Com toda a Igreja confesso que Maria, não sendo senão uma pura criatura saída das mãos do Altíssimo, comparada à sua Majestade infinita é menor que um átomo, ou antes, é nada, uma vez que só Ele é “Aquele que é”. Por conseguinte, esse grande Senhor, sempre independente e bastando-Se a Si mesmo, não teve nem tem necessidade alguma da Santíssima Virgem para o cumprimento de seus desejos e para a manifestação de sua glória. Basta Ele querer para tudo fazer.
Maria no plano de Deus
Parágrafos 14 a 59 · Índice temático para navegação
Digo no entanto que, supostas as coisas como são, tendo Deus desejado começar e concluir suas maiores obras pela Santíssima Virgem depois de tê-La formado, é de se acreditar que não mudará absolutamente de conduta pelos séculos dos séculos, pois Ele é Deus, e nunca muda em seus sentimentos nem em sua conduta.
Deus Pai deu seu Unigênito ao mundo somente por Maria.
Por mais suspiros que tenham dado os patriarcas, por mais pedidos que tenham feito os profetas e os santos da Antiga Lei, durante quatro mil anos, para ter esse tesouro, só Maria o mereceu e encontrou graça diante de Deus, pela força de suas preces e a elevação de suas virtudes.
O mundo sendo indigno, disse Santo Agostinho, de receber o Filho de Deus diretamente das mãos do Pai, Ele O deu a Maria, para que o mundo O recebesse por Ela.
O Filho de Deus Se fez homem para nossa salvação, mas em Maria e por Maria.
Deus Espírito Santo formou Jesus Cristo em Maria, porém depois de Lhe ter pedido seu consentimento através de um dos primeiros ministros de sua corte.
Deus Pai comunicou a Maria sua fecundidade, na medida em que uma pura criatura era capaz de recebê-la, para Lhe dar o poder de produzir seu Filho e todos os membros de seu Corpo místico.
Deus Filho desceu em seu seio virginal, qual novo Adão em seu Paraíso terrestre, para ali achar suas complacências e operar, ocultamente, maravilhas da graça.
Esse Deus feito homem encontrou sua liberdade ao Se ver aprisionado no seio de Maria; fez brilhar sua força ao Se deixar carregar por esta jovem; encontrou sua glória, e a de seu Pai, ao ocultar seus esplendores a todas as criaturas da terra, para os revelar somente a Maria; glorificou sua independência e majestade ao depender desta amável Virgem na sua concepção, no seu nascimento, na sua apresentação no Templo, na sua vida escondida de trinta anos e até na sua morte, à qual Ela devia assistir, para consentir em que Ele fosse imolado ao Pai Eterno, como outrora Isaac seria sacrificado pelo consentimento de Abraão à vontade de Deus.
É Ela que O amamentou, nutriu, sustentou, educou e O sacrificou por nós. Ó admirável e incompreensível dependência de um Deus que o Espírito Santo não pôde passar sob silêncio no Evangelho – embora tenha escondido de nós quase todas as coisas admiráveis que esta Sabedoria encarnada realizou na sua vida oculta – para nos mostrar o seu valor e a sua glória infinita. Jesus Cristo deu mais glória a Deus Pai pela submissão que teve à sua Mãe durante trinta anos, do que Lhe teria dado se convertesse a terra inteira pela realização das maiores maravilhas. Oh! como glorificamos altamente a Deus quando, para agradá-Lo, nos submetemos a Maria, a exemplo de Jesus Cristo, nosso único modelo!
Se examinarmos de perto o resto da vida de Jesus Cristo, veremos que Ele quis começar seus milagres por Maria.
Santificou São João Batista no seio de sua mãe, Santa Isabel, pela palavra de Maria; assim que Ela falou, João foi santificado, e é este seu primeiro e maior milagre na ordem da graça.
Nas bodas de Caná, Jesus mudou a água em vinho atendendo ao humilde pedido de Maria, e é este seu primeiro milagre na ordem da natureza.
Começou e continuou seus milagres por Maria; e por Ela os continuará a realizar até o fim dos séculos.
Deus Espírito Santo, sendo estéril em Deus, isto é, não produzindo nenhuma outra Pessoa divina, tornou-Se fecundo por Maria, que Ele desposou. É com Ela, n’Ela e d’Ela que Ele produziu sua obra-prima, um Deus feito homem, e produz todos os dias, até o fim do mundo, os predestinados e os membros do corpo cuja cabeça é o adorável Jesus. Por isso, quanto mais Ele encontra sua querida e inseparável Esposa Maria numa alma, tanto mais Se torna operante e poderoso para produzir Jesus Cristo nessa alma e essa alma em Jesus Cristo.
Não se quer dizer com isto que a Santíssima Virgem dê ao Espírito Santo a fecundidade, como se Ele não a tivesse, pois, sendo Deus, Ele possui a fecundidade ou a capacidade de produzir, assim como o Pai e o Filho, embora não a transforme em ato, não produzindo nenhuma outra Pessoa divina. Mas, queremos dizer que o Espírito Santo pelo intermédio da Santíssima Virgem – da qual deseja Se servir, embora não tivesse necessidade absoluta de fazê-lo – reduz a ato sua fecundidade ao produzir n’Ela e por Ela Jesus Cristo e seus membros.
Mistério da graça desconhecido até dos cristãos mais sábios e espirituais!
A conduta que as três Pessoas da Santíssima Trindade tiveram na Encarnação e na primeira vinda de Jesus Cristo, continuam a tê-la todos os dias de uma maneira invisível na Santa Igreja, e a terão até a consumação dos séculos, na última vinda de Jesus Cristo.
Deus Pai reuniu todas as águas e lhes deu o nome de mar; reuniu todas as suas graças e as chamou Maria.
Esse grande Deus tem um tesouro ou um celeiro muito rico, onde encerrou tudo o que há de belo, brilhante, raro e precioso, incluindo seu próprio Filho. Esse tesouro imenso é Maria, que os santos chamam o tesouro do Senhor, de cuja plenitude os homens são enriquecidos.
Deus Filho comunicou à sua Mãe tudo o que Ele adquiriu pela sua vida e morte, seus méritos infinitos e suas admiráveis virtudes, e A fez tesoureira de tudo o que seu Pai Lhe deu em herança. É por meio de Maria que Jesus aplica seus méritos aos seus membros, que comunica suas virtudes e distribui suas graças. Ela é seu canal misterioso, seu aqueduto por onde faz passar, suave e abundantemente, suas misericórdias.
Deus Espírito Santo comunicou a Maria, sua fiel Esposa, seus dons inefáveis e A escolheu como dispensadora de tudo o que possui. De maneira que Ela distribui a quem quer, quanto quer, como e quando quer, todos os seus dons e suas graças, e nenhum dom celeste é concedido aos homens sem que passe pelas suas mãos virginais. Pois tal é a vontade de Deus, que quis que tivéssemos tudo por Maria. Assim, será enriquecida, elevada e honrada pelo Altíssimo Aquela que, durante toda a sua vida, despojou-Se, humilhou-Se e Se escondeu até o fundo do nada, em sua própria humildade.
Eis os sentimentos da Igreja e dos Santos Padres.
Se eu falasse aos espíritos fortes deste tempo, provaria mais extensamente tudo o que digo de modo simples, pela Sagrada Escritura e pelos Santos Padres (cujas passagens latinas eu citaria), e por várias razões sólidas que se poderão ler, expostas pelo Rev. Pe. Poiré em sua Tríplice Coroa da Santíssima Virgem.
Mas, como falo particularmente aos pobres e simples que, sendo de boa vontade e tendo mais fé que o comum dos sábios, creem mais simplesmente e com mais mérito, contento-me em declarar-lhes simplesmente a verdade, sem me deter em citar todas as passagens latinas, que não entendem. No entanto, não deixarei de relatar algumas, sem procurá-las muito.
Continuemos.
Posto que a graça aperfeiçoa a natureza, e a glória aperfeiçoa a graça, é certo que Nosso Senhor é ainda no Céu tão Filho de Maria como o foi na terra. Por conseguinte, conservou a submissão e a obediência do mais perfeito de todos os filhos para com a melhor de todas as mães.
Importa, porém, não vermos nessa dependência algum rebaixamento ou imperfeição de Jesus Cristo. Pois Maria, estando infinitamente abaixo de seu Filho, que é Deus, não manda n’Ele como uma mãe terrena mandaria no seu filho que lhe é submisso. Estando toda transformada em Deus pela graça e pela glória que n’Ele transforma todos os santos, Maria não pede, não quer nem faz nada que seja contrário à eterna e imutável vontade divina.
Quando lemos, portanto, nos escritos de São Bernardo, São Bernardino, São Boaventura, etc., que no Céu e na terra tudo está sujeito a Maria, inclusive o próprio Deus, querem eles dizer que a autoridade que Deus quis dar a Ela é tão grande que parece igualar o poder divino, e que as suas orações e súplicas são tão poderosas junto de Deus que equivalem sempre a ordens junto da sua Majestade. Ele nunca resiste à prece de sua querida Mãe, pois Ela é sempre humilde e conforme à sua vontade.
Pela força de sua prece, Moisés deteve de maneira tão poderosa a ira de Deus sobre os israelitas, que esse altíssimo e infinitamente misericordioso Senhor, não lhe podendo resistir, disse-lhe que O deixasse enfurecer-Se e castigar aquele povo rebelde. O que então devemos pensar, com muito maior razão, da prece da humilde Maria, a digna Mãe de Deus, que é mais poderosa junto à sua Majestade que as preces e intercessões de todos os anjos e santos do Céu e da terra?
No Céu, Maria impera sobre os anjos e os bem-aventurados. Como recompensa pela sua profunda humildade, Deus Lhe deu o poder e a incumbência de encher de santos os tronos deixados vazios pelos anjos apóstatas que caíram por orgulho.
É a vontade do Altíssimo, que exalta os humildes (Cf. Lc 1, 52), que o Céu, a terra e os infernos se curvem, de bom ou mau grado, às ordens da humilde Maria. Ele A constituiu soberana do Céu e da terra, a general de seus exércitos, a tesoureira de seus tesouros, a dispensadora de suas graças, a realizadora de suas grandes maravilhas, a reparadora do gênero humano, a medianeira dos homens, a exterminadora dos inimigos de Deus e a fiel companheira de suas grandezas e triunfos.
Deus Pai quer formar filhos por Maria até a consumação do mundo, e Lhe diz estas palavras: “Habita em Jacó” (Eclo 24, 13), quer dizer, fazei vossa morada e residência em meus filhos e predestinados, simbolizados por Jacó, e de maneira alguma nos filhos do demônio e nos réprobos, simbolizados por Esaú.
Como na geração natural e corporal há um pai e uma mãe, assim também na geração sobrenatural e espiritual há um pai, que é Deus, e uma mãe, que é Maria.
Todos os verdadeiros filhos de Deus e predestinados têm Deus por pai e Maria por mãe; e quem não tem Maria por mãe, não tem Deus por pai.
É por isso que os réprobos, como os heréticos, cismáticos, etc., que odeiam ou olham com desprezo ou indiferença a Santíssima Virgem, não têm absolutamente Deus por pai, embora disso se gloriem, porque não têm Maria por mãe. Se A tivessem por mãe, A amariam e honrariam como um verdadeiro e bom filho ama e honra naturalmente a mãe que lhe deu a vida.
O sinal mais infalível e indubitável para distinguir um herege, um homem de má doutrina, um réprobo, de um predestinado, é que o herege e o réprobo não têm senão desprezo ou indiferença pela Santíssima Virgem, tentando, pelas suas palavras e exemplos, diminuir-Lhe o culto e o amor, aberta ou ocultamente, às vezes sob belos pretextos. Infelizmente!
Deus Pai não disse a Maria para fazer sua morada neles, porque são Esaús.
Deus Filho quer Se formar e, por assim dizer, Se encarnar todos os dias, por meio de sua querida Mãe, em seus membros, e lhe diz: “Tomai posse da tua herança em Israel” (Eclo 24, 13).
É como se dissesse: Deus, meu Pai, Me deu por herança todas as nações da terra, todos os homens bons e maus, predestinados e réprobos. Conduzirei uns com a vara de ouro e outros, com a vara de ferro. Serei o pai e o advogado de uns, o justo vingador de outros, e o juiz de todos. Mas Vós, minha querida Mãe, não tereis por herança e posse senão os predestinados simbolizados por Israel. Como sua boa mãe, lhes dareis à luz, os nutrireis e educareis. Como sua soberana, os conduzireis, governareis e defendereis.
“Um homem e um homem nasceu dela” (Sl 87, 5), diz o Espírito Santo. Segundo a explicação de alguns Padres, o primeiro homem nascido em Maria é o Homem-Deus, Jesus Cristo; o segundo é um puro homem, filho de Deus e de Maria por adoção. Se Jesus Cristo, cabeça dos homens, nasceu d’Ela, os predestinados, que são os membros dessa cabeça, devem também nascer d’Ela, por uma consequência necessária. Uma mesma mãe não traz ao mundo a cabeça ou o chefe sem os membros, nem os membros sem a cabeça; senão, seria uma monstruosidade da natureza. Do mesmo modo, na ordem da graça, a cabeça e os membros nascem de uma mesma mãe; e se um membro do Corpo místico de Jesus Cristo, isto é, um predestinado, nascesse de uma outra mãe que não fosse Maria, que gerou a cabeça, não seria um predestinado nem um membro de Jesus Cristo, mas um monstro na ordem da graça.
Além disso, Jesus Cristo é hoje, como o será sempre, o fruto de Maria, como o Céu e a terra Lhe repetem mil e mil vezes todos os dias: “E bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”. Assim, é certo que Jesus Cristo é tão verdadeiramente o fruto e a obra de Maria em cada homem em particular, que O possui, quanto em todo o mundo em geral. De tal modo que, se algum fiel tiver Jesus Cristo formado em seu coração, ele pode dizer ousadamente: “Mil graças a Maria, o que eu possuo é fruto e obra sua, e sem Ela eu não O teria”. E a Ela se podem aplicar, mais verdadeiramente do que São Paulo as aplicou a si próprio, estas palavras: Todos os dias dou à luz os filhos de Deus, até que Jesus Cristo, meu Filho, seja neles formado na plenitude de sua idade (Cf. Ga 4, 19).
Santo Agostinho, superando a si mesmo e a tudo o que eu acabo de dizer, afirma que todos os predestinados, para serem conformes à imagem do Filho de Deus, são neste mundo escondidos no seio da Santíssima Virgem, onde são guardados, nutridos, mantidos e engrandecidos por essa boa Mãe, até que Ela os gere para a glória, após a morte, que é propriamente o dia de seu nascimento, como chama a Igreja a morte dos justos.
Ó mistério da graça desconhecido dos réprobos e pouco conhecido dos predestinados!
Deus Espírito Santo quer formar eleitos em Maria e por Maria, e Lhe diz: Lançai, minha bem-amada e minha Esposa, as raízes de todas as vossas virtudes em meus eleitos (Cf. Eclo 24, 13), a fim de que eles cresçam de virtude em virtude e de graça em graça. Tive tanta complacência em Vós, quando vivíeis na terra praticando as mais sublimes virtudes, que desejo ainda Vos encontrar sobre a terra, sem deixar de estar no Céu. Reproduzi-Vos para esse fim em meus eleitos: que Eu veja neles, com agrado, as raízes de vossa fé invencível, de vossa humildade profunda, de vossa mortificação universal, de vossa oração sublime, de vossa caridade ardente, de vossa esperança firme e de todas as vossas virtudes. Vós continuais a ser minha Esposa, tão fiel, tão pura e tão fecunda como nunca: que vossa fé me dê fiéis; que vossa pureza me dê virgens; que vossa fecundidade me dê eleitos e templos.
Quando Maria lança suas raízes numa alma, nela produz maravilhas da graça que só Ela pode produzir, pois só Ela é a Virgem fecunda, que nunca teve nem terá quem a iguale em pureza e fecundidade.
Maria produziu, com o Espírito Santo, a maior maravilha que já existiu ou existirá, que é um Deus-Homem. E produzirá, consequentemente, as maiores coisas que hão de existir nos últimos tempos. A formação e a educação dos grandes santos, que viverão no fim do mundo, Lhes estão reservadas; pois somente essa Virgem singular e milagrosa pode produzir, em união com o Espírito Santo, coisas únicas e extraordinárias.
Quando o Espírito Santo, seu Esposo, A encontra numa alma, Ele voa para lá, entra nela plenamente, comunica-Se a essa alma abundantemente, na mesma medida em que ela dá lugar à sua Esposa. E uma das grandes razões pelas quais o Espírito Santo não opera agora maravilhas retumbantes nas almas, é porque não encontra nelas uma união bastante grande com sua fiel e inseparável Esposa.
Digo: inseparável Esposa, pois desde que este Amor substancial do Pai e do Filho desposou Maria para produzir Jesus Cristo, a cabeça dos eleitos, e Jesus Cristo nos eleitos, Ele nunca A repudiou, porque Ela sempre foi fiel e fecunda.
Do que acabo de dizer deve-se evidentemente concluir:
Primeiro, que Maria recebeu de Deus um grande poder sobre as almas dos eleitos. Pois Ela não pode fazer neles sua morada, como Deus Pai Lhe ordenou, formá-los, nutri-los e fazê-los nascer para a vida eterna como sua mãe, tê-los por sua herança e porção, formá-los em Jesus Cristo e Jesus Cristo neles, lançar nos seus corações as raízes de suas virtudes, e ser a companheira inseparável do Espírito Santo nas obras de suas graças, Ela não pode, repito, fazer tudo isso, a menos que tenha direito e domínio nas suas almas por uma graça singular do Altíssimo que, tendo-Lhe dado poder sobre seu Filho único e natural, também Lhe deu poder sobre seus filhos adotivos, não somente quanto ao corpo, o que seria pouco, mas também quanto à alma.
Maria é a Rainha do Céu e da terra por graça, como Jesus é o Rei por natureza e conquista.
Ora, como o reino de Jesus Cristo consiste principalmente no coração ou interior do homem, segundo esta palavra: “O reino de Deus está no interior de vós” (Lc 17, 21), assim também o reino da Santíssima Virgem está principalmente no interior do homem, isto é, na sua alma. E é principalmente nas almas que Ela é mais glorificada com seu Filho do que em todas as criaturas visíveis, e podemos chamá-La, com os santos, a Rainha dos Corações.
Em segundo lugar, é preciso concluir que a Santíssima Virgem sendo necessária a Deus, de uma necessidade que se chama de hipotética, em consequência da vontade divina, Ela é muito mais necessária aos homens para chegarem a seu fim último. Não se pode, portanto, confundir a devoção à Santíssima Virgem com a devoção aos outros santos, como se ela não fosse mais necessária, mas facultativa e além das obrigações de piedade.
O douto e piedoso Suárez, da Companhia de Jesus, o sábio e devoto Justo Lípsio, doutor de Lovaina, e vários outros, provaram de maneira incontestável, baseados na opinião dos Padres (entre outros, Santo Agostinho, Santo Efrém, diácono de Edessa, São Cirilo de Jerusalém, São Germano de Constantinopla, São João Damasceno, Santo Anselmo, São Bernardo, São Bernardino, São Tomás e São Boaventura), que a devoção à Santíssima Virgem é necessária para a salvação. E que é sinal infalível de condenação – segundo o sentir do próprio Ecolampádio e de alguns outros – não ter estima e amor pela Virgem Santa; e que, pelo contrário, é sinal infalível de predestinação ser-Lhe inteira e verdadeiramente dedicado ou devoto.
Provam-no as figuras e palavras do Antigo e Novo Testamento, as opiniões e os exemplos dos santos o confirmam, a razão e a experiência o ensinam e o demonstram; e o próprio demônio e seus asseclas, contrariados e pressionados pela força da verdade, foram muitas vezes obrigados a confessá-lo. De todas as passagens dos santos Padres e Doutores que amplamente compilei para provar esta verdade, cito apenas uma para não me alongar demais: Ser vosso devoto, ó Virgem Santíssima, diz São João Damasceno, é uma arma de salvação que Deus dá àqueles que quer salvar.
Poderia transcrever aqui várias histórias que comprovam a mesma verdade, entre outras:
1) A que vem narrada nas crônicas de São Francisco, quando ele viu em êxtase uma grande escada que chegava ao Céu, no topo da qual estava Nossa Senhora. Foi-lhe mostrado que era preciso subir por essa escada para se chegar ao Céu.
2) Ou a que está nas crônicas de São Domingos, segundo a qual quinze mil demônios possuíam a alma de um infeliz herege perto de Carcassona, onde o santo pregava o Rosário. Por ordem da Santíssima Virgem e para a confusão deles, os demônios foram obrigados a confessar grandes e consoladoras verdades sobre a devoção a Maria. E o fizeram com tanta força e clareza que não se pode ler essa história autêntica e o elogio que o demônio fez, contra sua vontade, da devoção a Ela, sem verter lágrimas de alegria, por pouco que se seja devoto de Nossa Senhora.
Se a devoção à Santíssima Virgem é necessária a todos os homens para simplesmente alcançar sua salvação, ela o é ainda mais para aqueles que são chamados a uma perfeição particular. E não acredito que uma pessoa possa adquirir uma união íntima com Nosso Senhor e uma perfeita fidelidade ao Espírito Santo, sem uma grande união com Maria e sem uma grande dependência de seu socorro.
Só Maria encontrou graça diante de Deus, sem auxílio de nenhuma outra pura criatura.
Todos os que acharam graça diante de Deus, desde então, só por seu intermédio a obtiveram; e também só por Ela a encontrarão todos os que ainda hão de vir.
Ela estava plena de graça ao ser saudada pelo arcanjo Gabriel, e foi superabundantemente repleta de graça pelo Espírito Santo quando Ele A cobriu com sua sombra inefável. E de tal maneira essa dupla plenitude aumentou dia a dia, momento a momento, que Maria atingiu um imenso e inconcebível patamar de graça. Por isso o Altíssimo A constituiu a única guardiã de seus tesouros e a única dispensadora de suas graças, para enobrecer, elevar e enriquecer quem Ela quiser; para fazer passar, apesar de tudo, quem Ela quiser pela porta estreita da vida, e para dar o trono, o cetro e a coroa de rei a quem Ela desejar.
Jesus é sempre e em toda parte o fruto e Filho de Maria; e Maria é em toda parte a árvore verdadeira que dá o fruto da vida, e a verdadeira mãe que o produz.
Só a Maria Deus confiou as chaves dos celeiros do divino amor, e o poder de entrar nas vias mais sublimes e secretas da perfeição, e de nelas fazer entrar os outros. Só Maria dá aos miseráveis filhos da infiel Eva a entrada no Paraíso terrestre, para aí passearem agradavelmente com Deus, para aí se esconderem em segurança dos seus inimigos, e para aí se alimentarem deliciosamente do fruto das árvores da vida e da ciência do bem e do mal – sem temer a morte –, e beberem a grandes tragos as celestes águas da bela fonte que aí jorra em abundância. Ou antes, sendo Ela própria esse Paraíso terrestre, essa terra virgem e abençoada de onde Adão e Eva pecadores foram expulsos, só acolhe em Si aqueles e aquelas que Lhe apraz, para os tornar santos.
Todos os ricos do povo – para me servir da expressão do Espírito Santo, segundo a explicação de São Bernardo – suplicam o vosso favor de século em século, e particularmente no fim do mundo. Isto quer dizer que os mais santos, as almas mais ricas em graça e em virtudes, serão as mais assíduas em rezar à Santíssima Virgem e em tê-La sempre presente como seu perfeito modelo a ser imitado, e como seu auxílio poderoso para socorrê-las.
Disse que isso acontecerá particularmente no fim do mundo e em breve, porque o Altíssimo e sua Santa Mãe devem suscitar grandes santos, que ultrapassarão tanto em santidade a maioria dos outros santos, quanto os cedros do Líbano ultrapassam os arbustos, como foi revelado a uma santa alma cuja vida foi escrita por M. de Renty.
Essas grandes almas, cheias de graça e de zelo, serão escolhidas para se opor aos inimigos de Deus, que se agitarão de todos os lados, e serão singularmente devotas da Santíssima Virgem, esclarecidas pela sua luz, nutridas de seu leite, conduzidas pelo seu espírito, sustentadas pelo seu braço e guardadas sob sua proteção, de modo que combaterão com uma mão e edificarão com a outra. Com uma mão, combaterão, derrubarão, esmagarão os hereges com suas heresias, os cismáticos com seus cismas, os idólatras com suas idolatrias e os pecadores com suas impiedades. Com a outra mão, edificarão o templo do verdadeiro Salomão e a mística cidade de Deus, quer dizer, a Santíssima Virgem, chamada pelos Santos Padres o Templo de Salomão e a Cidade de Deus.
Por suas palavras e exemplos, levarão todo o mundo à verdadeira devoção a Maria, o que lhes atrairá muitos inimigos, mas também muitas vitórias e glória para Deus.
É o que Deus revelou a São Vicente Ferrer, grande apóstolo de seu século, como ele o assinalou claramente numa de suas obras.
É o que o Espírito Santo parece ter predito no Salmo 58, com estas palavras: “Para saberem que Deus é Senhor em Jacó e em toda a terra; eles retornarão à tarde, e sofrerão a fome como cachorros, e andarão em volta da cidade para buscar o que comer” (Sl 58, 14-15).
Essa cidade, que os homens circundarão no fim do mundo para se converterem e saciarem sua fome de justiça, é a Santíssima Virgem, chamada pelo Espírito Santo a cidade e sede de Deus.
É por Maria que a salvação do mundo começou, e é por Maria que deve ser consumada. Maria quase não apareceu na primeira vinda de Jesus Cristo, a fim de que os homens, ainda pouco instruídos e esclarecidos sobre a pessoa de seu Filho, não se afastassem da verdade, apegando-se intensa e grosseiramente a Ela, por causa dos encantos admiráveis que o Altíssimo Lhe havia concedido, inclusive exteriormente. O que é tão verdadeiro que São Dionísio, o Areopagita, nos deixa por escrito que, quando A viu, A teria tomado por uma divindade, por causa de seus encantos secretos e de sua beleza incomparável, se a fé, na qual estava bem confirmado, não lhe tivesse ensinado o contrário.
Mas, na segunda vinda de Jesus Cristo, Maria deve ser conhecida e revelada pelo Espírito Santo, a fim de por Ela fazer conhecer, amar e servir Jesus Cristo, uma vez que não subsistirão mais as razões que O levaram a ocultar sua Esposa durante a vida e a não revelá-La senão bem pouco desde a pregação do Evangelho.
Deus quer, portanto, revelar e manifestar Maria, a obra-prima de suas mãos, nesses últimos tempos.
1) Porque, em sua profunda humildade, Ela Se escondeu neste mundo e Se colocou mais abaixo que o pó, tendo obtido de Deus, de seus Apóstolos e Evangelistas que não fosse manifestada.
2) Porque, sendo a obra-prima das mãos de Deus, tanto no nosso mundo pela graça, como no Céu pela glória, Ele quer, por meio d’Ela, ser glorificado e louvado sobre a terra pelos viventes.
3) Como Ela é a aurora que precede e descobre o Sol de justiça, que é Jesus Cristo, deve ser conhecida e vista, para que Jesus Cristo também o seja.
4) Sendo a via pela qual Jesus Cristo veio a nós pela primeira vez, Ela o será ainda quando Ele vier na segunda vez, embora de maneira distinta.
5) Sendo o meio seguro e a via reta e imaculada para ir a Jesus Cristo e O encontrar perfeitamente, é por Ela que O devem achar as boas almas chamadas a brilhar em santidade.
Aquele que achar Maria encontrará a vida.
Mas não pode achar Maria quem não A procura; não pode procurá-La quem não A conhece; pois não se procura nem se deseja um objeto desconhecido.
É preciso, portanto, que Maria seja mais conhecida do que nunca, para maior conhecimento e glória da Santíssima Trindade.
6) Maria deve brilhar, mais do que nunca, em misericórdia, em força e em graça nesses últimos tempos. Em misericórdia, para trazer de volta e receber amorosamente os pobres pecadores e extraviados que se converterão e voltarão à Igreja Católica. Em força contra os inimigos de Deus, os idólatras, cismáticos, maometanos, judeus e ímpios empedernidos, que se revoltarão terrivelmente para seduzir e fazer cair, por meio de promessas e ameaças, todos aqueles que lhes forem contrários. Enfim, Ela deve brilhar em graça, para animar e sustentar os valentes soldados e fiéis servos de Jesus Cristo, que combaterão pelos seus interesses.
7) Enfim, Maria deve ser terrível para o demônio e seus asseclas como um exército em ordem de batalha, principalmente nesses últimos tempos, porque o demônio, sabendo bem que tem pouco tempo, e muito menos do que nunca, para perder as almas, redobra todos os dias seus esforços e seus combates. Ele suscitará em breve cruéis perseguições e armará terríveis ciladas aos servos fiéis e verdadeiros filhos de Maria, que lhe dão mais trabalho para vencer do que os outros.
É principalmente a essas últimas e cruéis perseguições do demônio, que aumentarão todos os dias até o reino do Anticristo, que se deve aplicar a primeira e célebre predição e maldição de Deus lançada no Paraíso terrestre contra a serpente.
Vem a propósito explicá-la aqui para a glória da Santíssima Virgem, para a salvação de seus filhos e a confusão do demônio.
“Porei inimizades entre ti e a mulher, entre tua raça e a d’Ela; Ela te esmagará a cabeça, e tu armarás ciladas ao seu calcanhar” (Gen 3,15).
Deus nunca fez e formou senão uma única inimizade, porém irreconciliável, que há de durar e mesmo aumentar até o fim: é entre Maria, sua digna Mãe, e o demônio; entre os filhos e servos da Santíssima Virgem, e os filhos e sequazes de Lúcifer. Deste modo, o mais terrível inimigo que Deus constituiu contra o demônio é Maria, sua Santa Mãe.
Ele A dotou desde o Paraíso terrestre, embora Ela existisse ainda apenas na sua mente, de tanto ódio contra esse maldito inimigo de Deus, tanto engenho para descobrir a malícia dessa antiga serpente, tanta força para vencer, arrasar e esmagar esse orgulhoso ímpio, que o demônio A teme mais, não só do que a todos os anjos e homens, mas, em certo sentido, do que ao próprio Deus.
Não que a ira, o ódio e o poder de Deus não sejam infinitamente maiores do que os da Virgem Maria, pois as perfeições d’Ela são limitadas. Mas, é que, primeiro, Satanás, sendo orgulhoso, sofre infinitamente mais por ser vencido e castigado por uma pequena e humilde serva de Deus, e a humildade d’Ela o humilha mais do que o poder divino. Segundo, porque Deus deu a Maria um poder tão grande contra os demônios, que estes temem mais – como foram muitas vezes obrigados a confessar pela boca dos possessos – um só de seus suspiros por alguma alma, do que as preces de todos os santos, e uma só de suas ameaças contra eles do que todos os seus outros tormentos.
O que Lúcifer perdeu por orgulho, Maria o ganhou por humildade; o que Eva condenou e perdeu por desobediência, Maria o salvou por obediência.
Eva, ao obedecer à serpente, perdeu consigo todos os seus filhos e os entregou ao demônio; Maria, ao Se tornar perfeitamente fiel a Deus, salvou consigo todos os seus filhos e servos, e os consagrou à sua Majestade.
Deus estabeleceu não apenas uma inimizade, mas inimizades, não só entre Maria e o demônio, mas entre a raça da Virgem e a raça do demônio; isso quer dizer que Deus pôs inimizades, antipatias e ódios secretos entre os verdadeiros filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e escravos do demônio: eles não se amam nem têm qualquer afinidade uns com os outros.
Os filhos de Belial, os escravos de Satanás, os amigos do mundo (pois é a mesma coisa), sempre perseguiram até hoje e perseguirão mais do que nunca aqueles e aquelas que pertencem à Santíssima Virgem, como outrora Caim perseguiu seu irmão Abel, e Esaú seu irmão Jacó, que são as figuras dos réprobos e dos predestinados.
Mas a humilde Maria alcançará sempre a vitória sobre esse orgulhoso, e tão grande que chegará a lhe esmagar a cabeça onde reside seu orgulho. Ela descobrirá sempre seus fingimentos infernais, dissipará seus conselhos diabólicos e protegerá até o fim dos tempos seus fiéis servos contra a garra cruel do demônio.
O poder de Maria sobre todos os diabos brilhará particularmente nos últimos tempos, quando satanás armará ciladas ao seu calcanhar, isto é, aos seus humildes escravos e seus pobres filhos que Ela suscitará para fazer guerra ao demônio.
Eles serão pequenos e pobres segundo o mundo, e rebaixados diante de todos como o calcanhar, pisoteados e perseguidos como o calcanhar o é em relação aos outros membros do corpo. Mas, em troca, serão ricos da graça de Deus, que Maria lhes distribuirá abundantemente; grandes e destacados em santidade diante de Deus, superiores a toda criatura pelo seu zelo ardente, e tão fortemente apoiados pelo socorro divino que, com a humildade de seu calcanhar e em união com Maria, esmagarão a cabeça do demônio e farão triunfar Jesus Cristo.
Enfim, Deus quer que sua Santa Mãe seja hoje mais conhecida, mais amada, mais honrada do que nunca foi. O que acontecerá, sem dúvida, se os predestinados adotarem, com a graça e luz do Espírito Santo, a prática interior e perfeita que lhes revelarei em seguida.
Eles verão, então, tão claramente quanto a fé lhes permitir, esta formosa Estrela do mar, e chegarão ao Porto seguro, apesar das tempestades e dos piratas, seguindo sua conduta. Conhecerão as grandezas dessa Soberana, e se consagrarão inteiramente a seu serviço como seus súditos e seus escravos de amor. Provarão suas doçuras e suas bondades maternais, e A amarão carinhosamente como seus filhos bem-amados. Conhecerão as misericórdias de que Ela está repleta e sentirão a necessidade de seu socorro, e recorrerão a Ela em todas as coisas como à sua querida advogada e medianeira junto de Jesus Cristo. Saberão que Ela é o meio mais seguro, mais fácil, mais curto e mais perfeito para chegar a Jesus Cristo, e se entregarão a Ela de corpo e alma, sem limite, para pertencer do mesmo modo a Jesus Cristo.
Mas quem serão esses servos, escravos e filhos de Maria?
Serão um fogo ardente, ministros do Senhor que atearão o fogo do divino amor por toda parte.
Serão como flechas pontiagudas na mão da poderosa Maria para transpassar seus inimigos (Cf. Sl 126, 4).
Serão filhos de Levi, bem purificados pelo fogo das grandes tribulações e bem unidos a Deus, que trarão o ouro do amor divino no coração, o incenso da oração no espírito e a mirra da mortificação no corpo, e serão por toda parte o bom odor de Jesus Cristo para os pobres e os pequenos, e um odor de morte para os grandes, os ricos e os orgulhosos mundanos.
Serão nuvens tonitruantes que voarão pelos ares ao menor sopro do Espírito Santo. E, sem se apegar a nada, sem se espantar nem se afligir com nada, derramarão a chuva da palavra de Deus e da vida eterna, trovejarão contra o pecado, clamarão contra o mundo, golpearão o demônio e seus asseclas, e transpassarão de um lado ao outro, para a vida ou para a morte, com sua espada de dois gumes da palavra de Deus, todos aqueles a quem forem enviados da parte do Altíssimo.
Serão verdadeiros apóstolos dos últimos tempos, a quem o Senhor das virtudes dará a palavra e a força para operar maravilhas e conquistar despojos gloriosos sobre seus inimigos; dormirão sem ouro nem prata e, o que é melhor, sem preocupações no meio de outros padres, eclesiásticos e clérigos (Cf. Sl 67, 14). E, no entanto, terão as asas prateadas da pomba para ir com a pura intenção da glória de Deus e da salvação das almas aonde o Espírito Santo os chamar, e deixarão atrás de si, nos lugares onde tiverem pregado, tão somente o ouro da caridade que é o cumprimento de toda a lei.
Enfim, sabemos que serão verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, que seguirão as pegadas de sua pobreza, humildade, desprezo do mundo e caridade, ensinando a via estreita de Deus na pura verdade, segundo o santo Evangelho, e não segundo as máximas do mundo, sem se afligir nem fazer acepção de pessoa, sem poupar, ouvir nem recear nenhum mortal, por poderoso que seja.
Terão em sua boca a espada de dois gumes da palavra de Deus; carregarão nos seus ombros o estandarte ensanguentado da Cruz, o crucifixo na mão direita, o terço na esquerda, os sagrados nomes de Jesus e de Maria em seu coração, e a modéstia e mortificação de Jesus Cristo em toda a sua conduta.
Eis os grandes homens que virão, suscitados por Maria, por ordem do Altíssimo, para estender seu império sobre o dos ímpios, idólatras e maometanos.
Mas, quando e como isso acontecerá?...
Só Deus o sabe. Cabe a nós calar, rezar, suspirar e esperar: “Esperei firmemente no Senhor” (Sl 39, 2).
Tradução de Benoît Six · Editora Retornarei, 6ª edição, 2024. Edição, fontes e direitos.