TRATADO DA VERDADEIRA DEVOÇÃO

Preparação e práticas

Parágrafos 226 a 256 · Índice temático para navegação

Índice do Tratado
226.

Embora o essencial desta devoção consista no interior, não deixa de ter várias práticas exteriores que não devem ser negligenciadas: “Eis o que era preciso fazer em primeiro lugar, sem, contudo, deixar o restante” (Mt 23, 23). Seja porque as práticas exteriores bem feitas ajudam as interiores, seja porque recordam ao homem, que se conduz sempre pelos sentidos, o que ele fez ou deve fazer; seja, ainda, porque podem edificar o próximo que as vê, o que não ocorre com as práticas puramente interiores.

Portanto, que nenhum mundano critique nem aqui se intrometa, para dizer que a verdadeira devoção reside no coração, que é preciso evitar as exterioridades, pois pode haver nisso vaidade, que é preciso ocultar a devoção, etc. Eu lhe respondo com meu Mestre: “Que os homens vejam vossas boas obras, a fim de que glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 16). Não que se deva fazer suas ações e devoções exteriores, como diz São Gregório, para agradar aos homens e disso tirar qualquer louvor, pois tal seria vaidade. Mas algumas vezes são feitas diante dos homens no intuito de agradar a Deus e de fazê-Lo glorificar por esse meio, sem se preocupar com desprezos ou louvores dos homens.

Mencionarei apenas resumidamente algumas práticas exteriores, que chamo de exteriores não porque são feitas sem o interior, mas porque têm algo de exterior que as distingue das que são puramente interiores.

227.

Primeira prática. Aqueles e aquelas que quiserem abraçar esta devoção particular (que não está erigida em confraria, embora isto fosse de desejar), depois de terem empregado pelo menos doze dias para esvaziar-se do espírito do mundo, contrário ao de Jesus Cristo, como disse na primeira parte desta preparação para o Reino de Jesus Cristo, empregarão três semanas para se encher de Jesus Cristo por meio da Santíssima Virgem.

Eis a ordem que poderão seguir:

228.

Durante a primeira semana, empregarão todas as suas orações e atos de piedade para pedir o conhecimento de si mesmos e a contrição de seus pecados. Farão tudo em espírito de humildade.

Para isso, poderão, se quiserem, meditar no que eu disse sobre nosso fundo mau e se considerar, nos dias dessa semana, como caracóis, lesmas, sapos, porcos, cobras e bodes. Ou ainda meditar nestas três palavras de São Bernardo: Pensa no que foste, um pouco de lama; no que és, um vaso de estrume; no que serás, alimento de vermes.

Pedirão a Nosso Senhor e ao Espírito Santo que os iluminem, por estas palavras: “Senhor, que eu veja” (Lc 18, 41); ou Que eu me conheça; ou Vinde, Espírito Santo, e dirão todos os dias a ladainha do Espírito Santo e a oração que segue.

Recorrerão à Santíssima Virgem e Lhe pedirão essa grande graça que deve ser o fundamento das outras. Para isso dirão, todos os dias, o Ave maris Stella e sua ladainha.

229.

Durante a segunda semana, aplicar-se-ão em todas as suas orações e obras de cada dia, para conhecer a Santíssima Virgem.

Pedirão esse conhecimento ao Espírito Santo.

Poderão ler e meditar o que sobre isso dissemos.

Recitarão, como na primeira semana, a ladainha do Espírito Santo e o Ave maris Stella, e, além disso, um rosário todos os dias, ou pelo menos um terço, nessa intenção.

230.

Empregarão a terceira semana em conhecer Jesus Cristo.

Poderão ler e meditar o que dissemos a esse respeito, e dizer a oração de Santo Agostinho que vem no começo da segunda parte (n. 67).

Poderão, com o mesmo Santo, dizer e repetir cem e cem vezes por dia: “Senhor, que eu Vos conheça!” ou então, “Senhor, que eu veja quem sois!”.

Recitarão, como nas semanas precedentes, a ladainha do Espírito Santo e o Ave maris Stella, e acrescentarão todos os dias a ladainha do Santíssimo Nome de Jesus.

231.

Ao cabo dessas três semanas, confessar-se-ão e comungarão na intenção de se darem a Jesus Cristo, na qualidade de escravos de amor, pelas mãos de Maria.

E após a Comunhão, que procurarão fazer segundo o método indicado adiante, recitarão a fórmula de sua consagração, que encontrarão também mais adiante. Deverão escrevê-la ou mandá-la escrever, se não estiver impressa, e assiná-la no mesmo dia em que a fizerem.

232.

Será bom que, nesse dia, paguem algum tributo a Jesus Cristo e à sua Santa Mãe, quer como penitência pela infidelidade passada aos votos de seu Batismo, quer para manifestar a sua submissão ao domínio de Jesus e de Maria.

Esse tributo será segundo a devoção e a capacidade de cada qual: como um jejum, uma mortificação, uma esmola, uma vela. Mesmo que não dessem senão um alfinete em homenagem, mas de bom coração, isso bastaria a Jesus, que só olha a boa vontade.

233.

Todos os anos, pelo menos, renovarão a mesma consagração no mesmo dia em que a fizeram, observando as mesmas práticas durante três semanas.

Poderão até, todos os meses e todos os dias, renovar tudo o que fizeram, através destas poucas palavras: Sou todo vosso, e tudo o que tenho vos pertence, ó meu amável Jesus, por Maria, vossa Santa Mãe.

234.

Segunda prática. Recitarão todos os dias de sua vida, mas sem a isso se obrigarem, a pequena coroa da Santíssima Virgem, composta de três Pai-Nossos e doze Ave-Marias, em honra dos doze privilégios e grandezas da Santíssima Virgem.

Essa prática é muito antiga e tem seu fundamento na Sagrada Escritura.

São João viu uma mulher coroada de doze estrelas, revestida de sol e tendo a lua sob seus pés. Segundo os intérpretes, essa mulher é a Santíssima Virgem.

235.

Há várias maneiras de rezar bem essa coroinha, mas seria demasiado longo mencioná-las. O Espírito Santo as ensinará aos que forem mais fiéis a esta devoção.

No entanto, para rezá-la do modo mais simples, dir-se-á ao começar: Dignai-Vos conceder-me que Vos louve, ó Virgem Sagrada, dai-me força contra os vossos inimigos. Em seguida reza-se o Credo, depois um Pai-Nosso, quatro Ave-Marias e um Glória ao Pai. E novamente um Pai-Nosso, quatro Ave-Marias e um Glória ao Pai; e assim por diante.

No final, se dirá: “Sob a vossa proteção nos acolhemos, Santa Mãe de Deus; não desprezeis as nossa súplicas em nossas necessidades; mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita”.

236.

Terceira prática. É bastante louvável, muito glorioso e muito útil àqueles e àquelas que assim se fizeram escravos de Jesus em Maria, que usem como sinal de sua escravidão de amor, pequenas correntes de ferro bentas com uma bênção própria (indicada mais adiante).

Esses sinais exteriores, na verdade, não são essenciais, e uma pessoa pode muito bem dispensá-los, embora tenha abraçado esta devoção. No entanto, não posso deixar de louvar muito aqueles e aquelas que, depois de terem sacudido as correntes vergonhosas da escravidão do demônio (à qual o pecado original e talvez os pecados atuais os reduziram), se puseram voluntariamente sob a gloriosa escravidão de Jesus Cristo. Eles se gloriam, com São Paulo, de estarem em correntes por Jesus Cristo, mil vezes mais gloriosas e preciosas, mesmo sendo de ferro e sem brilho, que todos os colares de ouro dos imperadores.

237.

Embora outrora nada houvesse de mais infame que a cruz, no presente esse madeiro é o que há de mais glorioso no Cristianismo. O mesmo se diga dos ferros da escravidão. Nada havia de mais ignominioso entre os antigos, e ainda presentemente entre os pagãos. Porém, entre os cristãos, nada há de mais ilustre do que as correntes de Jesus Cristo, porque elas nos livram e preservam dos laços infames do pecado e do demônio, nos colocam em liberdade e nos ligam a Jesus Cristo e a Maria, não por constrangimento e força, como se faz a forçados, mas por caridade e amor, como a filhos: “Eu os atrairei a Mim”, diz Deus pela boca de um profeta, “pelo vínculo da caridade” (Os 11, 4). Estas, por conseguinte, são fortes como a morte, e, de certo modo, mais fortes ainda nas pessoas que forem fiéis em usar esses gloriosos sinais até o fim da vida.

Pois, apesar de a morte aniquilar seus corpos, reduzindo-os à podridão, não destruirá os elos de sua escravidão, já que sendo de ferro, não se corrompem facilmente. E talvez no dia da ressurreição dos corpos, no grande Juízo Final, essas correntes, que ainda lhes ligarão os ossos, façam parte de sua glória e sejam transformadas em gloriosas correntes de luz.

Felizes, pois, mil vezes felizes os escravos ilustres de Jesus em Maria que usarem suas correntes até o túmulo!

238.

Eis as razões por que se usam essas correntes:

Primeiro, é para que o cristão se lembre dos votos e promessas do seu Batismo, a renovação perfeita que deles fez por esta devoção, e a estreita obrigação que tem de lhes permanecer fiel.

O homem se conduz muitas vezes mais pelos sentidos do que pela pura fé, e se esquece facilmente de suas obrigações para com Deus, se não tiver alguma coisa exterior que o faça se lembrar delas. Ora, essas correntes servem maravilhosamente para recordar ao cristão as correntes do pecado e da escravidão do demônio, das quais o santo Batismo o livrou. E para lembrá-lo da dependência de Jesus Cristo em que se colocou pelo santo Batismo, bem como da ratificação que dela fez ao renovar as suas promessas. Uma das razões por que tão poucos cristãos pensam nas promessas do seu santo Batismo e vivem com tanta libertinagem como se nada tivessem prometido a Deus, como os pagãos, é que não trazem nenhum sinal exterior que os faça lembrar disso.

239.

Segundo, é para mostrar que não nos envergonhamos absolutamente da escravidão e servidão a Jesus Cristo, e que renunciamos à escravidão funesta do mundo, do pecado e do demônio.

Terceiro, é para se garantir e se preservar das correntes da iniquidade.

Pois temos de trazer as correntes da iniquidade ou as correntes da caridade e da salvação.

240.

Ah! meu querido irmão, quebremos as correntes do pecado e dos pecadores, do mundo e dos mundanos, do demônio e de seus asseclas, e lancemos para longe de nós seu jugo funesto: “Quebremos as suas correntes e sacudamos de nós os seus laços!” (Sl 2, 3).

“Ponhamos nossos pés”, para me servir das palavras do Espírito Santo, “em seus grilhões gloriosos, e nosso pescoço em suas coleiras” (Eclo 6, 25).

Curvemos nossos ombros e carreguemos a Sabedoria, que é Jesus Cristo, e não nos aborreçamos com suas correntes (Cf. Eclo 6, 26).

Notareis que o Espírito Santo, antes de dizer essas palavras, prepara a alma para que esta não rejeite seu importante conselho.

Eis suas palavras: “Escuta meu filho, e aceita um conselho de sabedoria, e não rejeites meu conselho” (Eclo 6, 24).

241.

Consenti, meu caríssimo amigo, que eu me una ao Espírito Santo, para vos dar o mesmo conselho: “As suas correntes são correntes de salvação” (Eclo 6, 31).

Como Jesus Cristo na cruz deve atrair tudo a Si, de bom ou mau grado, Ele atrairá os réprobos pelas correntes de seus pecados, para os prender como forçados e demônios à sua ira eterna e à sua justiça vingadora. Mas, nesses últimos tempos, Ele atrairá especialmente os predestinados pelas correntes da caridade: “Eu atrairei tudo a Mim” (Jo 12, 32). “Eu os atrairei pelo vínculo da caridade” (Os 11, 4).

242.

Esses escravos de amor de Jesus Cristo ou “prisioneiros de Jesus Cristo” (Ef 3, 1), podem usar suas correntes ao pescoço, nos braços, na cintura ou nos pés.

O Padre Vicente Caraffa, sétimo geral da Companhia de Jesus, que faleceu em odor de santidade em 1643, trazia, como sinal de sua escravidão, uma argola de ferro nos pés e dizia que lamentava não poder arrastar publicamente sua corrente. A Madre Inês de Jesus, de quem falamos, trazia uma corrente de ferro na cintura. Outras a trouxeram ao pescoço, por penitência pelos colares de pérolas que tinham usado no mundo. Alguns a trouxeram no braço, para se lembrarem, nos seus trabalhos manuais, de que eram escravos de Jesus Cristo.

243.

Quarta prática. Terão uma especial devoção ao grande mistério da Encarnação do Verbo, celebrado no dia 25 de março, que é o mistério próprio desta devoção, uma vez que ela foi inspirada pelo Espírito Santo:

a) Para honrar e imitar a dependência inefável que Deus Filho quis ter de Maria, para a glória de Deus seu Pai e para nossa salvação. Essa dependência se manifesta particularmente neste mistério em que Jesus Cristo Se torna cativo e escravo no seio da divina Maria, e onde depende d’Ela para todas as coisas;

b) Para agradecer a Deus pelas graças incomparáveis que Ele deu a Maria e, particularmente, por tê-La escolhido por sua digníssima Mãe, escolha que se realizou neste mistério.

Eis os dois fins principais da escravidão de Jesus em Maria.

244.

Reparai, por favor, que digo habitualmente: escravo de Jesus em Maria, escravidão de Jesus em Maria.

Pode-se, na verdade, como vários o fizeram até aqui, dizer-se escravo de Maria, escravidão da Santíssima Virgem. Parece-me, contudo, preferível dizer escravo de Jesus em Maria, como aconselhou o Pe. Tronson – superior geral do Seminário de São Sulpício, renomado pela sua rara prudência e sua piedade consumada – a um eclesiástico que o consultou sobre este assunto.

Eis as razões:

245.

a) Como vivemos num século orgulhoso, em que há um grande número de sábios soberbos, de espíritos fortes e críticos, que notam defeitos nas práticas de piedade mais bem estabelecidas e mais sólidas, para não lhes dar uma ocasião de crítica sem necessidade, vale mais dizer escravidão de Jesus em Maria, e dizer-se escravo de Jesus Cristo, do que escravo de Maria. Assim denomina-se esta devoção mais de acordo com o seu fim último, que é Jesus Cristo, do que com o caminho e meio para lá chegar, que é Maria. Embora se possa, na verdade, usar uma ou outra denominação, sem escrúpulos, como eu faço.

Por exemplo, um homem que vai de Orleans a Tours, pelo caminho de Amboise, pode muito bem dizer que vai a Amboise e que vai a Tours; que é viajante para Amboise e para Tours. Com a diferença, no entanto, de que Amboise é apenas seu caminho direto para ir a Tours, e que Tours é o fim último e termo de sua viagem.

246.

b) Como o principal mistério que se celebra e que se honra nesta devoção é o mistério da Encarnação, no qual se pode ver Jesus Cristo em Maria, encarnado no seu seio, é mais apropriado dizer escravidão de Jesus em Maria, de Jesus habitando e reinando em Maria, segundo esta linda prece de tantos grandes homens:

Ó Jesus, que viveis em Maria, vinde e vivei em nós, no espírito de vossa santidade, na plenitude de vossa força, na perfeição de vossas vias, na verdade de vossas virtudes, na comunhão de vossos mistérios, dominai sobre toda a potestade inimiga, em vosso espírito para a glória do Pai. Amém.

247.

c) Essa maneira de falar mostra mais claramente a união íntima que há entre Jesus e Maria. Estão unidos tão intimamente que um está todo no outro: Jesus está em Maria e Maria toda em Jesus; ou antes, Ela não existe, mas Jesus sozinho n’Ela; e seria mais fácil separar a luz do Sol, do que Maria de Jesus. Pelo que se pode chamar Nosso Senhor de Jesus de Maria, e a Santíssima Virgem, Maria de Jesus.

248.

O tempo não permite deter-me aqui para explicar as excelências e as grandezas do mistério de Jesus vivendo e reinando em Maria, ou da Encarnação do Verbo. Contentar-me-ei em dizer, em poucas palavras, que este é o primeiro mistério de Jesus Cristo, o mais oculto, o mais elevado e o menos conhecido. Foi neste mistério que Jesus escolheu todos os eleitos, com a colaboração de Maria, escondido no seu seio, que por isso é chamado pelos santos de “a sala dos segredos de Deus”S. Ambrósio, De Instit. Virg., cap. VII, n.50). Foi neste mistério que Ele operou todos os mistérios que se seguiram depois em sua vida, pela aceitação que deles fez: “Eis que venho, ó Deus, para fazer a tua vontade” (Hb 10, 7). Por conseguinte, este mistério é um resumo de todos os outros, encerra a vontade e a graça de todos. Enfim, este mistério é o trono da misericórdia, da liberdade e da glória de Deus.

O trono de sua misericórdia para nós, porque, como não podemos nos aproximar de Jesus senão por Maria, não podemos ver Jesus nem Lhe falar senão por intermédio de Maria.

Jesus, que atende sempre à sua querida Mãe, concede neste mistério sempre sua graça e sua misericórdia aos pobres pecadores: “Vamos, pois, com confiança ao trono da graça” (Hb 4, 16).

É o trono de sua liberalidade para Maria, porque, enquanto esse novo Adão permaneceu nesse verdadeiro paraíso terrestre, nele operou tantas maravilhas às ocultas que nem os anjos, nem os homens as podem compreender. Por isso os santos chamam Maria a magnificência de Deus, como se Deus só fosse magnífico em Maria: “Somente ali Nosso Senhor ostenta a sua magnificência” (Is 33, 21).

É o trono de sua glória para seu Pai, porque é em Maria que Jesus Cristo aplacou perfeitamente seu Pai, irritado contra os homens, e reparou perfeitamente a glória que o pecado Lhe havia roubado. Pelo sacrifício que fez de sua vontade e de Si mesmo, Ele deu a Deus Pai mais glória do que nunca Lhe haviam dado todos os sacrifícios da Antiga Lei. Por fim, Ele Lhe deu [em Maria] uma glória infinita, que jamais havia recebido do homem.

249.

Quinta prática. Terão uma grande devoção em recitar a Ave Maria, ou a Saudação Angélica, da qual poucos cristãos, embora esclarecidos, conhecem o valor, o mérito, a excelência e a necessidade.

Foi preciso que a Virgem Maria aparecesse várias vezes a grandes santos muito esclarecidos para lhes mostrar o mérito desta oração, como a São Domingos, a São João de Capistrano, ao Beato Alano de la Roche.

Eles compuseram livros inteiros sobre as maravilhas e a eficácia desta prece para converter os pecadores. Publicaram e pregaram abertamente que a salvação do mundo tendo começado pela Ave Maria, a salvação de cada um em particular estava ligada a esta prece. Foi esta prece que trouxe à terra seca e estéril o fruto da vida, e é esta mesma prece, bem rezada, que deve fazer germinar em nossas almas a palavra de Deus e dar o fruto de vida, Jesus Cristo. A Ave Maria, dizem, é um orvalho celeste que rega a terra, quer dizer, a alma para fazê-la dar seu fruto no tempo oportuno. E a alma que não for regada por esta prece ou orvalho celeste, não dará fruto, mas apenas sarças e espinhos, e está prestes a ser amaldiçoada.

250.

Eis o que a Santíssima Virgem revelou ao Beato Alano de la Roche, como está assinalado em seu livro De dignitate Rosarii, depois citado por Cartagena: “Sabe, meu filho, e faze-o conhecer a todos, que um sinal provável e próximo de condenação eterna é ter aversão, tibieza e negligência em rezar a Saudação Angélica, que salvou todo o mundo” (Lib. de Dignit., cap II).

Palavras tão consoladoras quanto terríveis, a que dificilmente se daria crédito se não tivéssemos esse santo por garantia, São Domingos antes dele, e depois vários grandes personagens, com a experiência de muitos séculos.

Pois sempre se verificou que os que trazem o sinal da condenação, como todos os hereges, os ímpios, os orgulhosos e os mundanos, odeiam e desprezam a Ave Maria e o terço.

Os hereges ainda aprendem e rezam o Pai-Nosso, mas não a Ave Maria, nem o terço. Têm horror a eles: preferiam trazer consigo uma serpente a um terço.

Os orgulhosos também, embora católicos, como têm as mesmas inclinações que seu pai Lúcifer, desprezam ou votam indiferença à Ave Maria, considerando o terço como uma devoção para efeminados, própria para ignorantes e analfabetos.

Pelo contrário, a experiência tem mostrado que aqueles e aquelas que apresentam grandes sinais de predestinação, amam, saboreiam e rezam com prazer a Ave Maria, e que quanto mais são de Deus tanto mais amam esta prece.

É o que Nossa Senhora diz também ao Beato Alano na sequência das palavras que acabo de citar.

251.

Não sei como isto se faz nem por que, mas não deixa de ser verdadeiro: não tenho melhor segredo para conhecer se uma pessoa é de Deus, do que ver se ela ama rezar a Ave Maria e o terço. E digo ama, porque pode acontecer que uma pessoa esteja na impossibilidade natural ou mesmo sobrenatural de a rezar, mas sempre a ama e a aconselha aos outros.

252.

Almas predestinadas, escravas de Jesus em Maria, ficai sabendo que a Ave-Maria é a mais bela de todas as orações, depois do Pai-Nosso. É a saudação mais perfeita que podemos dirigir a Maria, porque é a que o Altíssimo Lhe transmitiu por um arcanjo, a fim de Lhe ganhar o coração. E teve sobre este tanto poder, pelos encantos secretos de que está cheia, que Maria consentiu na encarnação do Verbo, apesar da sua profunda humildade.

Será também por meio desta saudação que Lhe ganharemos infalivelmente o Coração, se a rezarmos como convém.

253.

A Ave Maria bem rezada, isto é, dita com atenção, devoção e modéstia, segundo os santos, é a adversária que põe o demônio em fuga e o martelo que o esmaga; é a santificação da alma, a alegria dos anjos, a melodia dos predestinados, o cântico do Novo Testamento, o gozo de Maria e a glória da Santíssima Trindade.

A Ave Maria é um orvalho do Céu, que torna a alma fecunda; é um ósculo puro e amoroso que se dá em Maria; é uma rosa vermelha que se Lhe oferece, uma pérola preciosa que se Lhe dá, é uma taça de ambrosia e de néctar divino que se Lhe entrega.

Todas essas comparações são dos santos.

254.

Portanto, rogo-vos encarecidamente, pelo amor que vos tenho em Jesus e Maria, que não vos contenteis em recitar a coroinha da Santíssima Virgem, mas que rezeis o terço, e até, se tiverdes tempo, o rosário diariamente. E vós bendireis, na hora da morte, o dia e a hora em que me acreditastes. Depois de terdes semeado sob as bênçãos de Jesus e de Maria, recolhereis bênçãos eternas no Céu: “Aquele que semeia em abundância, colherá em abundância” (2Cor 9, 6).

255.

Sexta prática. Para agradecer a Deus as graças que concedeu à Santíssima Virgem, dirão frequentemente o Magnificat, a exemplo da beata Maria de Oignies e de vários outros santos.

É a única prece e a única composição da Virgem Maria, ou melhor, que Jesus realizou n’Ela, pois Ele falava pela sua boca.

É o maior sacrifício de louvor que Deus recebeu na lei da graça.

É, de um lado, o mais humilde e o mais agradecido, e de outro, o mais sublime e o mais elevado de todos os cânticos. Há nele mistérios tão grandes e tão escondidos que os anjos os ignoram.

Gerson, que foi um médico tão piedoso e tão sábio, depois de ter empregado uma grande parte de sua vida em compor tratados tão cheios de erudição e de piedade sobre as mais difíceis matérias, no fim da sua vida, empreendeu com tremor, a explicação do Magnificat, a fim de com isso coroar todas as suas obras.

Num volume in-folio que sobre ele escreveu, diz coisas admiráveis desse belo e divino cântico. Entre outras coisas, afirma que a própria Santíssima Virgem o recitava muitas vezes, e particularmente depois da Santa Comunhão, em ação de graças.

O sábio Benzônio, explicando o mesmo Magnificat, relata vários milagres operados pela sua força, e diz que os demônios tremem e fogem quando ouvem estas palavras do cântico: “Manifestou o poder do seu braço e confundiu os orgulhosos nos pensamentos de seus corações” (Lc 1, 51).

256.

Sétima prática. Os fiéis servidores de Maria devem desprezar, odiar e fugir muito do mundo corrompido, e servir-se das práticas de desprezo do mundo, que indicamos na primeira parte.

Tradução de Benoît Six · Editora Retornarei, 6ª edição, 2024. Edição, fontes e direitos.

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