo a Mim” (Jo 12, 32). “Eu os atrairei pelo vínculo da caridade” (Os 11, 4). 242. Esses escravos de amor de Jesus Cristo ou “prisioneiros de Jesus Cristo” (Ef 3, 1), podem usar suas correntes ao pescoço, nos braços, na cintura ou nos pés. O Padre Vicente Caraffa, sétimo geral da Companhia de Jesus, que faleceu em odor de santidade em 1643, trazia, como sinal de sua escravidão, uma argola de ferro nos pés e dizia que lamentava não poder arrastar publicamente sua corrente. A Madre Inês de Jesus, de quem falamos, trazia uma corrente de ferro na cintura. Outras a trouxeram ao pescoço, por penitência pelos colares de pérolas que tinham usado no mundo. Alguns a trouxeram no braço, para se lembrarem, nos seus trabalhos manuais, de que eram escravos de Jesus Cristo. 243. Quarta prática. Terão uma especial devoção ao grande mistério da Encarnação do Verbo, celebrado no dia 25 de março, que é o mistério próprio desta devoção, uma vez que ela foi inspirada pelo Espírito Santo: a) Para honrar e imitar a dependência inefável que Deus Filho quis ter de Maria, para a glória de Deus seu Pai e para nossa salvação. Essa dependência se manifesta particularmente neste mistério em que Jesus Cristo Se torna cativo e escravo no seio da divina Maria, e onde depende d’Ela para todas as coisas; b) Para agradecer a Deus pelas graças incomparáveis que Ele deu a Maria e, particularmente, por tê-La escolhido por sua digníssima Mãe, escolha que se realizou neste mistério. Eis os dois fins principais da escravidão de Jesus em Maria. 244. Reparai, por favor, que digo habitualmente: escravo de Jesus em Maria, escravidão de Jesus em Maria. Pode-se, na verdade, como vários o fizeram até aqui, dizer-se escravo de Maria, escravidão da Santíssima Virgem. Parece-me, contudo, preferível dizer escravo de Jesus em Maria, como aconselhou o Pe. Tronson – superior geral do Seminário de São Sulpício, renomado pela sua rara prudência e sua piedade consumada – a um eclesiástico que o consultou sobre este assunto. Eis as razões: 245. a) Como vivemos num século orgulhoso, em que há um grande número de sábios soberbos, de espíritos fortes e críticos, que notam defeitos nas práticas de piedade mais bem estabelecidas e mais sólidas, para não lhes dar uma ocasião de crítica sem necessidade, vale mais dizer escravidão de Jesus em Maria, e dizer-se escravo de Jesus Cristo, do que escravo de Maria. Assim denomina-se esta devoção mais de acordo com o seu fim último, que é Jesus Cristo, do que com o caminho e meio para lá chegar, que é Maria. Embora se possa, na verdade, usar uma ou outra denominação, sem escrúpulos, como eu faço. Por exemplo, um homem que vai de Orleans a Tours, pelo caminho de Amboise, pode muito bem dizer que vai a Amboise e que vai a Tours; que é viajante para Amboise e para Tours. Com a diferença, no entanto, de que Amboise é apenas seu caminho direto para ir a Tours, e que Tours é o fim último e termo de sua viagem. 246. b) Como o principal mistério que se celebra e que se honra nesta devoção é o mistério da Encarnação, no qual se pode ver Jesus Cristo em Maria, encarnado no seu seio, é mais apropriado dizer escravidão de Jesus em Maria, de Jesus habitando e reinando em Maria, segundo esta linda prece de tantos grandes homens: Ó Jesus, que viveis em Maria, vinde e vivei em nós, no espírito de vossa santidade, na plenitude de vossa força, na perfeição de vossas vias, na verdade de vossas virtudes, na comunhão de vossos mistérios, dominai sobre toda a potestade inimiga, em vosso espírito para a glória do Pai. Amém. 247. c) Essa maneira de falar mostra mais claramente a união íntima que há entre Jesus e Maria. Estão unidos tão intimamente que um está todo no outro: Jesus está em Maria e Maria toda em Jesus; ou antes, Ela não existe, mas Jesus sozinho n’Ela; e seria mais fácil separar a luz do Sol, do que Maria de Jesus. Pelo que se pode chamar Nosso Senhor de Jesus de Maria, e a Santíssima Virgem, Maria de Jesus. 248. O tempo não permite deter-me aqui para explicar as excelências e as grandezas do mistério de Jesus vivendo e reinando em Maria, ou da Encarnação do Verbo. Contentar-me-ei em dizer, em poucas palavras, que este é o primeiro mistério de Jesus Cristo, o mais oculto, o mais elevado e o menos conhecido. Foi neste mistério que Jesus escolheu todos os eleitos, com a colaboração de Maria, escondido no seu seio, que por isso é chamado pelos santos de “a sala dos segredos de Deus”S. Ambrósio, De Instit. Virg., cap. VII, n.50). Foi neste mistério que Ele operou todos os mistérios que se seguiram depois em sua vida, pela aceitação que deles fez: “Eis que venho, ó Deus, para fazer a tua vontade” (Hb 10, 7). Por conseguinte, este mistério é um resumo de todos os outros, encerra a vontade e a graça de todos. Enfim, este mistério é o trono da misericórdia, da liberdade e da glória de Deus. O trono de sua misericórdia para nós, porque, como não podemos nos aproximar de Jesus senão por Maria, não podemos ver Jesus nem Lhe falar senão por intermédio de Maria. Jesus, que atende sempre à sua querida Mãe, concede neste mistério sempre sua graça e sua misericórdia aos pobres pecadores: “Vamos, pois, com confiança ao trono da graça” (Hb 4, 16). É o trono de sua liberalidade para Maria, porque, enquanto esse novo Adão permaneceu nesse verdadeiro paraíso terrestre, nele operou tantas maravilhas às ocultas que nem os anjos, nem os homens as podem compreender. Por isso os santos chamam Maria a magnificência de Deus, como se Deus só fosse magnífico em Maria: “Somente ali Nosso Senhor ostenta a sua magnificência” (Is 33, 21). É o trono de sua glória para seu Pai, porque é em Maria que Jesus Cristo aplacou perfeitamente seu Pai, irritado contra os homens, e reparou perfeitamente a glória que o pecado Lhe havia roubado. Pelo sacrifício que fez de sua vontade e de Si mesmo, Ele deu a Deus Pai mais glória do que nunca Lhe haviam dado todos os sacrifícios da Antiga Lei. Por fim, Ele Lhe deu [em Maria] uma glória infinita, que jamais havia recebido do homem. 249. Quinta prática. Terão uma grande devoção em recitar a Ave Maria, ou a Saudação Angélica, da qual poucos cristãos, embora esclarecidos, conhecem o valor, o mérito, a excelência e a necessidade. Foi preciso que a Virgem Maria aparecesse várias vezes a grandes santos muito esclarecidos para lhes mostrar o mérito desta oração, como a São Domingos, a São João de Capistrano, ao Beato Alano de la Roche. Eles compuseram livros inteiros sobre as maravilhas e a eficácia desta prece para converter os pecadores. Publicaram e pregaram abertamente que a salvação do mundo tendo começado pela Ave Maria, a salvação de cada um em particular estava ligada a esta prece. Foi esta prece que trouxe à terra seca e estéril o fruto da vida, e é esta mesma prece, bem rezada, que deve fazer germinar em nossas almas a palavra de Deus e dar o fruto de vida, Jesus Cristo. A Ave Maria, dizem, é um orvalho celeste que rega a terra, quer dizer, a alma para fazê-la dar seu fruto no tempo oportuno. E a alma que não for regada por esta prece ou orvalho celeste, não dará fruto, mas apenas sarças e espinhos, e está prestes a ser amaldiçoada. 250. Eis o que a Santíssima Virgem revelou ao Beato Alano de la Roche, como está assinalado em seu livro De dignitate Rosarii, depois citado por Cartagena: “Sabe, meu filho, e faze-o conhecer a todos, que um sinal provável e próximo de condenação eterna é ter aversão, tibieza e negligência em rezar a Saudação Angélica, que salvou todo o mundo” (Lib. de Dignit., cap II). Palavras tão consoladoras quanto terríveis, a que dificilmente se daria crédito se não tivéssemos esse santo por garantia, São Domingos antes dele, e depois vários grandes personagens, com a experiência de muitos séculos. Pois sempre se verificou que os que trazem o sinal da condenação, como todos os hereges, os ímpios, os orgulhosos e os mundanos, odeiam e desprezam a Ave Maria e o terço. Os hereges ainda aprendem e rezam o Pai-Nosso, mas não a Ave Maria, nem o terço. Têm horror a eles: preferiam trazer consigo uma serpente a um terço. Os orgulhosos também, embora católicos, como têm as mesmas inclinações que seu pai Lúcifer, desprezam ou votam indiferença à Ave Maria, considerando o terço como uma devoção para efeminados, própria para ignorantes e analfabetos. Pelo contrário, a experiência tem mostrado que aqueles e aquelas que apresentam grandes sinais de predestinação, amam, saboreiam e rezam com prazer a Ave Maria, e que quanto mais são de Deus tanto mais amam esta prece. É o que Nossa Senhora diz também ao Beato Alano na sequência das palavras que acabo de citar. 251. Não sei como isto se faz nem por que, mas não deixa de ser verdadeiro: não tenho melhor segredo para conhecer se uma pessoa é de Deus, do que ver se ela ama rezar a Ave Maria e o terço. E digo ama, porque pode acontecer que uma pessoa esteja na impossibilidade natural ou mesmo sobrenatural de a rezar, mas sempre a ama e a aconselha aos outros. 252. Almas predestinadas, escravas de Jesus em Maria, ficai sabendo que a Ave-Maria é a mais bela de todas as orações, depois do Pai-Nosso. É a saudação mais perfeita que podemos dirigir a Maria, porque é a que o Altíssimo Lhe transmitiu por um arcanjo, a fim de Lhe ganhar o coração. E teve sobre este tanto poder, pelos encantos secretos de que está cheia, que Maria consentiu na encarnação do Verbo, apesar da sua profunda humildade. Será também por meio desta saudação que Lhe ganharemos infalivelmente o Coração, se a rezarmos como convém. 253. A Ave Maria bem rezada, isto é, dita com atenção, devoção e modéstia, segundo os santos, é a adversária que põe o demônio em fuga e o martelo que o esmaga; é a santificação da alma, a alegria dos anjos, a melodia dos predestinados, o cântico do Novo Testamento, o gozo de Maria e a glória da Santíssima Trindade. A Ave Maria é um orvalho do Céu, que torna a alma fecunda; é um ósculo puro e amoroso que se dá em Maria; é uma rosa vermelha que se Lhe oferece, uma pérola preciosa que se Lhe dá, é uma taça de ambrosia e de néctar divino que se Lhe entrega. Todas essas comparações são dos santos. 254. Portanto, rogo-vos encarecidamente, pelo amor que vos tenho em Jesus e Maria, que não vos contenteis em recitar a coroinha da Santíssima Virgem, mas que rezeis o terço, e até, se tiverdes tempo, o rosário diariamente. E vós bendireis, na hora da morte, o dia e a hora em que me acreditastes. Depois de terdes semeado sob as bênçãos de Jesus e de Maria, recolhereis bênçãos eternas no Céu: “Aquele que semeia em abundância, colherá em abundância” (2Cor 9, 6). 255. Sexta prática. Para agradecer a Deus as graças que concedeu à Santíssima Virgem, dirão frequentemente o Magnificat, a exemplo da beata Maria de Oignies e de vários outros santos. É a única prece e a única composição da Virgem Maria, ou melhor, que Jesus realizou n’Ela, pois Ele falava pela sua boca. É o maior sacrifício de louvor que Deus recebeu na lei da graça. É, de um lado, o mais humilde e o mais agradecido, e de outro, o mais sublime e o mais elevado de todos os cânticos. Há nele mistérios tão grandes e tão escondidos que os anjos os ignoram. Gerson, que foi um médico tão piedoso e tão sábio, depois de ter empregado uma grande parte de sua vida em compor tratados tão cheios de erudição e de piedade sobre as mais difíceis matérias, no fim da sua vida, empreendeu com tremor, a explicação do Magnificat, a fim de com isso coroar todas as suas obras. Num volume in-folio que sobre ele escreveu, diz coisas admiráveis desse belo e divino cântico. Entre outras coisas, afirma que a própria Santíssima Virgem o recitava muitas vezes, e particularmente depois da Santa Comunhão, em ação de graças. O sábio Benzônio, explicando o mesmo Magnificat, relata vários milagres operados pela sua força, e diz que os demônios tremem e fogem quando ouvem estas palavras do cântico: “Manifestou o poder do seu braço e confundiu os orgulhosos nos pensamentos de seus corações” (Lc 1, 51). 256. Sétima prática. Os fiéis servidores de Maria devem desprezar, odiar e fugir muito do mundo corrompido, e servir-se das práticas de desprezo do mundo, que indicamos na primeira parte. 257. Além das práticas exteriores que acabamos de indicar, as quais não se devem omitir por negligência nem desprezo, tanto quanto o estado e a condição de cada um o permitam, há ainda práticas interiores muito santificantes para aqueles chamados pelo Espírito Santo a uma alta perfeição. Consistem, em poucas palavras, em fazer todas essas ações POR MARIA, COM MARIA, EM MARIA e PARA MARIA, a fim de fazê-las mais perfeitamente por Jesus Cristo, com Jesus Cristo, em Jesus e para Jesus. 258. É preciso fazer suas ações por Maria, ou seja, é preciso que obedeçamos à Santíssima Virgem em todas as coisas, e nos deixemos conduzir em tudo por seu espírito, que é o Espírito Santo de Deus: “Aqueles que são conduzidos segundo o espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8, 14). Aqueles que são conduzidos pelo espírito de Maria, são filhos de Maria, e, por conseguinte, filhos de Deus, como já mostrado. E entre tantos devotos da Santíssima Virgem, os devotos verdadeiros e fiéis são somente aqueles que se deixam conduzir pelo seu espírito. Eu disse que o espírito de Maria era o Espírito de Deus, porque Ela nunca Se conduziu pelo seu próprio espírito, mas sempre pelo de Deus, que d’Ela tomou posse, de tal modo que passou a ser o seu próprio espírito. É por isso que Santo Ambrósio diz: Que a alma de Maria esteja em cada um para glorificar o Senhor; que o espírito de Maria esteja em cada um para se regozijar em Deus. Como é feliz uma alma quando, a exemplo de um bom irmão jesuíta chamado Rodriguez, falecido em odor de santidade, ela é toda possuída e governada pelo espírito de Maria, que é um espírito doce e forte, zeloso e prudente, humilde e corajoso, puro e fecundo! 259. A fim de que a alma se deixe conduzir por este espírito de Maria, é preciso: 1) Renunciar ao seu próprio espírito, às suas próprias luzes e vontades antes de fazer qualquer coisa: por exemplo, antes de rezar, antes de celebrar ou ouvir a Santa Missa, antes de comungar, etc. Porque as trevas de nosso espírito próprio e a malícia de nossa própria vontade e operação, se as seguíssemos, embora nos parecessem boas, poriam obstáculos ao espírito de Maria. 2) É preciso se entregar ao espírito de Maria para ser movido e conduzido da maneira que Ela quiser. Temos de nos pôr e nos abandonar nas suas mãos virginais, como um instrumento nas mãos do operário, como um alaúde nas mãos de um bom músico. É preciso se perder e se abandonar n’Ela, como uma pedra que se atira ao mar, o que se faz tão simplesmente, num instante, por um olhar do espírito, um pequeno movimento da vontade, ou verbalmente, dizendo por exemplo: Renuncio a mim mesmo e dou-me a Vós, ó minha querida Mãe! E ainda que não se experimente qualquer doçura sensível neste ato de união, ele não deixa de ser verdadeiro, assim como se alguém dissesse, o que Deus não permita: “Dou-me ao demônio”, se o dissesse com sinceridade, embora sem qualquer mudança sensível, não seria menos de fato do demônio. 3) É preciso, de tempos em tempos, durante sua ação e depois da ação, renovar o mesmo ato de oferecimento e de união. Quanto mais o fizermos, mais cedo nos santificaremos e chegaremos à união com Jesus Cristo, a qual se segue sempre à união com Maria, pois o espírito de Maria é o espírito de Jesus. 260. É preciso fazer suas ações com Maria. Ou seja, é preciso, nas suas ações, olhar para Maria como o modelo acabado de toda virtude e perfeição que o Espírito Santo formou em uma pura criatura, para o imitar segundo nosso pequeno alcance. É preciso, pois, que em cada ação consideremos como Maria a fez ou a faria, se Ela estivesse em nosso lugar. Devemos para isso examinar e meditar nas grandes virtudes que Ela praticou durante sua vida, particularmente: 1) Sua fé viva, pela qual Ela acreditou sem hesitar na palavra do anjo; acreditou fiel e constantemente até o pé da cruz no Calvário; 2) Sua humildade profunda, que A fez Se esconder, Se calar, Se submeter a tudo e Se pôr no último lugar; 3) Sua pureza toda divina, que nunca teve nem terá jamais igual sob o céu. Enfim, todas as suas outras virtudes. Lembremo-nos, torno a repetir, que Maria é o grande e o único molde de Deus, próprio para formar imagens vivas de Deus, facilmente e em pouco tempo. Uma alma que encontrou este molde e nele se lança, em breve se transformará em Jesus Cristo, que esse molde representa ao natural. 261. É preciso fazer suas ações em Maria. Para bem entender esta prática é preciso saber: 1) Que a Santíssima Virgem é o verdadeiro Paraíso terrestre do novo Adão, e que o antigo Paraíso terrestre não era senão sua imagem. Há pois, nesse Paraíso terrestre, riquezas, belezas, raridades e doçuras inexplicáveis, que o novo Adão, Jesus Cristo, aí deixou. É nesse Paraíso que Ele tomou suas complacências durante nove meses, operou suas maravilhas e exibiu suas riquezas com a magnificência de um Deus. Esse santíssimo lugar não é composto senão de uma terra virgem e imaculada, da qual foi formado e se alimentou o novo Adão, sem mancha nem sujeira alguma, pela operação do Espírito Santo que aí habita. É nesse Paraíso terrestre que está verdadeiramente a árvore da vida que produziu Jesus Cristo, o fruto da vida; a árvore da ciência do bem e do mal que deu a luz ao mundo. Há nesse lugar divino árvores plantadas pela mão de Deus e regadas por sua unção divina, que produziram e produzem ainda, todos os dias, frutos de um sabor divino. Há canteiros esmaltados de belas e diferentes flores de virtudes, que exalam aromas que perfumam até os anjos. Há nesse lugar prados verdes de esperança, torres inexpugnáveis de força, casas encantadoras de confiança, etc. Somente o Espírito Santo pode dar a conhecer a verdade escondida sob essas figuras de coisas materiais. Há ainda nesse lugar um ar puro e incontaminado, um ar de pureza; um dia radiante, sem noite, da humanidade santa; um belo sol, sem sombra, da Divindade; uma fornalha ardente e contínua de caridade, onde todo ferro que ali é posto se abrasa e se transforma em ouro. Há um rio de humildade que brota da terra e que, dividindo-se em quatro braços, banha todo esse lugar encantado: são as quatro virtudes cardeais. 262. 2) O Espírito Santo, pela boca dos santos Padres, chama também a Santíssima Virgem de: a) A porta oriental, por onde o sumo sacerdote Jesus Cristo entra e sai no mundo; por Ela entrou na primeira vez, e por Ela virá na segunda; b) O santuário da Divindade, o repouso da Santíssima Trindade, o trono de Deus, a cidade de Deus, o altar de Deus, o templo de Deus, o mundo de Deus. Todos esses diferentes títulos e louvores são muito verdadeiros em relação às diferentes maravilhas de graças que o Altíssimo realizou em Maria. Oh! que riquezas! Oh! que glória! Oh! que prazer! Oh! que felicidade poder entrar e permanecer em Maria, onde o Altíssimo colocou o trono de sua glória suprema! 263. Mas como é difícil a pecadores como nós obter permissão e ter capacidade e luz para entrar num lugar tão alto e tão santo, guardado não por um querubim, como o antigo Paraíso terrestre, mas pelo próprio Espírito Santo que dele Se tornou o senhor absoluto, e do qual Ele diz: “Tu és um jardim fechado, ó minha irmã e esposa, tu és um jardim fechado e uma fonte selada” (Ct 4, 12). Maria é fechada; Maria é selada. Os miseráveis filhos de Adão e Eva, banidos do Paraíso terrestre, não podem entrar nele senão por uma graça particular do Espírito Santo, que devem merecer. 264. Quando, pela sua fidelidade, tiverem alcançado essa insigne graça, é preciso permanecer no belo interior de Maria com complacência, nele repousar em paz, apoiar-se com confiança, esconder-se com segurança e nele se perder sem reserva, a fim de que neste seio virginal: 1) A alma seja alimentada pelo leite de sua graça e de sua misericórdia maternal; 2) Seja livre de suas perturbações, receios e escrúpulos; 3) Esteja em segurança contra todos os seus inimigos, o demônio, o mundo e o pecado, que nele nunca tiveram entrada. Por isso Ela diz que “Aqueles que operam em Mim, não pecarão” (Eclo 24, 30). Quer dizer, aqueles que permanecem na Virgem Maria em espírito não cometerão pecado grave; 4) Seja a alma formada em Jesus Cristo e Jesus Cristo formado nela: porque o seio de Maria, como dizem os Padres, é a sala dos sacramentos divinos, onde Jesus Cristo e todos os eleitos foram formados: “Um homem e um homem nasceu dela” (Sl 86, 5). 265. Finalmente, é preciso fazer todas as suas ações para Maria. Pois, uma vez que nos entregamos inteiramente ao seu serviço, é justo que se faça tudo por Ela como um criado, um servo e um escravo. Não que A tomemos como o fim último de nossos serviços, pois só Jesus Cristo o é. Mas, como nosso fim próximo, nosso meio misterioso e fácil para ir a Ele. Como bons servos e escravos, não devemos ficar ociosos, mas é preciso que, apoiados na sua proteção, empreendamos e realizemos grandes coisas para esta augusta Soberana. É preciso defender seus privilégios quando alguém lhos disputar; é preciso apoiar sua glória quando a atacarem. É preciso atrair todo o mundo, se for possível, ao seu serviço e a esta verdadeira e sólida devoção. É preciso falar e clamar contra aqueles que abusam de sua devoção para ultrajar seu Filho. É preciso pretender apenas, como recompensa de seus pequenos serviços, a honra de pertencer a tão amável Princesa, e a felicidade de ser por Ela unido a Jesus, com um laço indissolúvel no tempo e na eternidade. G J M! G M J! G D! 266. 1) Humilhar-vos-eis profundamente diante de Deus. 2) Renunciareis ao vosso fundo tão corrompido e às vossas disposições, por melhores que vosso amor-próprio as faça parecer. 3) Renovareis vossa consagração, dizendo: “Sou todo vosso minha querida Senhora, com tudo o que tenho”. 4) Suplicareis a esta boa Mãe que vos empreste seu coração, para nele receberdes seu Filho com as disposições d’Ela. Dir-lhe-eis que a glória de seu Filho exige que não seja recebido num coração tão manchado e tão inconstante como o vosso, que não tardará a privá-Lo da sua glória ou a perdê-Lo. Mas, se Ela quiser vir habitar no vosso coração para receber seu Filho, poderá fazê-lo pelo domínio que tem sobre os corações. E seu Filho será assim bem recebido, sem mancha nem perigo de ser ultrajado ou perdido: “Nela Deus está: não poderá vacilar” (Sl 45, 6). Dir-Lhe-eis com confiança que tudo o que Lhe oferecestes dos vossos bens é bem pouca coisa para honrá-La, mas que desejais dar-Lhe, pela santa Comunhão, o mesmo presente que o Pai Eterno Lhe deu, e que, deste modo, Ela será mais honrada do que se Lhe oferecêsseis todos os bens do mundo. Enfim, podeis dizer-Lhe que Jesus A ama de modo único, e que ainda deseja ter n’Ela suas complacências e seu repouso, mesmo que seja agora na vossa alma mais suja e mais pobre do que o estábulo, onde Jesus não pôs dificuldade em vir, porque Ela ali estava. Pedir-Lhe-eis seu coração com estas carinhosas palavras: “Tomo-Vos como toda a minha riqueza. Dai-me o vosso Coração, ó Maria!” 267. 2) Prestes a receber Jesus Cristo, depois do Pai-Nosso, dir-Lhe-eis três vezes: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo!” A primeira vez será para dizer ao Pai Eterno que não sois digno de receber seu Filho único, por causa dos vossos maus pensamentos e ingratidões para com um Pai tão bom. Mas eis que Maria, a serva do Senhor, vos representa e vos dá uma confiança e uma esperança singulares junto da Divina Majestade: “Só Tu, ó Senhor, me pões em segurança” (Sl 4, 9). 268. Direis ao Filho: “Senhor, eu não sou digno...”; que não sois digno de O receber por causa de vossas palavras inúteis e más, e vossa infidelidade no seu serviço. No entanto, rogais a Ele que tenha piedade de vós, porque O introduzireis na casa de sua própria Mãe e vossa, e que não O deixareis partir sem que venha morar nela: “Segurei-o, e não o largarei antes que o tenha introduzido na casa de minha mãe, no quarto daquela que me gerou” (Ct 3, 4). Pedir-Lhe-eis que Se levante e venha ao lugar de seu repouso, à arca de sua santificação: “Levanta-te, Senhor, para o lugar de teu repouso, tu e a arca do teu poder” (Sl 131, 8). Dir-Lhe-eis que não pondes de modo algum vossa confiança em vossos méritos, na vossa força e preparação, como Esaú, mas nas de Maria, vossa querida Mãe, como o pequeno Jacó nos desvelos de Rebeca. E que, embora sendo pecador e Esaú, ousais vos aproximar de sua santidade, apoiado e adornado dos méritos e virtudes de sua Santa Mãe. 269. Direis ao Espírito Santo: “Senhor, eu não sou digno...”; que não sois digno de receber a obra-prima de sua caridade, por causa da tibieza e iniquidade de vossas ações e de vossas resistências às suas inspirações. Mas que toda a vossa confiança está em Maria, sua fiel Esposa. E dirás com São Bernardo: “Ela é a minha grande confiança, é toda a razão da minha esperança” (Serm. de acquaeductu, n.7, PL 183, 441D). Podereis até rogar-Lhe que venha mais uma vez a Maria, sua Esposa inseparável; que seu seio é tão puro e seu coração tão abrasado como sempre; e que sem a descida d’Ele na vossa alma, Jesus e Maria nela não poderão ser nem bem formados, nem dignamente alojados. 270. Depois da santa Comunhão, estando interiormente recolhido, com os olhos fechados, introduzireis Jesus Cristo no Coração de Maria. Vós O dareis à sua Mãe, que O receberá amorosamente, O instalará honorificamente, O adorará profundamente, O amará perfeitamente, O abraçará estreitamente, e Lhe prestará, em espírito e em verdade, várias homenagens que são desconhecidas por nós em nossa espessa ignorância. 271. Ou então, permanecereis profundamente humilhado em vosso coração, na presença de Jesus residindo em Maria. Ou permanecereis como um escravo à porta do palácio do Rei, onde Ele Se encontra a conversar com a Rainha. E enquanto conversam, sem precisarem de vós, ireis em espírito ao Céu e pela terra inteira pedir às criaturas que agradeçam, adorem e amem Jesus e Maria em vosso lugar: “Vinde, prostrados adoremos, de joelhos diante do Senhor que nos criou” (Sl 94, 6). 272. Ou então, vós mesmos pedireis a Jesus, em união com Maria, a vinda de seu reino sobre a terra, por meio de sua Santa Mãe. Ou pedireis a divina sabedoria, ou o amor divino, ou o perdão de vossos pecados, ou qualquer outra graça, mas sempre por Maria e em Maria. Olhareis para vós com desconfiança, e direis: “Senhor, não olheis meus pecados; mas que vossos olhos não vejam em mim senão as virtudes e méritos de Maria” (Cf. Sl 16, 2). E lembrando-vos de vossos pecados, acrescentareis: “Eu mesmo sou o maior inimigo com que tenho de lutar; fui eu que cometi estes pecados”; ou então: “Livrai-me, Senhor, do homem iníquo e doloso”, ou então: “Meu Jesus, é preciso que cresçais em minha alma e que eu diminua”. Maria, é preciso que cresçais em mim, e que eu seja menor do que nunca. Ó Jesus e Maria, crescei em mim, e multiplicai-Vos fora de mim nos outros. 273. Há uma infinidade de outros pensamentos que o Espírito Santo inspira, e vos inspirará caso sejais interior, mortificado e fiel a esta grande e sublime devoção que acabo de vos ensinar. Mas, lembrai-vos de que, quanto mais deixardes agir Maria em vossa comunhão, mais Jesus será glorificado. E tanto mais deixareis agir Maria por Jesus e Jesus em Maria, quanto mais profundamente vos humilhardes e os escutardes em paz e silêncio, sem vos preocupar em ver, provar, nem sentir. Pois o justo vive, em tudo, da fé, e particularmente na santa Comunhão, que é um ato de fé: “O meu justo vive da fé” (Hb 10, 38).