Esaú tinha vendido a Jacó seu direito de primogenitura. Vários anos depois, Rebeca, mãe dos dois irmãos, que amava ternamente Jacó, assegurou-lhe essa vantagem por meio de um expediente santo e cheio de mistérios.
Aconteceu que Isaac, sentindo-se muito velho, quis abençoar seus filhos antes de morrer. Chamou seu filho Esaú, a quem amava, e mandou-o caçar algo para ele comer e, em seguida, dar-lhe a sua bênção. Rebeca avisou imediatamente Jacó sobre o que se passava e o mandou ir pegar dois cabritos no rebanho.
Logo que este os entregou à sua mãe, ela os preparou como sabia que Isaac gostava. Vestiu Jacó com as roupas de Esaú, que ela guardava. Cobriu-lhe as mãos e o pescoço com a pele dos cabritos, para que o pai, que estava cego, julgasse, pelo contato com os pelos da mão, que se tratava de Esaú, embora ouvisse a voz de Jacó.
Isaac, com efeito, surpreendido com a voz que acreditava ser a de Jacó, mandou-o se aproximar. Tendo tocado os pelos da pele de cabrito que cobria as mãos dele, disse que, na verdade, a voz era a de Jacó, mas as mãos eram as de Esaú.
Depois de ter comido e sentido, ao beijar Jacó, o cheiro de suas roupas perfumadas, ele o abençoou e lhe desejou o orvalho do céu e a fecundidade da terra; estabeleceu-o senhor de todos os seus irmãos, e terminou sua bênção por estas palavras: “Maldito seja quem te amaldiçoar e bendito quem te abençoar” (Gen 27,29).
Assim que Isaac terminou de pronunciar essas palavras, entrou Esaú trazendo já preparado o que tinha apanhado na caça, para que o pai comesse e o abençoasse em seguida. Esse santo patriarca ficou tomado de incrível surpresa ao compreender o que tinha se passado. Porém, longe de retratar o que fizera, o confirmou, pois reconhecia no ocorrido claramente o dedo de Deus.
Esaú então lançou rugidos, como nota a Sagrada Escritura, e, acusando com fúria o ardil de seu irmão, perguntou a seu pai se tinha apenas uma bênção. Neste ponto, como observam os santos Padres, Esaú é a imagem daqueles que, conciliando facilmente Deus com o mundo, querem gozar ao mesmo tempo as consolações do Céu e as da terra.
Isaac, tocado pelos gritos de Esaú, o abençoou afinal, mas com uma bênção terrena, sujeitando-o ao seu irmão, o que fez Esaú conceber um ódio tão entranhado contra Jacó que, para matá-lo, só esperava pela morte do pai. E Jacó não teria podido evitar a morte, se Rebeca, sua querida mãe, não o tivesse salvado pelas diligências e pelos bons conselhos que lhe deu, os quais ele seguiu.